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sexta-feira, 22 de maio de 2026

Quando a memória é de plástico

Tornei a Fafe e fui à minha procura. Queria revisitar e mostrar o sítio exacto de onde a extraordinária matriarca dos Summavielles me atirava o retrato de Salazar, que na verdade era o "burro" de um baralho de cartas, como já aqui contei. Queria registar a frontaria que sei de cor da casa principal da família rica, um belíssimo palácio brasileiro que eu conheci por dentro e de boca aberta numa Páscoa em que fiz calos com a sineta do compasso. (Leio num interessante texto do blogue Sala de Visitas do Minho que o edifício da Rua Monsenhor Vieira de Castro foi construído em 1862. Idade de respeito.)
A famosa sacada ainda lá está. O meu passeio também. O resto não. Não sei há quanto tempo nem porquê e não me interessa por culpa de quem, a casa-mãe dos Summavielles está tapada por duas telas pintadas ao mau gosto dos piores cenários de teatrinho de escola do século passado. E mesmo em frente à nova jóia da coroa cultural da autarquia, o renovado Teatro-Cinema.
Se pensam que é uma crítica, estão enganados. Até porque, repito, não sei o que se passa e os gostos são relativos, como os pronomes. Só tive pena. Também pena de não poder fazer o retrato. Fiz isto:

Foto Hernâni Von Doellinger

O textinho de abertura e a fotografia publiquei-os no meu blogue Tarrenego! no dia 20 de Abril de 2012. Há dez anos, portanto. Consegui saber nessa altura que haveria um projecto arquitectónico para salvar o histórico imóvel, mas os seus autores ou representantes deixaram-me sem mais informações. Dez anos passaram e leio hoje no Expresso de Fafe que a Casa de José Florêncio Soares, assim se denominará oficialmente o edifício, estará actualmente "num estado calamitoso de degradação" e que há um trabalho premiado contendo "propostas" para a sua "reabilitação e requalificação". Fico mais descansado.
Marcamos então encontro para daqui a mais dez anos. Entretanto, aos alegados responsáveis pelo património fafense, estimo-lhes as melhoras.

P.S. - Publicado, aqui, no dia 7 de Outubro de 2022. Acabo de saber, pelo jornal O Minho, que parte da casa histórica e simbólica, talvez até icónica porém abandonada, ruiu ontem e foi preciso chamar os bombeiros e a polícia. Evidentemente.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Uma excelente pessoa

Foto Facebook António José Seguro

Afinal confirma-se: António José Seguro, que parece uma excelente pessoa, é mesmo uma excelente pessoa. A prova dos noves foi-nos dada pelos cidadãos que o conhecem melhor, no dia-a-dia, fora da política, sem truques nem propaganda, os seus conterrâneos e vizinhos. Nas eleições de domingo, Seguro ganhou com quase 45 por cento nas Caldas da Rainha, onde vive, e venceu com mais de 70 por cento em Penamacor, concelho onde nasceu. Estão tiradas as dúvidas. António José Seguro é realmente uma excelente pessoa. Agora: eu tenho dois ou três amigos que também são excelentes pessoas, mas, sinceramente, não consigo vê-los como presidentes da República. Eu próprio sou uma excelente pessoa às vezes, não é para me gabar, e evidentemente não me sinto capaz de, só por isso, concorrer a Belém. Portanto, a questão que se coloca é esta: dignidade, decência, sensatez, serenidade, moderação, ponderação, tolerância, honestidade, honradez, carácter, humanismo, elevação, verdade, educação, gentileza, isto é, ser-se uma excelente pessoa, como António José Seguro comprovadamente é, será argumento suficiente para alguém ser escolhido para Presidente da República, o mais alto cargo da Nação? É. É. É. Já era há uma semana e é agora ainda mais. É suficiente, necessário e essencial, sobretudo quando a alternativa dá pelo nome de André Ventura.

(Do meu blogue Tarrenego!)

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Os meus mistérios de Fafe


É no blogue Mistérios de Fafe que eu publico, desde o início do ano, os meus textos sobre Fafe, sobre vidas, pessoas, usos, falares e acontecimentos do meu tempo de Fafe e após, isto é, sobre o modo como o recordo ou quero recordar. Histórias e memórias pessoais, juvenis e profissionais, velhas amizades, cromos e admirações, cenas gagas ou desgraçadas, pilhérias, peripécias, é o que por lá conto. E mantenho activos os blogues Tarrenego!, mais generalista e "nacional", e Fafismos, este.

(Mistérios de Fafe pode ser visto e lido em - https://misteriosdefafe.blogspot.com/)

sábado, 27 de setembro de 2025

Novo aeroporto de Lisboa é em Fafe

Foto Hernâni Von Doellinger

Foi no final de 2023. A notícia saiu no insuspeito tablóide britânico The Sun e portanto só pode ser verdade: Fafe é "a cidade mais barata de Portugal". Pelo menos, para inglês ver. Quem me alertou para a magnífica novidade foi o nosso Pedro Dantas, que está lá na Velha Albion e sempre atento a estas extraordinarices. De acordo com o bem informado artigo, que, nem de propósito, confunde o Palacete dos Dantas com a Igreja Românica de Arões, Fafe, "uma cidade pouco conhecida em Portugal", ficou em primeiro lugar num ranking de barateza turística elaborado por uma entidade alegadamente chamada Porto Travel Guide. Mais de cem cidades portuguesas terão sido "analisadas por especialistas", e Fafe ganhou, à frente de Oliveira de Azeméis, Famalicão, Ovar e Amarante, só para se ter uma ideia.
E o que é que Fafe tem? Pois, para além da igreja e do palacete levados ao engano, Fafe tem a Casa do Penedo e a Casa do Santo Velho, na minha rua, e "um enorme parque aquático ao ar livre", embora os indígenas prefiram refrescar-se "no reservatório local chamado Barragem de Queimadela". Para além disso, garante o indesmentível The Sun, Fafe tem "comida e bebida baratas", "restaurantes baratos e hotéis económicos". É pouquinho? Mas é de boa vontade.
Isto aqui vai ser outra vez o fim do mundo, vamos ficar a nadar de camones. E convém que parem por aí os estudos uns atrás dos outros que só dão despesa e não vão a lado nenhum. Nem Portela, nem Portela + 1, nem Portela + 2, nem Montijo, nem Alcochete, nem Santarém, nem Pegões, nem Rio Frio, nem Poceirão, nem Beja, nem Monte Real, nem Alverca. Nada disso. O novo aeroporto de Lisboa só pode ser em Fafe! Em Fafe, mais exactamente na freguesia de Golães, cumprindo-se enfim a viperina profecia da má-língua de outros tempos.
Ó gente da minha terra, abaixaide-vos! Vai vir charters...

