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sábado, 31 de agosto de 2024

Meu rico menino

Foto Facebook Joe Biafra

Uma noite, altas horas, saíamos da casa de má fama ali para os lados da Estação e resolvemos passear descalços pelas ruas desertas e geladas da cidade. Não sei de quem foi a peregrina ideia, mas, de tão tola, decerto foi minha. Confesso que não me lembro do que pretendíamos exactamente provar, mas gosto de pensar naquele momento insólito como um ritual de fraternidade, a celebração de uma amizade antiga e inoxidável que nos ligava desde miúdos, apesar da evidente diferença de "estatuto social" entre as nossas duas famílias. Frequentara-lhe a casa - de rico, por assim dizer, e dizia-se assim naquele tempo. Dava-me o lanche, apresentou-me ao pão com manteiga e ao café com leite. Guiou-me pelos caminhos do rock. Ensinou-me os Queen, apesar das reservas. Emprestou-me "A Night at the Opera". Eu e a minha mãe deliciávamo-nos a ouvir "Bohemian Rhapsody" uma e outra vez, mais de vinte ou trinta vezes ao dia, no pequeno gira-discos francês que nos sobrara do meu pai. E ficou Queen até hoje, posto que non troppo.
Ali íamos, portanto. O Bertinho e eu. E, sim, era realmente liturgia, era festa. Glorificávamos a camaradagem desinteresseira e fiel. Éramos irmãos. Irmãos para toda a vida e depois. Ali íamos afinal iguais, ambos de pés descalços, com as botas e as meias pela mão, trocando memórias e partilhando o riso. Passávamos em frente à Câmara e parámos - éramos, penso-o agora, uma procissão, os dois. Se naquele precioso instante soltassem revoadas de pombas brancas por sobre as nossas cabeças e lançassem estrondosas girândolas de foguetes, creio que não nos espantaríamos. Nós éramos a Senhora de Antime, a festa inteira, em pessoa...
Escandalosamente generoso e bom, leal e presente, o Bertinho chamava-me "meu rico menino", e eu gostava. Eu gostava, meu rico menino!

(Já agora: Bob Dylan, aprendi-o com o Best noite dentro, em sua casa, no Lombo. Iniciei-me com "Hurricane" e sandes de fiambre, e talvez também cerveja.)

Atenção, muita atenção! Este texto, publiquei-o no dia 1 de Novembro de 2022. Hoje é Dia Internacional do Blog e celebro-o com o meu amigo. Os blogues são uma coisa muito antiga, praticamente do tempo dos romanos. Este meu blogue, Fafismos, é sobre Fafe, sobre as minhas memórias de Fafe, sobre os melhores de Fafe que eu conheci. Como o Bertinho. Escrevo outro blogue de vocação mais generalista, o Tarrenego!, são ambos blogues pessoais e intransmissíveis, mas assim do género facebook não tenho nada para oferecer. Sei que só perco, sou lido por meia dúzia de pessoas em Fafe e uma no Reino Unido, ninguém sabe quem eu sou nem como sou, e a esses todos eu esclareço: sou assim.

terça-feira, 20 de setembro de 2022

Luís Filipe Barros, único e transmissível (em FM)

