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sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Às armas, às armas

Foto Tarrenego!

"Às armas, às armas! / Sobre a terra, sobre o mar, / Às armas, às armas! / Pela Pátria lutar! / Contra os canhões marchar, marchar!", aprende-se no Hino Nacional. Assim.

Há anos que ando a chamar a atenção para o disparate, mas ninguém me liga e fazem todos muito bem. Lembraram-se no outro dia e apenas derivado ao Dino D'Santiago, mais vale tarde que nunca e se uma gaivota viesse cada duas são um par. Hoje é Dia Escolar da Não Violência e da Paz. Não sei é se há aulas ou sequer professores, mas de certeza que há navalhadas e talvez gás-pimenta...
Quanto à fotografia, e isso é que é importante, reporta à Guerra Colonial e pertence ao arquivo pessoal do pára-quedista fafense Álvaro Magalhães, meu saudoso cunhado.

P.S. - Hoje é Dia Escolar da Não Violência e da Paz.

sábado, 14 de junho de 2025

A guerra em tempo de paz

A murro
Batata a murro apresentou queixa por violência doméstica.

Podeis não acreditar, mas eu também fui de comboio para a guerra, e já a guerra tinha acabado. O comboio é que ainda não. Isto é, naquele tempo até nem era nada de extraordinário ir-se de comboio para a guerra, porque Fafe tinha comboio, mas aqui fica o registo, a nota pessoal. Deram-me, portanto, uma guia de marcha. Embarquei em Fafe num domingo à noite, quase ainda fim de tarde, bem bebido, e cheguei à Amadora na segunda-feira de manhã, sóbrio, a bater à porta da guerra mesmo à hora de abertura do expediente. Era um comboio sobrelotado e verde, quer-se dizer, a esbordar de magalas fardados e sonolentos. Fafe-Amadora, ligação "rápida" e praticamente "directa", com os necessários sobressaltos na Trindade, São Bento e Campanhã, no Porto, e em Santa Apolónia e Rossio, em Lisboa. E de borla. A Pátria tratava-nos bem. Levava-se merendeiro de casa, evidentemente.

Eu fui à guerra e comi 21 gafanhotos de uma vez, uns atrás dos outros. Isso. Quando fiz 21 anos, num infeliz dia de Outubro, comi 21 gafanhotos. Vivos. Obrigaram-me. E não me estou a queixar, embora tenha sido uma canseira andar a persegui-los e a apanhá-los um a um no mato, eles aos saltinhos e eu de cócoras, um sol do caraças, a risota do maralhal, os insultos do tenente, o corpo moído, uma sede que eu sei lá, mas antes isso do que passar o dia inteiro a levar pancada. O dia e a noite. Por outro lado, apesar de ter comido 21 gafanhotos vivos no dia exacto e triste em que fiz 21 anos, passei aqueles dias todos a levar pancada. Aqueles dias e aquelas noites. As noites também. O que tinham de bom as noites é que só muito raramente propiciavam "golpes de calor", ou insolações, como se diz quando se quer que se perceba o que se diz.
Mas os gafanhotos. Os gafanhotos eram absolutamente essenciais, alimentavam heróis em construção, forjavam homens de aço, oleavam máquinas de guerra que haveríamos de ser. Eram, repito, absolutamente essenciais, naturalmente curriculares. Os gafanhotos e a pancada.
O meu encontro gastronómico com os gafanhotos teve como cenário os bélicos campos e montes de Santa Margarida durante a chamada "semana maluca" dos Comandos, em que o dia é noite e a noite é dia, com horários e afazeres trocados, incluindo as refeições e a instrução, manobras ainda por cima abrilhantadas pelas famosas prova da sede, prova de choque ou prova de sobrevivência. Famosas e às vezes fatais. Quer-se dizer: pancada, pancada e mais pancada.

Assim eram os Comandos, tropa dita de elite para onde não fui voluntário. "Mais logo afocinharemos!", ameaçava o tenente por tudo e por nada, só porque lhe apetecia. E afocinhávamos. Passávamos a vida a afocinhar. Havia um cuidado muito grande com a nossa alimentação. Por vontade de quem mandava, nós, os desprezíveis instruendos, estaríamos sempre a comer, às mãos desabridas de sargentos e cabos com idade para serem coronéis, com poderes de general, práticas de verdugos descontrolados e tremendas saudades ultramarinas. Consta que, quase cinquenta anos passados, os Comandos ainda são assim. E que, uma vez por outra, "as coisas correm mal". Há mortes, mesmo no intervalo da guerra. O treino não podia ser mais completo.
Em 1978 correu mal uma aula de morteiros. Um instrutor jactante e incompetente, como se exige que sejam os instrutores, apontou para o infinito, despoletou a granada e, sem querer, deixou-a escorregar tubo abaixo. Pum! O morteiro só parou explodindo em cheio num centro comercial da Amadora, por acaso com pessoas dentro. Sei disto porque estava lá, do lado do morteiro e do instrutor desajeitado. E, para evitar problemas com a população, não me deixaram vir a casa nesse fim-de-semana e no seguinte, e eu cheio de saudades de Fafe e da namorada no Porto.
Quanto aos gafanhotos, fritos e de escabeche decerto marchariam melhor. Pelo menos parece ser esse o entendimento da nossa Direção-Geral de Alimentação e Veterinária, que anunciou em Junho de 2021 a autorização para a produção, comercialização e utilização na alimentação em Portugal de sete espécies de insectos - duas de gafanhotos, duas de grilos, duas de larvas e um besouro.