P.S. - Publicado originalmente no meu blogue Tarrenego! e, depois, aqui, no dia 20 de Novembro de 2023. Hoje é Dia Mundial do Turismo. Por falar nisso, o Festival Gastronómico da Vitela Assada à Moda de Fafe está marcado já para a próxima semana, de 3 a 5 de Outubro, no Parque da Cidade.

sexta-feira, 25 de julho de 2025

O terraplanista

Desenho Nestinho

A Terra tem diversos movimentos. Os mais famosos movimentos da Terra são o movimento de rotação, que é a Terra a andar egocentricamente à volta de si mesma - tipo Jorge Jesus ou André Ventura, sem ofensa para o primeiro - , e o movimento de translação, que é a Terra, agora modesta e submissa, hipnotizada, a andar à volta do Sol, qual aborboletinha avoando em torno dos afilamentos das alâmpadas, como diria o outro, o das imitações. Ora bem. O que me espanta é que tanto safanão não desequilibre a Terra nem a faça entornar os oceanos ou despencar por aí abaixo os desgraçados habitantes do hemisfério sul que praticam o pino durante o ano inteiro. Quer-se dizer: não desequilibra mas incomoda. E por estas e por outras é que a Terra anda ligeiramente chateada nos pólos.

P.S. - Desenho do Nestinho, Ernesto Brochado, criado expressamente para o meu blogue Tarrenego!

sábado, 19 de abril de 2025

Mistérios de Fafe


Como já aqui anunciei, desde o início do ano que tenho em funcionamento um novo blogue - Mistérios de Fafe, título que pedi emprestado à obra de Camilo Castelo Branco, quando se assinala o bicentenário do nascimento do escritor. É lá que estou a compilar, rever e "passar a limpo", com importantes acrescentos, versões optimizadas dos meus textos sobre Fafe, sobre vidas, pessoas, usos, falares e acontecimentos do meu tempo de Fafe e após, isto é, sobre o modo como o recordo ou quero recordar. Histórias e memórias pessoais, juvenis e profissionais, velhas amizades, cromos e admirações, cenas gagas ou desgraçadas, peripécias, é o que conto. Exclusivamente.
Se Fafe lhe interessa, se é habitual leitor do Fafismos, ou parou aqui por acaso, se gosta do que leu, então dê também uma saltada a Mistérios de Fafe, porque, estou em crer, poderá gostar ainda mais. Os títulos, alguns, parecerão os mesmos, mas os conteúdos apresentam-se substancialmente melhorados, pelo menos é o que eu pretendo. E os originais também já começam a sair.

(Mistérios de Fafe pode ser visto e lido em - https://misteriosdefafe.blogspot.com/)

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

O descompostor

Paulo Rangel, ministro dos Negócios Estrangeiros, terá dado uma descompostura "semipública" a quatro deputados do PSD, chamando-lhes "terroristas anti-Hamas". O episódio é contado pela revista Sábado, que recorda outro momento em que o governante exprimiu "desagrado de forma enfática", em Outubro do ano passado, numa cena gaga com militares, incluindo altas patentes, na base de Figo Maduro.
O ministro dos Negócios Estrangeiros é, por antonomásia e dever de ofício, o chefe da diplomacia. E o diplomata é, por definição, um homem reservado e de fino trato, um indivíduo circunspecto, grave, cortês, cauteloso, prudente, ponderado, sensato, distinto, elegante, delicado, conciliador. "Ser diplomata é discordar sem ser discordante", sentenciou um dia Millôr Fernandes.
Posto isto, tenho de partilhar o seguinte, em defesa do ministro dos Negócios Estrangeiros: eu creio que Paulo Rangel não é descompostor por opção, malícia ou ódio, sequer por delírio de poder, agora que está no Governo. É-o por feitio, está-lhe no sangue. Em boa verdade, Rangel é um descompostor que vem de longe.
Algures pelos primeiros anos deste século, outro Paulo, Paulo Portas, veio ao Salão Árabe da Bolsa do Porto, convidado para fazer uma importante conferência sobre não sei quê. E fez. Uma conferência que objectivamente não ficou para a História, uma vez que, tirante a minha memória, não encontro na internet (desculpai-me o antiguismo) um único registo a esse respeito. Mas a coisa aconteceu, porque eu estive lá. Foi à noite. E Paulo Rangel marcou presença.
Portas foi apresentado, lá disse o que achou que tinha a dizer, terminou, ouviram-se os aplausos da ordem, educados e bem medidos, não fosse haver malévolas interpretações, e Rangel, agasalhado entre os jornalistas, sentenciou, sem que alguém lhe tivesse perguntado: - Que fraquinho! Se fosse meu aluno, dava-lhe negativa, reprovava...
Se ficou por aí? Não! Paulo Rangel, levantou-se, pegou na imprensa e foi ter com o conferencista, dando-lhe conta do seu desconsolo e das suas mais veementes discordâncias, derivado ao que acabara de sair daquele púlpito. Paulo Portas ouviu-o distraidamente e respondeu-lhe "já estou atrasado", como quem ouve e responde a um molho de palha de aço, virou costas e foi-se embora. E é assim que eu me lembro.

P.S. - Publicado originalmente no meu blogue Tarrenego!

terça-feira, 7 de janeiro de 2025

Artur Jorge, o circunspecto

Foto Lusa

Antigamente não havia Liga Revelação nem equipas B, tínhamos, era, às quartas-feiras à tarde, o campeonato de reservas. Nas reservas jogavam os mais fraquinhos da equipa principal, que raramente entravam em campo ao domingo, duvidosas aquisições à experiência, ex-lesionados em fase final de recuperação e jovens promessas recrutadas aos juniores para fazerem número. Não existia treinador das reservas. A equipa era, por assim dizer, orientada pelo treinador do primeiro time, que geralmente delegava num dos seus adjuntos. Lembro-me vagamente de jogos de reservas em Fafe, ainda no tempo do Campo da Granja, mas sobretudo do FC Porto, quase duas décadas mais tarde, no campo de treinos n.º 1 do Estádio das Antas, entalado entre as costas da "maratona" e a zona de pavilhões e piscina, onde passei tardadas a ensinar portismo ao meu filho recém-nascido. Muitos dos grandes craques azuis e brancos, futuras estrelas mundiais, vi-os ali em início de carreira, ou, em todo o caso, antes da afirmação definitiva, medindo forças desiguais com as poderosíssimas equipas do Senhora da Hora, do Candal, do Infesta ou, vá lá, do Salgueiros, do Leixões ou do Boavista.
Uma vez, Artur Jorge era treinador do FC Porto e foi para o banco num desses jogos de reservas. A certa altura do encontro, resolveu fazer uma substituição e deu ordens a um jogador para aquecer. O jogador, e nem lhe recordo o nome, tirou o blusão para vestir a camisola, colocou as caneleiras com adesivo e tudo, puxou as meias para os joelhos, calçou-se e estava a começar a atar os cordões das chuteiras quando o treinador olhou para trás, estendeu o dedo apontando dali para fora e mandou-o tomar banho, isto é, recolher aos balneários, assim a frio. Alteração táctica na substituição? Nada disso. Apenas castigo. Artur Jorge, que não raras vezes fazia substituições logo nos primeiros minutos de jogo, se pressentia alguém em dia não ou a dormir na forma, queria os seus homens sempre prontos para o que desse e viesse. Preparados e alerta, permanentemente disponíveis para o imediatamente. Mesmo os que ficavam no banco, que era local de trabalho. Isso. O banco de suplentes, com Artur Jorge, não era beira de piscina.