Luís Filipe Barros não canta, não toca, que me conste, mas é uma lenda viva do rock'n'roll. É português e da rádio, e quem não souber dele o melhor é procurá-lo na Wikipédia, porque eu aqui não faço desenhos. Conviveu com os Pink Floyd, com os Bon Jovi e com os Deep Purple, quase partiu uma perna ao vocalista dos Supertramp, ensinou a aguardente aos Spandau Ballet, levou os Police ao Jamaica, estendeu ao comprido o líder dos Clash, mas tudo começou com Herman José, não vamos mais longe.
Anos oitenta do século passado, em Portugal. Luís Filipe Barros era uma das vozes da moda e gozava do estatuto de verdadeira vedeta. "Ia aos restaurantes, almoçava ou jantava, mas não pagava. Nos bares, bebia sempre à borla. Ia às discotecas, aos fins-de-semana, e ainda ganhava dinheiro. Eram realmente bons tempos", dizia-me o famoso radialista já lá vão quase quinze anos, numa espécie de entrevista de carreira que então me concedeu, facilmente e sem peneiras.
Nas deslocações ao Norte, um dos seus companheiros de viagem costumava ser Herman José, que também fazia o circuito das discotecas. "Íamos para o Porto na sexta-feira e regressávamos a Lisboa no domingo à noite, a contar notas, cada um para o seu lado, no comboio". Da primeira vez havia em Campanhã uma pequena multidão de fãs à espera, agitando cartazes. Luís julgava que era para o Herman, mas não, era mesmo para ele.
O importante papel que Luís Filipe Barros desempenhava como divulgador musical na rádio portuguesa introduzia-o na intimidade das estrelas de rock que visitavam Portugal ou Espanha. Uma vez, em Madrid, foi convidado para jantar com os Pink Floyd, após concerto. Contou-me: "Eu estava cheio de fome, queria comer o meu bife, mas os gajos andavam numa de emagrecer e tinham marcado num restaurante japonês. Foi uma desgraça: peixe cru e salada de violetas, naquela altura eu sabia lá o que isso era. Mas dava para perceber que os tipos já não podiam ver o Roger Waters. Tinha a mania que mandava em tudo, lá por o Sid Barrett ser maluco..."

Aos Supertrump, que andavam também nos cornos da lua com o "Breakfast in America", Luís Filipe Barros ia dando cabo dos dois concertos agendados para Cascais. Alguém teve a infeliz ideia de organizar um jogo de futebol entre os músicos e a equipa da chamada comunicação social. Luís, do lado dos jornalistas, levou a coisa a sério (à séria, se lido em Lisboa) e ia partindo uma perna ao vocalista da banda britânica. Confessou: "Dei uma trancada tamanha no Roger Hodgson, que quase não havia concerto para ninguém. Fui expulso e tudo".
Outro que levou que contar foi Joe Strummer, a voz dos Clash, num espectáculo em que o nosso Luisinho "quase andava à pêra com um gajo da segurança que estava com eles e tinha uma boina do IRA". Com o grupo em palco a tocar na maior desorganização, dado o adiantado estado de embriaguez e não só em que todos se encontravam, Strummer pediu a Luís Filipe Barros que o ajudasse a subir ao estrado. E o radialista deu o seu melhor: "Empurrei-o para o palco, mas quando chegou lá acima, embalado, faltaram-lhe as pernas e ele espalhou-se ao comprido à frente de dez mil pessoas. Foi um trambolhão monumental".
Em abono da verdade, deve dizer-se que Luís Filipe Barros tinha por hábito desencaminhar o pessoal para os copos, no "Snob ou no Bairro Alto", depois dos concertos. Uma noite levou o Stewart Copland a esse baluarte do bas-fond lisboeta que era o bar Jamaica, e o baterista dos Police gostou tanto que, bem bebido, "já estava a querer comprar aquilo".
Outra vez o mítico fundador do aclamado programa Rock em Stock pegou nos aprumadinhos Spandau Ballet e ala até à Costa da Caparica, para almoço. Comeram sardinhas assadas e "adoraram", porém perderam-se pela aguardente. Emborcaram uma garrafa inteira, e desde esse dia - recordou o Luís -, "quando davam uma entrevista à MTV, diziam sempre que Portugal tinha a melhor bebida do mundo: o bagaço".

E enfim um extra. Luís Filipe Barros no camarim dos Bon Jovi. "Nunca tinha visto nem nunca mais voltei a ver uma cena assim: o baterista "Tico" Torres, em cuecas e de barrete na cabeça, passando as calças a ferro..."

Candidaturas ao Prémio A. Lopes de Oliveira

Decorre o período para concurso ao Prémio Literário A. Lopes de Oliveira / Câmara Municipal de Fafe, destinado a distinguir estudos históric...