Por aquela altura, no meu breve tempo de Comandos, eu já tinha visto na televisão a preto e branco a série Kung Fu, com o trágico David Carradine, mas ainda não conhecia a anedota "O Mestre e o Gafanhoto", que haveria de ouvir anos mais tarde contada numa cassete pelo menestrel brasileiro Juca Chaves (1938-2023) e que, se bem me lembro, é mais ou menos assim:
Gafanhoto, aprendiz de Shaolin, era pequenininho e perguntou ao seu velho Mestre, que era cego e sabia tudo:
- Mestre, quando é que eu me tornarei um homem?
E o Mestre respondeu-lhe:
- Gafanhoto, quando um dia você passar a mão entre as pernas e sentir duas bolas, então você será um homem. Mas quando um dia você passar a mão entre as pernas e sentir quatro bolas, não pense que é super-homem. É que tem alguém lhe enrabando!...

P.S. - Versão optimizada, publicada no meu blogue Mistérios de Fafe. O Centro de Instrução de Zemba, em Angola, foi criado no dia 14 de Junho de 1962, para formar as primeiras unidades portuguesas de Comandos.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2025

Fui de comboio prà guerra

Foto O Comboio Volta a Fafe

Podem não acreditar, mas eu também fui de comboio para a guerra, e já a guerra tinha acabado. O comboio é que ainda não. Isto é, naquele tempo até nem era nada de extraordinário ir-se de comboio para a guerra, porque Fafe tinha comboio, mas aqui fica o registo, a nota pessoal. Deram-me, portanto, uma guia de marcha. Embarquei em Fafe num domingo à noite, quase ainda fim de tarde, bem bebido, e cheguei à Amadora na segunda-feira de manhã, sóbrio, a bater à porta da guerra mesmo à hora de abertura do expediente. Era um comboio sobrelotado e verde, quer-se dizer, a esbordar de magalas fardados e sonolentos. Fafe-Amadora, ligação "rápida" e praticamente "directa", com os necessários sobressaltos na Trindade, São Bento e Campanhã, no Porto, e em Santa Apolónia e Rossio, em Lisboa. E de borla. A Pátria tratava-nos bem. Levava-se merendeiro de casa, evidentemente.

Eu fui à guerra e comi 21 gafanhotos de uma vez, uns atrás dos outros. Isso. Quando fiz 21 anos, num dia mais ou menos assim, comi 21 gafanhotos. Vivos. Obrigaram-me. E não me estou a queixar, embora tenha sido uma canseira andar a persegui-los e a apanhá-los um a um no mato, eles aos saltinhos e eu de cócoras, um sol do caraças, a risota do maralhal, os insultos do tenente, o corpo moído, uma sede que eu sei lá, mas antes isso do que passar o dia inteiro a levar pancada. O dia e a noite. Por outro lado, apesar de ter comido 21 gafanhotos vivos no dia exacto e triste em que fiz 21 anos, passei aqueles dias todos a levar pancada. Aqueles dias e aquelas noites. As noites também. O que tinham de bom as noites é que só muito raramente propiciavam "golpes de calor", ou insolações, como se diz quando se quer que se perceba o que se diz.
Mas os gafanhotos. Os gafanhotos eram absolutamente essenciais, alimentavam heróis em construção, forjavam homens de aço, oleavam máquinas de guerra que haveríamos de ser. Eram, repito, absolutamente essenciais, naturalmente curriculares. Os gafanhotos e a pancada.
O meu encontro gastronómico com os gafanhotos teve como cenário os bélicos campos e montes de Santa Margarida durante a chamada "semana maluca" dos Comandos, em que o dia é noite e a noite é dia, com horários e afazeres trocados, incluindo as refeições e a instrução, manobras ainda por cima abrilhantadas pelas famosas prova da sede, prova de choque ou prova de sobrevivência. Famosas e às vezes fatais. Quer-se dizer: pancada, pancada e mais pancada!