Artur Jorge era homem de poucas falas. Distante, dizia-se. Exigente, duro, mantinha realmente distância em relação aos seus jogadores, que fazia questão de só "conhecer" no emprego, isto é, no balneário e no campo. De resto, nada de convívio, nada de confianças. Cá fora, na vida real, até os cumprimentos só se fossem por telepatia. Era assim nas Antas, onde os vi chegar e sair, treinador e jogadores, tantas e tantas vezes, passando um pelos outros como se nem os visse. Tinha sido assim na sua época de Vitória de Guimarães, como adjunto ou treinador de campo de José Maria Pedroto, por volta de 1980, se não estou em erro. O Vitória vinha regulamente treinar a Fafe, às vezes, na preparação de jogos nocturnos, vinha ao final do dia, daqueles dias curtos e agrestes do antigo Inverno minhoto, acendia-se a iluminação que havia, fraquinha mas de boa vontade, e o Estádio ficava à média-luz, como se fosse casa de fado. Eu por acaso até gostava. Artur Jorge no meio do pelado, voz potente e rara, explicando a jogada, corrigindo posições, dando nas orelhas aos jogadores enregelados, e mestre Pedroto seguindo o treino da bancada, de pé, bem agasalhado, à civil, contando piadas finas para a corte babada à sua volta, palavra de honra. O deus Pedroto. Chamavam-lhe então manager. E eu achava que deviam ir chamar manager a outro...

P.S. - José Maria Pedroto morreu no dia 7 de Janeiro de 1985. Contava 56 anos.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

Mistérios de Fafe


Arranco o ano de 2025 com um novo blogue - Mistérios de Fafe, título que pedi emprestado à obra de Camilo Castelo Branco, quando se assinala o bicentenário do nascimento do escritor. Anunciam o abandono e morte dos blogues, e eu, como de costume em contramão, regenero-os e multiplico-os. Não prometo grandes novidades, é certo, mas ofereço mais do que baralhar e dar de novo. Mistérios de Fafe conterá, para começar, todos os meus textos já publicados sobre vidas, pessoas e acontecimentos do meu tempo de Fafe, isto é, sobre o modo como o recordo ou quero recordar. Todos os textos serão revistos e geralmente aumentados, passados a limpo, por assim dizer, à espera talvez de uso futuro, mas, de momento, sem um objectivo concreto no horizonte. Por outro lado, e sempre que possível, os textos serão expurgados das notas de actualidade a que amiúde estão conectados nos meus outros dois blogues - Tarrenego! e Fafismos (De Fafe, com muito gosto). Nenhum texto será igual à sua versão anterior, isso é garantido.
Mistérios de Fafe será o meu arquivo privilegiado, o meu caderno de apontamentos favoritos,  provavelmente para nada. Memórias pessoais, juvenis e profissionais, velhas amizades, cromos e admirações, cenas gagas ou desgraçadas, "adultérios, homicídios, missionários e outros cirros sociais", como dira Camilo, tudo será ali contado, portanto cuidado, muito cuidado! O ritmo de publicação em Mistérios de Fafe será vagarento, a seu-meu bel-prazer, sem agenda nem calendário, porque esta vida são dois dias e estamos praticamente no Carnaval, que são três.
É esta a ideia. Pelo menos, em princípio...

(Mistérios de Fafe pode ser visto e lido em - https://misteriosdefafe.blogspot.com/)

quarta-feira, 4 de setembro de 2024

Da pornografia às artes performativas

Foto Hernâni Von Doellinger
Riscado da lista de pagamentos da Capital Europeia da Cultura 2012, o Teatro Jordão está para ali, com todo o aspecto de abandonado e esquecido, a um mês de fazer 75 anos. É mais uma triste metáfora do desgraçado país que somos. Já li sobre reabilitações, orquestras sinfónicas, bandas, academias, artes dramáticas e visuais, universidades, estudos, anteprojectos, projectos - e nada. Tretas e mais metáforas. Havia umas obras marcadas para terem início em 2013 e eu não sei porquê mas não acredito nelas. Já não há metáforas que aguentem. Não sei o que Guimarães pensa ao certo do caso, mas a mim parece-me que o azar do Jordão é a vizinhança: o mau-olhado do Centro Cultural Vila Flor que lhe fica resvés e come tudo, tudo, tudo, como o Sebastião da ancestral cantiga.
Também não sei o que o Teatro Jordão significa realmente para os vimaranenses e se a cidade reivindica a preservação física da velha sala de espectáculos. Sei o que o Jordão significa para mim, mas a minha memória vai para além das pedras. A casa pode vir abaixo, que as recordações daqui não saem.
De Fafe, ia-se ao cinema a Guimarães. "Chove em Santiago", o filme de Helvio Soto sobre os últimos dias do governo de Salvador Allende e o golpe militar no Chile, vi-o pela primeira vez no Jordão de casa cheia e a explodir de repente numa enorme manifestação antifascista, comício de ignição espontânea, de raiva, o pessoal de pé em cima das cadeiras, de punhos cerrados e erguidos, com uma única e cada vez mais vociferada palavra de ordem - Filhos da puta! Filhos da puta!! Filhos da puta!!!
Andávamos ainda com o fogo do 25 de Abril no rabo e ninguém nos aturava. Bons tempos aqueles, havia sonhos.
O "Jordáohe", como se chama em "Guimaráes", tinha um excelentíssimo restaurante nos fundos e foi também o cinema dos meus primeiros filmes pornográficos. Era a novidade. A pornografia acabara de chegar a Portugal, com a bendita liberdade, que afinal é sempre um pau de dois bicos. Devo esclarecer, por falar nisso, que os filmes pornográficos do Jordão faziam muito mal aos intestinos, pior do que garrafão de vinho doce bebido de uma assentada. Nos intervalos era um ver se te avias para ir à retrete, filas imensas de braguilhas aflitas à porta das sentinas, porque os urinóis para o caso em apreço não serviam.
Quando me internacionalizei, um ou dois anos depois, em França, pude verificar que com os estrangeiros, muito mais batidos na matéria, a coisa funcionava de maneira diferente. Para além de cada qual poder escolher o lugar que quisesse na sala praticamente às moscas, não era preciso esperar pelo intervalo nem ir à casa de banho para esgalhar o pessegueiro - era ali mesmo, à Lagardère. Já se sabe: os castiços dos franceses, toujours en avance...

Já agora: ao contrário do que muito boa gente pensa que sabe, incluindo alguns figurões com alegadas responsabilidades literárias, "Chove em Santiago", célebre verso de abertura de um belíssimo poema de Federico García Lorca, não se refere a Santiago do Chile, mas a Santiago de Compostela. À minha querida Santiago de Compostela, pela qual o poeta e dramaturgo andaluz também se enamorou.
Lorca publicou em 1935 um pequeno livro a que deu o nome de "Seis Poemas Galegos". Em galego o escreveu e o poema mais conhecido do opúsculo é exactamente este:

Madrigal á cibdá de Santiago

Chove en Santiago,
meu doce amor.
Camelia branca do ar
brila entebrecida ô sol.

Chove en Santiago
na noite escura.
Herbas de prata e de sono
cobren a valeira lúa.
Olla a choiva po-la rúa,
laio de pedra e cristal.
Olla no vento esvaído,
soma e cinza do teu mar.

Soma e cinza do teu mar,
Santiago, lonxe do sol;
ágoa da mañán anterga
trema no meu corazón.


Agora para os mais distraídos. O texto supra, como é de norma referir, publiquei-o em Outubro de 2013 no meu blogue Tarrenego! Entretanto, o Teatro Jordão foi finalmente recuperado e reabilitado, como bem merecia. E foi inaugurado em Fevereiro de 2022. Ali funcionarão, suponho, a Escola de Artes Performativas e Artes Visuais da Universidade do Minho e a Escola de Música do Conservatório de Guimarães. Pelo menos. Por outro lado, e este é o nosso pretexto, Salvador Allende foi eleito presidente do Chile no dia 4 de Setembro de 1970.

sábado, 31 de agosto de 2024

Meu rico menino

Foto Facebook Joe Biafra

Uma noite, altas horas, saíamos da casa de má fama ali para os lados da Estação e resolvemos passear descalços pelas ruas desertas e geladas da cidade. Não sei de quem foi a peregrina ideia, mas, de tão tola, decerto foi minha. Confesso que não me lembro do que pretendíamos exactamente provar, mas gosto de pensar naquele momento insólito como um ritual de fraternidade, a celebração de uma amizade antiga e inoxidável que nos ligava desde miúdos, apesar da evidente diferença de "estatuto social" entre as nossas duas famílias. Frequentara-lhe a casa - de rico, por assim dizer, e dizia-se assim naquele tempo. Dava-me o lanche, apresentou-me ao pão com manteiga e ao café com leite. Guiou-me pelos caminhos do rock. Ensinou-me os Queen, apesar das reservas. Emprestou-me "A Night at the Opera". Eu e a minha mãe deliciávamo-nos a ouvir "Bohemian Rhapsody" uma e outra vez, mais de vinte ou trinta vezes ao dia, no pequeno gira-discos francês que nos sobrara do meu pai. E ficou Queen até hoje, posto que non troppo.
Ali íamos, portanto. O Bertinho e eu. E, sim, era realmente liturgia, era festa. Glorificávamos a camaradagem desinteresseira e fiel. Éramos irmãos. Irmãos para toda a vida e depois. Ali íamos afinal iguais, ambos de pés descalços, com as botas e as meias pela mão, trocando memórias e partilhando o riso. Passávamos em frente à Câmara e parámos - éramos, penso-o agora, uma procissão, os dois. Se naquele precioso instante soltassem revoadas de pombas brancas por sobre as nossas cabeças e lançassem estrondosas girândolas de foguetes, creio que não nos espantaríamos. Nós éramos a Senhora de Antime, a festa inteira, em pessoa...
Escandalosamente generoso e bom, leal e presente, o Bertinho chamava-me "meu rico menino", e eu gostava. Eu gostava, meu rico menino!

(Já agora: Bob Dylan, aprendi-o com o Best noite dentro, em sua casa, no Lombo. Iniciei-me com "Hurricane" e sandes de fiambre, e talvez também cerveja.)

Atenção, muita atenção! Este texto, publiquei-o no dia 1 de Novembro de 2022. Hoje é Dia Internacional do Blog e celebro-o com o meu amigo. Os blogues são uma coisa muito antiga, praticamente do tempo dos romanos. Este meu blogue, Fafismos, é sobre Fafe, sobre as minhas memórias de Fafe, sobre os melhores de Fafe que eu conheci. Como o Bertinho. Escrevo outro blogue de vocação mais generalista, o Tarrenego!, são ambos blogues pessoais e intransmissíveis, mas assim do género facebook não tenho nada para oferecer. Sei que só perco, sou lido por meia dúzia de pessoas em Fafe e uma no Reino Unido, ninguém sabe quem eu sou nem como sou, e a esses todos eu esclareço: sou assim.

sábado, 24 de agosto de 2024

O segredo da Albertininha da Lameira

Foto Hernâni Von Doellinger

Os melhores bolinhos de bacalhau do mundo eram os da Albertininha da Lameira, em Fafe. Contava a lenda que estes maravilhosos bolinhos eram moldados no sovaco da prendada cozinheira, o que lhes emprestaria aquele gosto tão peculiar. A vila antiga dava-se muito a estas lendas: dizia-se também, por exemplo, que os tremoços da Marrequinha da Recta eram a especialidade que eram porque a boa senhora lhes mijava na demolha.
A verdade é esta: ainda cheguei a ver a Albertininha, numa tarde de sábado, a fazer a massa dos famosos bolinhos, de alguidar entre as pernas, junto ao fogo da lareira, na cozinha asseada e sombria, mas a história do sovaco enformador afinal era uma treta - isso posso jurar, e tive pena.
Os bolinhos do Manel do Campo também eram de se lhes tirar o chapéu. E, de um modo geral, as pensões e os tascos de Fafe faziam gala de confeccionar e servir um produto, como agora se diz, fiel às origens e de altíssima qualidade. Esta tradição local creio que se mantém, em sítios como, veio-me agora a ideia à boca, o Fernando da Sede (Adega Popular). Os bolinhos de bacalhau com salada de feijão-fradinho e arroz do Fernando surpreendiam e encantavam os visitantes, e, para os da terra, eram uma esplêndida entrada para a vitelinha que haveria de vir. Mas isso, nos dias que correm, seria já refeição a pedir uma segunda hipoteca da casa.
É. Os bolinhos "de morrer por mais" são no Minho - bem o sabia mestre Aquilino. Em Fafe, é claro, mas também no Manuel Padeiro e no Gaio, em Ponte de Lima e em dias sim, ou no desaparecido Conselheiro, em Paredes de Coura, no tempo do saudoso amigo Vilaça Pinto, sempre. Em sítios assim, que os havia bons e tantos, e cá em casa também nos ajeitamos, mas não servimos para fora...