Assim eram os Comandos, tropa dita de elite para onde não fui voluntário, é preciso que se note. "Mais logo afocinharemos!", ameaçava o tenente por tudo e por nada, só porque lhe apetecia. E afocinhávamos. Passávamos a vida a afocinhar. Havia um cuidado muito grande com a nossa alimentação. Por vontade de quem mandava, nós, os desprezíveis instruendos, estaríamos sempre a comer, às mãos desabridas de sargentos e cabos com idade para serem coronéis, com poderes de general, práticas de verdugos descontrolados e tremendas saudades ultramarinas. Consta que, mais de quarenta anos passados, os Comandos ainda são assim. E que uma vez por outra "as coisas correm mal". Há mortes, mesmo no intervalo da guerra. O treino não podia ser mais completo.
Em 1978 correu mal uma aula de morteiros. Um instrutor jactante e incompetente, como se exige que sejam os instrutores, apontou para o infinito, despoletou a granada e, sem querer, deixou-a escorregar tubo abaixo. Pum! O morteiro só parou em cheio num centro comercial da Amadora, por acaso com pessoas dentro. Sei disto porque estava lá, do lado do morteiro e do instrutor palerma. E, para evitar problemas com a população, não me deixaram vir a casa nesse fim-de-semana, e eu cheio de saudades de Fafe e da namorada no Porto.
Quanto aos gafanhotos, fritos e de escabeche decerto marchariam melhor. Pelo menos parece ser esse o entendimento da nossa Direção-Geral de Alimentação e Veterinária, que anunciou em Junho de 2021 a autorização para a produção, comercialização e utilização na alimentação em Portugal de sete espécies de insectos - duas de gafanhotos, duas de grilos, duas de larvas e um besouro.

Por aquela altura, no meu breve tempo de Comandos, eu já tinha visto na televisão a preto e branco a série Kung Fu, com o trágico David Carradine, mas ainda não conhecia a anedota "O Mestre e o Gafanhoto", que haveria de ouvir anos mais tarde contada numa cassete pelo menestrel brasileiro Juca Chaves (1938-2023) e que, se bem me lembro, é mais ou menos assim:
Gafanhoto, aprendiz de Shaolin, era pequenininho e perguntou ao seu velho Mestre, que era cego e sabia tudo:
- Mestre, quando é que eu me tornarei um homem?
E o Mestre respondeu-lhe:
- Gafanhoto, quando um dia você passar a mão entre as pernas e sentir duas bolas, então você será um homem. Mas quando um dia você passar a mão entre as pernas e sentir quatro bolas, não pense que é super-homem. É que tem alguém lhe enrabando!...

P.S. - Este texto é tão velho como o velho mestre de kung fu. O meu gastronómico encontro com os gafanhotos desenrolou-se durante a chamada "semana maluca" dos Comandos, em que o dia é noite e a noite é dia, com horários e afazeres trocados, incluindo as refeições e a instrução, ainda por cima abrilhantada pelas famosas prova da sede, prova de choque ou prova de sobrevivência. E hoje é o Dia ao Contrário. E também Dia Nacional do Sargento, calha bem. Já quanto ao nariz de cera: Fafe tinha comboio e era o fim do mundo, deixou de ligar ao comboio, desistiu do comboio, tiraram-lhe o comboio que já ninguém usava a não ser eu, queixou-se muito de não ter comboio e agora tem uma locomotiva de corpo presente, restaurada e bem janota, que até chegou de camioneta.

sábado, 7 de dezembro de 2024

O Febras levava tudo à frente


O Febras, o Armando Febras de Fafe, guiava um velho camião geralmente cheio de areia e era a única pessoa que eu conhecia que "fez a guerra" em Timor, se não me engano. Diga-se, para princípio de conversa, que o Febras era um tipo porreiro, bom amigo, e tinha uma grande pancada naquele tempo. Uma vez falhou a gasolina em Fafe e no resto do País, segundo as notícias, e os carros faziam longas filas que davam duas ou três voltas ao Largo para abastecer. O centro mais central da vila estava armadilhado com três bombas de gasolina, duas das quais, Sonap e Mobil, encostadas uma à outra, lado a lado, como na cantiga do Tony de Matos. Os condutores desligavam os carros, saíam e empurravam a respectiva viatura consoante a fila ia avançando a conta-gotas. O Febras tinha o camião apontado exactamente àquele par de bombas muito bem estabelecidas ali entre o Monumento e o Martins da Avenida e não largava o volante, até porque lhe faltava disposição para descer e levar o veículo pelas orelhas. Aquilo era preciso madrugar para garantir um bom lugar na fila, havia até quem fosse para lá de véspera, portanto é bom de ver que pelo meio da manhã já estava tudo com os nervos em frangalhos. E o que é que acontece? Assim que tal, a fila anda um bocadinho, metro, metro e meio, mas o carro imediatamente à frente do Febras nem se mexe. O Febras buzina. E o carro, nada. O Febras torna a buzinar. E o condutor do carro faz aquele sinal internacional descrito no código da estrada como "passa por cima". E o Febras arranca. Evidentemente não passa por cima do carro, isso só ocorre nos filmes americanos, mas leva-o à frente, empurra-o de zorra, um metro, metro e meio. O Febras sai então do camião, disposto à pancadaria, a polícia, que rondava por ali, faz de conta que intervém para evitar males maiores, mas nem toma conta da ocorrência, e fica tudo em águas de bacalhau, porque, lá está, era o Febras, e o que é que se havia de fazer?...