Os piores bolinhos de bacalhau do mundo eram em Penafiel, num pequeno café cujo nome não interessa. Três mesas, dois jornais, um balcão sumário e a simpatia imensa do dono. Os bolinhos eram tão maus, tão esplendidamente maus, que eu nunca falhava quando por lá passava a horas de aperitivar. Metia o pé no degrau da entrada, ao baixo, e saía logo meia dúzia de pedras de gelo directamente da arca frigorífica para a fritadeira de óleo cansado, que é "Para o senhor, para serem fresquinhos". Eu agradecia a deferência e reservava-me. Cinco minutos, não mais. As pedras de gelo vinham para a mesa a ferver e a pingar, agora em forma aparentada com a dos verdadeiros bolinhos de bacalhau, queimavam-me a boca e antes assim, que enganavam o paladar. Não sabiam ao bacalhau que não tinham, mas também não sabiam à batata que eram só. Escangalhavam-se ao toque. Eram extraordinariamente intragáveis e eu comia-os. Já disse: o patrão era gente boa e tinha três mesas e dois jornais diários no estabelecimento. Sei dar valor às coisas verdadeiramente importantes. Para apagar o incêndio, bebia uma taça de um obscuro vinho branco de cápsula que sabia a remédio mas não me fazia bem.
A minha mulher e eu descobrimos o cafezinho por acaso e levei lá três ou quatro amigos. Para provarem "os piores bolinhos de bacalhau do mundo", era o que lhes prometia, e os amigos depois concordavam comigo. Aqueles bolinhos nunca me deixaram ficar mal. Mereciam um prémio.
Até porque nos abriam horizontes. A seguir, íamos à Pita Arisca, em Lousada, comer talvez o melhor cabrito assado do mundo...

Os de Lisboa, lisboetas de gema ou simpatizantes, têm a mania de chamar "pastéis de bacalhau" aos bolinhos de bacalhau. Néscios! É como os pândegos dos franceses chamarem "fromage" a uma coisa que toda a gente sabe que é queijo e foi inventada em Ponte do Lima. Aqui atrasado, o Miguel Esteves Cardoso escreveu sobre bolinhos de bacalhau no jornal Público. O bom do Miguel nasceu na capital, estudou em Inglaterra e confessa que só muito recentemente é que descobriu a sério o Minho. Também ele chama "pastéis de bacalhau" aos bolinhos do mesmo, mas é o Miguel, está desculpado.
O jornal é que não. Lembro-me de uma vez em que o periódico da Sonae reuniu "dois painéis de jornalistas" da casa e "especialistas em gastronomia", um painel em Lisboa e outro painel no Porto, para provarem bolinhos de bacalhau comprados fresquinhos "em diferentes pastelarias nas duas cidades". A notícia dizia que o resultado foi uma desilusão completa: as amostras recolhidas revelaram-se todas incompetentes.
Mas de que é que estariam à espera os ilustres paineleiros? Bolinhos de bacalhau em Lisboa e no Porto? E em pastelarias e cafés, percebi bem? Panikes e croissants com chocolate, isso é que os dois comités de sábios deviam ter provado. Pedissem eles arroz de grelos, pastelões de petinga, pataniscas ou caldo de nabos, e seria o mesmo desastre. Os cafés e as pastelarias do Porto e de Lisboa não são para esses preparos. Vá lá, o caldo de nabos... talvez.

Agora. Hoje são "os 21", em pleno Agosto, dia maior das Festas em Honra de Nossa Senhora da Saúde, ou Festa da Lameira, "Lameira de Agosto" ou simplesmente Lameira, que pertence à freguesia do Rego, ou São Bartolomeu do Rego, Celorico de Basto, mas para os velhos fafenses era e é como se fosse Fafe. Antigamente, neste dia, havia por lá uma valente feira de gado, e uma vez uma vaca espantou-se não sei com quê, soltou-se do sítio onde estava a guardar e correu o arraial inteiro de uma ponta a outra a espalhar o pânico e o caos em direcção à Pica, escornando e escoiceando a torto e a direito, desfazendo tendas, barracas e ornamentações, invadindo tascos e casas sérias, saltando para cima de carros e outros veículos mais ou menos motorizados e levando à frente aquele povo todo, aflito e tolo que não sabia aonde se havia de meter, anjinhos e mordomos incluídos. Eu, muito bem entrincheirado, ri-me como um perdido. Quer-se dizer: a coisa não constava do programa, mas foi uma bonita tourada...

P.S. - Publicado aqui originalmente em Setembro de 2022 e republicado, assim acrescentado, no meu blogue Tarrenego!, na passada quarta-feira, 21, dia da Lameira de Agosto.

quinta-feira, 18 de julho de 2024

Fafe e a Guerra dos Cem Anos

A Batalha de Castillon foi levada a efeito no dia 17 de Julho de 1453, fez ontem exactamente 571 anos, e ficou para a História como a derradeira e decisiva batalha da Guerra dos Cem Anos, que decorreu razoavelmente entre franceses e ingleses. A França ganhou, e félicitations à la cousine. A Guerra dos Cem Anos chama-se Guerra dos Cem Anos porque durou cento e dezasseis anos, mas chamar Guerra dos Cento e Dezasseis Anos à Guerra dos Cem Anos não dava jeito nenhum aos historiadores e contabilistas bancários, e assim começaram os arredondamentos, que saem sempre à casa. Por outro lado, a Guerra dos Cem anos ostenta este curioso e inusitado nome, Guerra dos Cem Anos, para se distinguir da Guerra dos Oitenta Anos, que se verificou não sem alguns sobressaltos entre os futuros holandeses, actuais neerlandeses ou, quiçá, países-baixistas, e Espanha, com a Guerra dos Dez Anos, entre cubanos e espanhóis, com a Guerra dos Treze Anos, entre prussianos e teutónicos, com a Guerra dos Trinta Anos, entre a Alemanha e quem lhe aparecesse à frente, com a Guerra dos Sete Anos, entre França mais aliados e Inglaterra mais aliados (incluindo Portugal), com a Guerra dos Seis Dias, entre árabes e israelitas, com a Guerra das Audiências, entre a SIC e a TVI, e até com a Guerra das Rosas, entre a Rosa Maria e a Rosa Beatriz, que não se dão nem à lei da bala e andam sempre à trolha uma contra a outra derivado ao Anacleto Lingrinhas, que por acaso é pintor de automóveis e aquece a cama a ambas. A História, assim maiusculada, não se compadece realmente com equívocos.
Ora bem. Eu cuido que a Batalha de Castillon ocorreu em Fafe, exactamente em Fafe, numa antiga elevação situada entre a Ponte do Ranha, o Socorro, a Alvorada, a Fábrica do Papelão, a casa da Dona Aurora e o Estádio, com os campos e bouças de Cavadas aos pés. Ali se alcandorava, com efeito, o famoso monte de Castelhão, como se diz em português corrente, ou Castilhom, como se diz em fafês correcto - e portanto está fácil de ver onde franceses e ingleses foram buscar local e nome para a refrega. O monte de Castelhão era, na verdade, um sítio aprazível para a realização de todo o tipo de batalhas, como por exemplo brincar aos cobóis, e tinha um belíssimo pionono, de que infelizmente não há muita certeza. Mas isso é outra história.