Curiosamente, anos mais tarde, o Armando Febras viria a ser agente da autoridade local e parece que ainda emigrou para a América, onde não sei se realmente chegou a passar por cima de automóveis. Mas antes disso, em Abril de 1977, ele fez parte de um extravagante grupo de fafenses que foi a Lisboa de camioneta para apoiar a AD Fafe no famoso jogo com a CUF para a Taça de Portugal. Desse bando, que viveu uma noite maluca pelas ruas do Bairro Alto, com a polícia atrás e tudo, constavam também, entre outros, o meu irmão Pimenta, que certamente organizara a excursão, o Machadinho e o Manel Caixeiro maila sua inseparável pistola. Eu não podia faltar, mas era o mais novo e inocente de todos, posso talvez dizê-lo. Esta parte da história fica, porém, para outra vez.
Quero contar é do amigo do Febras que veio ter connosco ao Campo das Cebolas, que era o sítio onde as camionetas das excursões pernoitavam. Um velho camarada de armas do Armando e a segunda pessoa que eu conheci que "fez a guerra" em Timor, se não estou em erro. Falava com cerrado sotaque lisboeta, alfacinha, malandro, gingão, "gajas" acima, "gajas" abaixo, tinha ouro ao pescoço, anéis, camisa havaiana, botas de cobói, navalha de ponta e mola e um suspeitíssimo Ford Capri que fazia piões de porta aberta.
Isso. Piões de porta aberta. Tantos, tão apertados e a tal velocidade, que no decurso de um deles o indivíduo saiu disparado do automóvel, caiu violentamente no chão, bateu com a cabeça, levantou-se de imediato como uma mola, num improvável pulo de kung fu, soltou um grito de guerra, sacudiu o pó da roupa, entrou no carro, que continuava a andar em círculo, fechou a porta e arrancou a todo o gás em direcção ao sol poente.
E eu passei a compreender muito melhor o Armando Febras.

P.S. - Hoje é Dia de Timor-Leste ou, mais propriamente dito, Dia dos Heróis Nacionais.

segunda-feira, 15 de julho de 2024

Lágrimas parvas por Marcelo

Junho de 1973. De visita a Londres, Marcelo é recebido por uma manifestação de protesto contra a presença de Portugal nas então chamadas províncias ultramarinas e, de uma forma geral, contra a política africana do Governo português. "Portugal no more massacres. Get out of Africa now!", lê-se em alguns cartazes de más-vindas. Eu nem queria acreditar. Fiquei de todo. Os meus olhos, virgens e patrióticos como eu inteiro, viam a preto-e-branco o que se passava no televisor do bar dos Bombeiros de Fafe, que eu tinha só para mim naquela clandestina hora do meio-dia, e a revolta transformava-se-me inesperadamente em choro. Chorei de raiva, dorido pelo Senhor Presidente do Conselho. Como se atreviam aqueles gajos?! Que vergonha! Que falta de respeito! Angola é nossa e ponto final, ainda que o caso fosse particularmente Moçambique.

No regresso a Lisboa, Marcelo foi graças a Deus surpreendido por uma manifestação espontânea muito bem organizada, uma manifestação a bem da Nação, de desagravo pessoal e de apoio às políticas africanas do Governo, uma manifestação contra as manifestações de Londres, mas com muito mais povo, muitas mais camionetas, muitos mais letreiros, muitos mais garrafões de vinho e salpicões e muitos mais Vivas!, toma lá ò camone a ver se gostas...
De certeza que foi gente de Queimadela. Queimadela estava sempre presente! "Não esperava esta manifestação, mas compreendo-a", dizia Marcelo, modestíssimo, do alto da varanda do Palácio de São Bento, rodeado pelos pândegos mandadores de Vivas!, assim à moda do nosso Velhinho, o Castro Mendes de Travassós, o trabalhista fafense, "ide por esses tascos abaixo, comei, bebei e pagai". E depois Marcelo falou de política, mas isso já não me interessava. Eu estava outra vez comovido, ranhoso, mas agora de auto-satisfação nacionalista, de respeitoso respeito a Sua Excelência. Quem me dera estar lá também com o garrafão. Ainda por cima eu nunca tinha ido a Lisboa e o vinho, certamente como a viagem, devia ser também de graça. Chorei, pois claro que chorei, e as lágrimas já me toldavam o preto-e-branco do aparelho, mas saí dali de alma lavada e, se querem que lhes diga (e ainda que não queiram), também eu algo desagravado. E então ri-me. Junho de 1973. O Marcelo era Caetano e eu, burro como uma porta, pensando que sabia tudo, ainda não sabia nada.