Em todo o caso, não será certamente despiciendo relembrar mais uma vez que Fafe, o seu centro histórico e arredores consuetudinários, sempre dispôs das melhores e mais vantajosas condições naturais e estruturais para a realização de grandes eventos e mesmo certames de índole nacional e, como se vê, até internacional ou mais, nomeadamente batalhas e guerras de uma forma geral e dos mais diversos feitios. É uma terra que fica à mão e onde medram e farturam equipamentos a esse respeito e subsídios camarários. Não por acaso, suspeito que, como já aqui demonstrei, a própria Batalha de São Mamede, fundadora da nacionalidade, foi em Fafe que realmente se desenrolou, pelo menos um bocadinho, e ainda ninguém me conseguiu provar o contrário.

(Publicado originalmente, assim revisto e aumentado, no meu blogue Tarrenego!)

sábado, 6 de julho de 2024

Como é que eu hei-de?

Foto Hernâni Von Doellinger

Meados dos anos oitenta do século passado. Eu ia a Fafe pelo Verão e em cima da Arcada, infalível, uma banca de venda de cassetes passava sem parar o sucesso do momento, "Como é que eu hei-de" ou, melhor dito, "Azar na praia", do grande Nel Monteiro. Uma e outra vez, uma vez atrás da outra, dir-se-ia que praticamente sem tirar fora, de manhã, à tarde e porventura à noite, dias úteis e inúteis, durante todo o santo horário de expediente, com serão e tudo incluído. "Como é que eu hei-de, como é que eu hei-de" era o mantra, a banda sonora daqueles dois ou três verões caseiros e suadoiros, eu e o meu irmão Lando ríamo-nos bastante por causa disso, passou a febre e nunca mais pensei no assunto.
Acontece que apanhei a velha cantiga no outro dia, por acaso, no rádio do carro, pus mais alto, é claro que pus mais alto, cantei também, cheio de garbo e perdigotos, a minha mulher servia à pinta, gostei tanto daquele inesperado reencontro que o estupor da música chegou ao fim e eu fiquei ali à espera que ela, a música do Nel, entenda-se, voltasse automaticamente ao princípio, recomeçasse em delirante moto-contínuo, como naquele tempo de abraços e vinho em Fafe, e vieram-me umas saudades do caraças, chorei como se tivesse falhado um penálti, quer-se dizer, chorei apenas um bocadinho, quase a seco.
O "Azar na praia" é hoje em dia, para mim, um clássico da verdadeira música popular portuguesa, quadrada e frequentemente desnecessária, paradoxal, convencida e ingénua, irrelevante e eterna, melodia simples e orelhuda, letra singela mas cheia de significado, como as homenagens no tempo do antigo regime e parece que agora outra vez também. A voz do Nel Monteiro, fraquinha, coitadinha, quase a fugir-lhe para parte incerta, aquela falta de ar no final das frases, os ésses rurais e honestos cantados como se trouxessem vento norte, não se arranjaria melhor nem por encomenda. E faço notar que não estou aqui no gozo. Acho esta canção realmente muito bem esgalhada, plenamente conseguida, sobretudo tendo em vista o público-alvo, tudo a bater no ponto, enfim, uma obra que só não digo que é prima porque lhe desconheço a parentela.
Manuel Teixeira Monteiro, natural de Barrô, Resende, e criado no concelho de Santa Marta de Penaguião, tem hoje 79 anos, feitos no passado mês de Maio. Para além do consagrado "Como é que eu hei-de", Nel Monteiro compôs e interpretou dezenas de outros temas que não lhe ficam muito atrás, entre os quais ouso destacar títulos igualmente inconfundíveis e paradigmáticos como "Alô, Alô, Maria Antónia", "Bronca na discoteca", "Esta miúda (dá-me cabo da cabeça)", "Bife à portuguesa", "Comboio do forró", "Santa Miquelina", "Milagre da burra", "É duro ser velho", "É duro ser mãe", "Kuduro é que é bom", "Tira o biquini amor", "Filha fizeste 18 anos", "Armanda sai da varanda", "Fico à rasca, fico à rasca" e, inesquecivelmente, "Puta vida merda cagalhões".
Nel Monteiro tem uma linda história de vida e disse uma vez que conheceu muito bem Marcelo Caetano e Salazar - "Fui sempre um ídolo dele", asseverou aliás, sem rodeios, em relação ao de Santa Comba. A extraordinária revelação entregou-a de borla à TVI, numa entrevista ao Manuel Luís Goucha, que em questão de importância, digo eu, também não é menos do que os outros dois figurões. A coisa passou-se no dia 1 de Abril de 2022. Em Dezembro do ano passado, Nel Monteiro voltou à TVI e ao Goucha para contar as necessidades que passaram, ele e a mulher, derivado à pandemia. Que "foi um sufoco muito grande", que até deixaram de levantar medicamentos da farmácia por falta de dinheiro - declararam e, naturalmente, choraram. Choraram, como é de lei nestas ocasiões.
Pronto. Hoje é Dia Mundial do Biquíni e por isso tornei a lembrar-me do nosso Nel Monteiro, especialista na matéria. Em sua honra, em honra do bom Nel Monteiro, meu fugaz ídolo estival, e em honra de todos os biquínis mais ou menos desocupados, segue-se a famosa letra do "Azar na praia", mas um azar nunca vem só. Estais à vontade e estamos no tempo: deixai-vos de merdas! Com ou sem camisa, em cuecas ou ao léu, puxai mas é o youtube, som no máximo, e cantai comigo e com ele, vozes e corações ao alto, e que se lixe a afinação e, já agora, a vizinhança também:

Banhar-nos à praia fomos tu e eu
Mas que grande bronca nos aconteceu:
A minha camisa, o vestido teu
Quando à noitinha nada apareceu.

Muito envergonhados saímos dali
Eu em tronco nu, tu em biquini.
Não tinha dinheiro, carro também não
Viemos a pé, fizemos serão.

E ela, coitadinha, muito aflitinha gritava assim:

Ai, como é que eu hei-de, como é que eu hei-de?
Como é que eu hei-de me ir embora?
Com as perninhas todas à mostra
E os marmelinhos quase de fora…

Muito envergonhados saímos dali
Eu em tronco nu, tu em biquini.
Não tinha dinheiro, carro também não
Viemos a pé, fizemos serão.

(Publicado originalmente no meu blogue Tarrenego!, a propósito do Dia Mundial do Biquíni, que foi ontem)

quarta-feira, 3 de julho de 2024

Não escarmentarás!

Foto Tarrenego!

Escarmentar. Isto é, repreender, advertir, censurar, castigar, punir, corrigir, mas também, por outro lado, adquirir experiência, ficar ensinado, tornar-se cauteloso. Em Fafe, no tempo do falar antigo e certo, o povo ligava o termo escarmentar ao conceito de lição ou desengano que faz não ter vontade de tornar a dizer ou a fazer qualquer coisa. Fazia-se asneira, corria mal, levava-se no toutiço, aprendia-se com o erro e ficava-se escarmentado, quer-se dizer, arrependido, escaldado, instantaneamente convertido, e portanto nunca mais.
A Bó de Basto usava muito a expressão e a minha mãe também. Lembro-me como se fosse hoje. O pote das couves cozidas com feijão e um cibo de toucinho era posto de pernas para o ar, em cima do testo ao contrário, para escorrer as águas ferventes no chão de terra da cozinha da Casa do Carreiro. Era o milagre da transformação da sopa em conduto, truque pataqueiro mas farturento, vida de pobre. Eu teria, não sei, talvez seis ou sete anos quando tal presenciei pela primeira vez. Fiquei espantado. E, coisa mais natural do mundo, quis perceber o que era aquilo, o que é que estava ali a fazer um pote, fora do lume, ao lado da lareira em chamas e, ainda por cima, de cabeça para baixo. Ocorreu-me então puxar por uma perna do pote para espreitar e foi o que fiz, aliás queimei-me, o raio do pote, sem o amparo da tampa, deu parte de vivo e expeliu violentamente as suas próprias entranhas, tudo de uma golfada só, esparramando couves, feijão e unto desde o canto escuro da banca até à porta sempre aberta. Que lindo! Parecia uma instalação, arte contemporânea, penso agora, assim com feitio de estrumeira. 
E eu? Eu, que estava sempre a aprontá-las, umas atrás das outras, e sempre inocente em meu modesto entender, eu não sabia se havia de rir ou de chorar, mas, pelo sim e pelo não, deitei logo as mãos às orelhas precatando-me para o pior. Falso alarme, apesar de tudo. A minha avó, já aqui contei, era uma santa, um anjo, apareceu-me pelas costas, safanou-me um bocadinho, isso é verídico, tirou-me talvez o pó da roupa e ralhou-me como só ela sabia ralhar, baixinho como se fosse segredo de nós dois, para o meu avô não dar fé, numa espécie de esconjuro poderoso e manso como um embalo que eu por acaso até gostava de ouvir, "Ah, estardalho, o diabo nunca te leve! Xô diabo, mafarrico, raiparta o estupor do moço que só faz asneiras!...", e esta parte das tropelias em cadeia era completamente verdade, não é para me gabar.
Depois a Bó prosseguia a inspecção e o responsório, agora mais preocupada comigo, a ver se eu estava bem, inteiro, percorria-me o corpo de cima a baixo, da cabeça aos pés, aflita, fazia-me festinhas na cara e nos caracóis, "Ó que tolo! Queimaste-te, moço? Aleijaste-te? Mostra! Bem feito, bem feito! Ao menos ficas escarmentado!...", e fungava.
As couves, os feijões e o cibo de toucinho foram apanhados do chão com todos os cuidados e um murmúrio de oração benzedora, apócrifa, e enfiados outra vez no pote, como quem não quer a coisa. Escondida atrás de um sorriso maroto, a minha avó fazia "Chiu!" com o dedo espetado no meio da boca. Outra vez cúmplices, só nós dois é que sabíamos. Com azeite em cru e alho picado, como estava previsto, um naco de broa e uma pinga de vinho, comeu-se que soube pela vida.
E o assunto ficou por ali. Outro galo cantaria, porém, se o lamentável episódio tivesse calhado com a minha mãe, que, como já aqui contei, na sua relação com os filhos, era uma pessoa, por assim dizer, mais demonstrativa e táctil - e teria sido de facto uma chatice para as minhas orelhas, e quem diz orelhas diz o resto. Se aprendi alguma com esta exemplar história de vida, como pretendia a minha querida Bó de Basto, se fiquei realmente escarmentado e ganhei juízo para o futuro, cuido que não. Não, certamente não. Ainda hoje, com esta idade, não posso ver pernas para o ar, que vou logo lá ver como é que aquilo funciona...

(Publicado originalmente no meu blogue Tarrenego! e depois aqui no passado dia 25 de Maio. Hoje é Dia de São Tomé, o tal de "ver para crer". Como eu, o santo...)

terça-feira, 2 de julho de 2024

Um ovni, que eu bem o vi!

Foto Hernâni Von Doellinger
Uma vez eu vi um disco voador. Vi, fotografei e publiquei - porque estas coisas são como as partes baixas, não se dizem, mostram-se. Lembro-me como se fosse no dia 14 de Janeiro de 2013. Apresentei no Tarrenego!, o meu blogue generalista, em exclusivo mundial, apresentei, dizia, o retrato indesmentível de um ovni pairando sobre o mar do Porto, do lado direito do Castelo do Queijo, com o Parque da Cidade pelas costas. Ninguém quis saber.
Semana e meia depois, o Correio da Manhã, jornal de todos os espantos e outros antiportismos, viu um ovni na América. Um ovni que, devidamente esmiuçado, não passava de "um raio resultante de um efeito luminoso" - assim explicado por especialistas. E no entanto, graças ao Correio da Manhã, o ovni americano que nunca existiu foi um sobressalto nacional. O Correio da Manhã faz tudo de uma coisa de nada. E faz nada quanto a decoro, respeito e deontologia. Deixo de fora a compaixão, que realmente não é chamada aos jornais.
Já o meu ovni passou incógnito. Não era Cascais, era no Porto, resvés com Matosinhos, e por isso ninguém ligou. Nem as agências internacionais nem o Correio da Manhã: não metia Pinto da Costa nem suicídios semelhantes, portanto não interessava para nada. E assim desperdiçamos o pouco que vamos tendo, até o que nos cai do céu, e é por estas e por outras que este país não vai para a frente.
É o que eu estou farto de dizer: dá Deus ovnis a quem não tem dentes.
Eu sei bastante de ovnis, porque em Fafe havia às vezes.

Ora bem. Hoje é Dia Mundial do Ovni. Não sei bem porquê, o Dia Mundial do Disco Voador ou Dia Internacional do Disco Voador e Dia Mundial da Ufologia observa-se, por outro lado, no dia 24 de Junho, às tantas para armar confusão com os balões de São João. A fotografia lá de cima, fidedigna e eloquente, é um documento extraordinário: repare-se que o mar até descai para a direita, como o velho bilhar do extinto Peludo, o que normalmente acontece no decurso destes raros avistamentos.

quarta-feira, 12 de junho de 2024

E o manguito do Bordalo?