P.S. - Marcelo Caetano iniciou a sua visita de três dias a Londres no dia 15 de Julho de 1973, faz hoje anos. Durante a sua presença na capital inglesa, manifestações constantes condenaram o massacre de Wiriamu, em Moçambique, revelado pelo jornal britânico Times.

domingo, 9 de junho de 2024

Adeus, até ao meu regresso

Foto Tarrenego!
Fernando Pessoa inventou e patenteou o aerograma. Exactamente esse Fernando Pessoa, o da "Mensagem" e dos heterónimos, o Camões com dois olhos - se não sabiam, ficam a saber. O aerograma era uma carta sem envelope e andava de avião. Escrevo era e andava porque não sei se ainda há aerogramas. Se há, são fáceis de reconhecer: os aerogramas são cartas levezinhas e contorcionistas que se dobram e fecham sobre si mesmas. É procurar nos circos ou nos manicómios.
O aerograma foi um enorme sucesso durante a Guerra Colonial. Era o meio de comunicação preferido entre as famílias cá na então chamada metrópole e os militares enviados lá para o então chamado Ultramar, para o campo de batalha do regime. O aerograma matava saudades entre Portugal e África, e era uma matança porreira, ao contrário da outra, que doía mais. Mas também inventava amores, alimentava namoros, alcovitava casamentos. Contava histórias, quer-se dizer.
Em Fafe, os aerogramas eram vendidos no palacete do Grémio da Lavoura, onde hoje se instala o Arquivo Municipal. Entrava-se pela porta das traseiras, e está certo, porque a guerra era uma vergonha e as vergonhas devem ser escondidas. Eu ia comprar aerogramas para a Mila Tripa, que se tornara madrinha de guerra do soldado Valentim que eu não conhecia. Nem ela. A Mila trabalhava na Fábrica Alvorada e era como se morasse connosco, no Santo, era da família a bem dizer, uma espécie de tia e irmã mais velha, mulher extraordinária que o tempo me obrigou a admirar e respeitar cada vez mais.
Os aerogramas eram oficialmente grátis e já não me lembro quanto é que custavam realmente. Que se segue? Aerograma para lá, aerograma para cá, fotografia para cá, fotografia para lá, e poupando nos pormenores, a Mila e o Valentim passaram naturalmente a namorados e noivaram por correspondência. O soldado Valentim deixou as pernas na guerra, mas voltou homem inteiro e bom. Ele e a Mila casaram. E foi um final feliz.

Noutros casos, não. Às vezes os aerogramas não vinham. Chegava um telegrama. Um telegrama e a seguir um caixão. Vi disso em Fafe naqueles anos cinzentos. Apesar da meninice, vivi-o e senti-o profundamente. Vezes demais. Quarenta jovens militares fafenses morreram na Guerra do Ultramar. O funeral do Zeca Lopes - que era dos nossos, da nossa rua - marcou-me para toda a vida. Creio que há coisa de trinta anos escrevi para a rádio nacional uma crónica a pretexto deste episódio que me persegue, mas não sei dela, alguém de Fafe pediu-ma, mandei-a e decerto perdeu-se. Perdi-a. E assim não me resolvo.

P.S. - Publicado originalmente no meu blogue Tarrenego!, no dia 5 de Outubro de 2013, assinalando a inauguração do Arquivo Municipal de Fafe. A foto pertence ao arquivo pessoal do pára-quedista fafense Álvaro Magalhães.

quinta-feira, 25 de abril de 2024

Feridas de guerra 9

Foto Tarrenego!
"Doutora, vou-me matar!"
A verdade é que só agora a ciência arranca buscando explicações inteligentes para o sofrimento destes homens, e a estatística oficial, para além de referenciar os 25 mil feridos e os 10 mil mortos directos da Guerra Colonial, pouco mais adianta.
Quem está por dentro do assunto garante a existência de vários casos de suicídio (dois no último ano, só na área do Porto) e muitos de homicídio com raiz no stress de guerra. E falam-me de desesperança de vida, que faz com que "muitos se vão embora aos 40 anos", e de alcoolismo, e de cirroses, e de droga, e dos divórcios, e de sem-abrigo, e do homem que em apenas um ano correu mais de cem empregos, e da falta de coragem da Nação para encarar e assumir as suas obrigações. O que tem sobrado é o silêncio.
Porque, para começar, como denuncia Paula Frazão, a psicólogo clínica, o Exército tem de admitir que, excepção feita às chamadas forças especiais, "a maior parte da tropa ia para a guerra, técnica e psicologicamente, mal preparada, e muitos acidentes aconteceram por causa dessa má preparação".
Está clinicamente provado: o DPTS pode ser prevenido - e foi-o recentemente na Guerra do Golfo - se o soldados forem esclarecidos de que o medo e a ansiedade fazem parte da guerra, são situações normais, humanas, e não sinais de cobardia ou de doença mental. Além disso, o desenvolvimento de um DPTS crónico até pode ser evitado se o soldado, em plena fase aguda, for atendido próximo à frente de batalha, iniciando imediatamente os tratamentos e sendo mentalizado para a expectativa de retorno aos deveres normais e para a brevidade do contacto terapêutico.
Menos do que pensões, os traumatizados pela guerra reclamam atenção, atendimento, compreensão, apoio, tratamento. Há quem tema que, com o andar dos anos - porque a doença, não sendo tratada, tende a agravar-se -, os demónios de África venham a degradar inexoravelmente os restos de vida dos ex-combatentes envelhecidos. A Nação terá de estar preparada para o desmoronamento de toda uma geração...
Aos centros da ADFA chegam todos os dias, e cada vez mais, pedidos de socorro, lágrimas por uma "última tábua de salvação" para um filho, para um pai, para um marido, para um irmão, para um amigo. Gente à beira do abismo. O bom-dia que Paula Frazão ouve muitas vezes quando os seus doentes lhe entram no consultório é: "Doutora, vou-me matar!..."

(Fim)

P.S. - Escrevi em 1992 este exclusivo para a revista Grande Reportagem, então dirigida por Miguel Sousa Tavares. Foi, se não me engano, o primeiro trabalho jornalístico publicado em Portugal sobre o nosso stress de guerra. Os nomes dos ex-combatentes são, aqui, fictícios. Segundo dados que considero credíveis, 40 militares fafenses morreram na Guerra do Ultramar.

quarta-feira, 24 de abril de 2024

Feridas de guerra 8

Foto Tarrenego!
Seis tentativas de suicídio: a sétima foi fatal. A ideia do suicídio passou a ser natural, e era com naturalidade que Manuel falava de matar-se. Tentou cinco vezes com sobredoses de comprimidos e uma com "remédio" de escaravelho, antes da definitiva. Seguiam-se, cíclicas, as desintoxicações no Hospital de São João e os internamentos no Conde Ferreira.
Tão grave era a situação que, caso singular, deu-lhe direito a pensão por incapacidade - o que, nos últimos quatro anos, viria a agravar a confusão no espírito de Manuel Teixeira. A cisma agora eram os sessenta e sete contos e setecentos escudos com que a Nação de desobrigava mensalmente pelo mal que lhe fizera. Manuel achava que a tença era "um roubo ao Estado". Aflito, temia pela chegada da GNR para o levar preso "por receber uma reforma que de certeza não era para ele"...
A 2 de Maio de 1990 terminou com tudo. Ingeriu o conteúdo de uma embalagem de "remédio" de escaravelho, lançou fora o recipiente e deitou-se calmente, como tantas vezes tinha avisado, à espera da morte. Que veio. No guarda-fatos o ex-combatente escondia mais quatro embalagens de veneno, pelo sim e pelo não...

Outras vezes a violência chama-se homicído. Poderá ser o caso de João Silva, ex-comando de 41 anos, que em Campanhã, Porto, na madrugada de 8 de Setembro de 1991, resolveu a tiro de pistola o seu diferendo com a vida, matando, num acerto de contas, um indivíduo de 42 anos.
João entregou-se à Polícia e confessou o crime. Está na cadeia de Custóias, aguardando julgamento. Diz quem o conhece que também ele deixou muito mais na guerra do que a perna que lá perdeu e que lhe garante o direito a pensão. E afirmam os estudiosos que os feridos na alma, convivas naturais de armas, sangue e morte, guardam causas para reacções extremas fora do entendimento comum.

(Continua)

P.S. - Escrevi em 1992 este exclusivo para a revista Grande Reportagem, então dirigida por Miguel Sousa Tavares. Foi, se não me engano, o primeiro trabalho jornalístico publicado em Portugal sobre o nosso stress de guerra. Os nomes dos ex-combatentes são, aqui, fictícios. Segundo dados que considero credíveis, 40 militares fafenses morreram na Guerra do Ultramar.

terça-feira, 23 de abril de 2024

Feridas de guerra 7

Foto Tarrenego!
"Já não sou um homem".
Manuel Teixeira tinha 42 anos quando resolveu terminar com a vida, "partindo para um caminho feliz". Fora uma criança normal, se bem que "um pouco aérea", fez a quarta classe e sonhou ser futebolista - conta a irmã, Edite. A juventude encontrou-o porém agricultor, cuidando capazmente dos terrenos dos pais, na zona ribeirinha do Freixo, resto do velho Porto rural.
Inspecções chegadas, tudo tentou a família para livrá-lo da tropa, mas nada resultou. O mancebo acabou incorporado, Espinho e Santa Margarida foram breves passagens para vinte e oito meses de Moçambique. E, mal lá chegou, o prenúncio de fatalidade: camaradas de armas conseguiram resgatá-lo, nos segundos derradeiros, ao aperto de um cinto que o pendurava ao tecto da caserna...
A irmã não consegue precisar no tempo esta primeira tentativa de suicídio conhecida, se antes ou depois de um acontecimento que viria a determinar o desenlace da história: uma "brincadeira" infeliz entre militares, que acabou com Manuel agredido a pontapé nos testículos.
A gravidade da lesão obrigou a uma intervenção cirúrgica, em Moçambique, e tudo parecia ter voltado à normalidade. Manuel cumpriu até ao último dia marcado a comissão ultramarina e só depois voltou para a sua margem do Douro. Mas já nada era como dantes. O homem que "tinha ido inteiro para a guerra" não regressara, conta-me um tio do ex-combatente. A impotência sexual, provavelmente provocada pela agressão imbecil, vinha marcar irremediavelmente a existência deste jovem.
"Já não sou um homem", costumava lastimar-se Manuel, que - recorda a irmã - "perdeu o gosto de viver" e tornou-se agressivo, violento, "um bichinho autêntico".