A moda é nova, mas, em Portugal, o fado, a dieta mediterrânica, o cante alentejano, os chocalhos e a olaria preta de Bisalhães já tinham sido elevados aos píncaros do Património Cultural Imaterial da Humanidade. Seguiram-se a falcoaria, a louça de Estremoz, os Caretos de Podence e as Festas do Povo de Campo Maior, até ver. Fixemo-nos, porém, na falcoaria. A falcoaria, numa das suas definições mais acessíveis, é a arte de treinar e cuidar de falcões e outras aves de rapina para a caça. Os falcões e colaterais contrafacções caçam, matam e comem, em geral, outras aves e pequenos quadrúpedes que não têm lóbi na Unesco. Está certo: a Unesco é uma organização das Nações Unidas que visa contribuir para a paz e segurança no mundo mediante a educação, a ciência, a cultura e as comunicações. Com a falcoaria ficámos irremediavelmente lançados. Eu, por mim, penso agora nos sapateiros, nas mulheres-a-dias, nos falsos licenciados, nos periquitos, nos tocadores de punhetas, nos perdigueiros e, andava com esta ferrada há que tempos, nos furões.

E antes que me esqueça: por exemplo, o jogo do pau. Porque não? Ou o berlinde, a carica, o pião, o espeto, a macaca, o moche, o tene, a cabra-cega, o arranca-cebolas, o mamã-dá-licença, o esconde-esconde. Ou o jogo da malha. Ou o jogo da bisca. Ou o jogo Benfica-CUF de 22 de Março de 1959. Porque não?
Por exemplo, as Janeiras, os Reis, as novenas, o terço e a bênção do Santíssimo. Porque não? As marchas de Lisboa e as rusgas do Porto e o Pai das Orelheiras e o carnaval de Ovar e a bicha das sete cabeças e a chega de bois e as "Velhas" da Terceira e as adufeiras de Monsanto e a Justiça de Fafe e os zés-pereiras e os cabeçudos e os gigantones. Ou a cantiga no duche, ou a lengalenga do avô, ou a arenga de bêbado, ou o apita-o-comboio, ou o atirei-o-pau-ao-gato, ou o areias-era-um-camelo. Ou o canto pimba, ou o canto neiro. Porque não?
Por exemplo, os ranchos folclóricos, os conjuntos típicos, a Maria Albertina e o António Mafra, os grupos excursionistas, os motoclubes e as motosserras. Ou as bandas de música, filarmónicas e copofónicas. Porque não? Ou os bandos de malfeitores, banqueiros ou governantes, os salgados e os doces, da alheira de Mirandela ao pastel de Belém. Porque não?
Por exemplo, o manguito do Bordalo. Ou o caralho das Caldas. Porque não?
Por exemplo, o assobio. Porque não?

É património até dar com um pau. É património sem mãos a medir. Somos um país para o Guinness. Com assinalável pertinácia, Portugal mete os dedos à boca e vomita património imaterial da humanidade por todos os lados. Um destes dias, sem darmos fé, estamos todos condecorados. Da cabeça aos pés.

(Publicado originalmente no meu blogue Tarrenego! O Zé Povinho de Rafael Bordalo Pinheiro apareceu pela primeira vez no jornal satírico "Lanterna Mágica" no dia 12 de Junho de 1875.)

quinta-feira, 6 de junho de 2024

Faroleiros no Parlamento Europeu

Acabo de saber, pelo jornal O Minho, que estão abertas 24 vagas para o lugar de faroleiro, no continente, Açores e Madeira. Faroleiro. Palavra de honra, eu pensava que as eleições de domingo é que eram para isso, para o lugar de faroleiro, e que havia apenas 21 vagas. Faroleiro, isto é, fala-barato, charlatão, desbocado, tagarela, palrador, parlapatão, jactancioso, vaidoso, embusteiro, impostor, mentiroso, fanfarrão, gabarola, paparrotão, patarata, pantomineiro, imodesto, pretensioso, ufano, bazofiador, pimpão, ufanoso e assim sucessivamente. Isso, faroleiro, no Parlamento Europeu.

(Publicado originalmente no meu blogue Tarrenego!)

quarta-feira, 5 de junho de 2024

Nós, os imigrantes

O meu pai foi emigrante, e nós - a minha mãe, os meus irmãos e eu - fomos quase emigrantes, só não abalámos porque entretanto o meu pai morreu de véspera, na emigração. Tive e tenho tios e tias e primos e primas emigrantes. Tenho sobrinhos emigrantes. Somos uma família de emigrantes, como Portugal é um país de emigrantes, estabelecidos pelos quatro cantos do mundo. Fafe é uma terra de emigrantes. Incomoda-me visceralmente o ódio e a estupidez que por aí medram contra os emigrantes como nós mas que vêm de fora, isto é, os imigrantes, como eram imigrantes os meus antepassados alemães e depois brasileiros, como são imigrantes todos os nossos emigrantes nos países onde trabalham. Mete-me nojo. E portanto, o seguinte, ó fascistas de carregar pela boca: "nem mais um", como vos mandam dizer e dizeis, a puta que vos pariu!

(Publicado originalmente no meu blogue Tarrenego!)

terça-feira, 4 de junho de 2024

A invasão das pegas

Lembro-me muito bem. Pegas, se as queria ver, tinha de ir à aldeia, ao campo. Via-as às vezes, uma ou duas, três, sem abusos, nas minhas férias de Verão com a Bó de Basto, em Passos, Cabeceiras, e mais raramente ainda nas bouças de São Gemil e Cavadas, em Fafe, durante o resto do ano. As pegas antigamente eram uma raridade para a vista.
Não sei o que é que aconteceu entretanto, mas hoje em dia as pegas estão em todo o lado, às centenas, e se calhar aos milhares, não estou é para as contar. Decerto derivado ao Parque da Cidade do Porto, o bendito Parque da Cidade do Porto, as pegas instalaram-se de armas e bagagens em todas as redondezas da Invicta e particularmente aqui nesta zona de Matosinhos, que lhe fica mesmo ao lado. A minha rua está agora constantemente cheia de pegas, e eu por acaso gosto de vê-las e até, em dias mais bem dispostos, de ouvi-las, mas não as procuro, nem é preciso.
É realmente uma invasão. A invasão das pegas. Mas também de melros, há que dizê-lo em abono da verdade, e ultimamente de papagaios, que andam por aí aos bandos, desorientados e barulhentos, num falatório que só visto. Pegas, melros e papagaios. Não sei o que é que se passa com o mundo.

(Publicado originalmente no meu blogue Tarrenego!)

Candidaturas ao Prémio A. Lopes de Oliveira

Decorre o período para concurso ao Prémio Literário A. Lopes de Oliveira / Câmara Municipal de Fafe, destinado a distinguir estudos históric...