(Continua)

P.S. - Escrevi em 1992 este exclusivo para a revista Grande Reportagem, então dirigida por Miguel Sousa Tavares. Foi, se não me engano, o primeiro trabalho jornalístico publicado em Portugal sobre o nosso stress de guerra. Os nomes dos ex-combatentes são, aqui, fictícios. Segundo dados que considero credíveis, 40 militares fafenses morreram na Guerra do Ultramar.

segunda-feira, 22 de abril de 2024

Feridas de guerra 6

Foto Tarrenego!
Obcecado pela "injustiça".
Outra é a história de António Pereira, 51 anos, do Porto. O que obceca é a "injustiça": desde logo, a injustiça de o terem mandado para a guerra, logo a ele que não tem "nenhuma mística de herói, antes pelo contrário"; depois, a injustiça da própria guerra; ainda, "a discriminação de tratamento entre soldados, sargentos e oficiais"; finalmente, a hipócrita posição dos generais, que, escondendo-se num "nacionalismo exacerbado e na chama do patriotismo", não admitem que a Guerra Colonial deixou as suas sequelas psicológicas.
Os sete meses passados no Norte de Angola em 1961/62 foram-lhe penosos desde o primeiro dia. A fartura de cerveja e de uísque não bondou para afogar o choro e os temores. António não voltou o mesmo. Sentia-se perdido quando tornou a casa, no final da comissão. Andou de neurologistas para psiquiatras e em 1971 esteve internado no Hospital Conde Ferreira. E desde aí nunca mais parou com as consultas: diz que tem "descarregado toneladas de preocupações".
O que mais o afligia eram os pesadelos, "corpos esventrados, cabeças e pénis cortados e espetados em paus simulando macabros sinais de trânsito". Remorsos não, porque a sua arma, "a 1035, nunca disparou contra corpo humano". O que o desanimava era "uma certa falta de apoio familiar". O que o "salvou" foram o 25 de Abril, que lhe veio "encher a vida", o investimento de tempo e de energias no seu curso de engenheiro-técnico, mas principalmente a sua filha, actualmente com 24 anos. "Era a Ana quem reacendia a fogueira, quem me ligava à vida", confessa.
Porque, a par de uma "vontade obsessiva de matar os autores de injustiças", que persiste, o suicídio era então também um pensamento constante na cabeça de António. Hoje passa "mais ou menos indiferente pelos sítios que tinha escolhido" para o caso...
Tal como José Rodrigues, António Pereira parece ter chegado a um estádio de convívio tolerante com os seus fantasmas. Mas há quem definitivamente não o tenha conseguido.

(Continua)

P.S. - Escrevi em 1992 este exclusivo para a revista Grande Reportagem, então dirigida por Miguel Sousa Tavares. Foi, se não me engano, o primeiro trabalho jornalístico publicado em Portugal sobre o nosso stress de guerra. Os nomes dos ex-combatentes são, aqui, fictícios. Segundo dados que considero credíveis, 40 militares fafenses morreram na Guerra do Ultramar.

domingo, 21 de abril de 2024

Feridas de guerra 5

Foto Tarrenego!
A vida num filme, todos os dias.
Ainda por cima, quando largou a tropa, já em meados da década de setenta, o emprego que José Rodrigues conseguiu arranjar, à sociedade com um irmão, foi o de projeccionista de cinema ambulante pelo seu Alentejo natal, enfrentando no dia-a-dia - como conta - "um mundo de fitas da Guerra do Vietname, às vezes uma dúzia de vezes a mesma fita". Uma tortura...
E tornavam os fantasmas. "Companheiros a morrerem ali à minha frente, outros feridos, e nós a batalharmos para que fossem recuperados, a chamar o helicóptero, e o helicóptero que não chega, aquela ansiedade..."
Ou daquela vez em que José estava com "uma mulher nativa" e de repente rebentou um morteiro ali quase em cheio. "Fomos projectados, eu e ela. Eu felizmente sem nada, mas ela com um pé todo esfacelado, ali ao meu lado..."
Ou. "O moço que era furriel miliciano, nunca mais o vi, que um dia, na Guiné, quando fazíamos um grande transporte de urnas de uma povoação para outra, desatou a correr em histeria por um descampado fora, a correr e a gritar. Era o meu camarada de quarto, e a partir daquilo passou a ser um inválido. Levava os dias sentado na cama, a olhar para nada, um moço de vinte e poucos anos..."
Ou...
Quando fez o seu primeiro grupo terapêutico, José Rodrigues "estava na porta da loucura" - ele mesmo o diz. Mas então pôde finalmente confessar-se, "desabafar junto de quem passou o mesmo, de quem está afectado pelo mesmo problema". Hoje - garante -, fruto de quatro anos de terapia e, é verdade, dos tranquilizantes de que não pode separar-se, sente-se "muito melhor", mas o futuro passa pelo tratamento contínuo.

(Continua)

P.S. - Escrevi em 1992 este exclusivo para a revista Grande Reportagem, então dirigida por Miguel Sousa Tavares. Foi, se não me engano, o primeiro trabalho jornalístico publicado em Portugal sobre o nosso stress de guerra. Os nomes dos ex-combatentes são, aqui, fictícios. Segundo dados que considero credíveis, 40 militares fafenses morreram na Guerra do Ultramar.

sábado, 20 de abril de 2024

Feridas de guerra 4

Foto Tarrenego!
"Já nem a família me conseguia aturar". José Rodrigues, "primeiro e ultimo nome", 45 anos, fez já dois grupos, na ADFA. Prepara-se para um terceiro, no Hospital Júlio de Matos. Ao fim de longos anos consegue finalmente falar sobre os seus males, mas logo ali avisa que o fará "sempre de costas para a parede"...
Ex-sargento pára-quedista, fez guerra em Moçambique (1968/69) e na Guiné (de 1970 a 1972), sempre "no barulho". Veio da última comissão "com o sistema nervoso alterado". Fez a via-sacra dos consultórios e hospitais.
Casado, pai de duas filhas, desabafa: "Cheguei ao ponto em que até a minha mulher teve de fazer parte da terapia de grupo. Já nem a família me conseguia aturar". Recordando esses tempos de agressividade, de choques constantes "sem motivos aparentes", reconhece que aos poucos foi contaminando toda a família, destruindo o carinho das filhas e tornando-as também "doentes". Justifica-se: "Ninguém compreendia o meu problema, não tinham passado pelas situações, não passaram pela guerra"...
Na rua era ainda pior: cansou-se de passar por charlatão quando falava da guerra. As pessoas pensavam que ele "estava a exagerar, a ir além daquilo que realmente é a realidade, quando muitas vezes nem chegava a metade da própria realidade".
"O sistema nervoso arriou". Fechou-se. Desligou da família e dos amigos, "pessoas que não tinham capacidade de entender". Para si guardou os "pensamentos e pesadelos" trazidos de África e que o "martirizavam".

(Continua)

P.S. - Escrevi em 1992 este exclusivo para a revista Grande Reportagem, então dirigida por Miguel Sousa Tavares. Foi, se não me engano, o primeiro trabalho jornalístico publicado em Portugal sobre o nosso stress de guerra. Os nomes dos ex-combatentes são, aqui, fictícios. Segundo dados que considero credíveis, 40 militares fafenses morreram na Guerra do Ultramar.

sexta-feira, 19 de abril de 2024

Feridas de guerra 3

Foto Tarrenego!
Classe médica não ajuda. Afonso de Albuquerque revela que a classe médica "está pouco sensibilizada para o diagnóstico desta doença" e avisa que "é necessário um esforço dos médicos em geral e dos seus órgãos e sociedades científicas na maior divulgação de informação relacionada com o DPTS". Vai mais longe Paula Frazão, denunciando que a classe médica "põe em causa a credibilidade deste tratamento, diagnosticando depressões com esquizofrenias, quando a doença da pessoa é outra".
Ainda assim, alguns médicos começam a enviar os seus doentes àqueles serviços especializados. Ali, principia-se por uma consulta, espécie de acto de confissão durante o qual, pela primeira vez ao fim de muitos anos, o ex-combatente consegue verbalizar e encarar o som das suas experiências; depois, uma entrevista, sob a forma de questionário de personalidade, por forma a avaliar a gravidade dos sintomas; segue-se o diagnóstico, dizendo-se então à pessoa o que se passa com ela e propondo-lhe o tratamento: a terapia de grupo e, em casos extremos, o complemento de medicamentos antidepressivos e ansiolíticos.
Os grupos de dez ou doze indivíduos reúnem uma vez por semana, durante quatro meses. Os doentes são encorajados a contarem as suas histórias de guerra ou consequentes desajustes sociais, familiares ou profissionais. Entre combatentes, camaradas, gente que viveu os mesmos pesadelos e tenta exorcizar os mesmos fantasmas, aprendem a ganhar à-vontade para o fazer.
Paula Frazão recorda homens que chegam ao primeiro encontro e não alcançam dizer coisa com coisa, homens que ouvem a palavra "guerra" e logo geram ansiedade, homens que, em fez de falar, choram. E se cada caso é um caso - dependendo da natureza do trauma, das características do indivíduo e do contextos dos eventos, do desenvolvimento ou não do DPTS -, todos vêm marcados pelo silêncio em que tentaram esquecer durante anos os seus medos, o que resulta no aumento do distúrbio, e a maioria está condenada a viver de terapias de grupo, tentando, até aos últimos dias, o equilíbrio possível.

(Continua)

P.S. - Escrevi em 1992 este exclusivo para a revista Grande Reportagem, então dirigida por Miguel Sousa Tavares. Foi, se não me engano, o primeiro trabalho jornalístico publicado em Portugal sobre o nosso stress de guerra. Os nomes dos ex-combatentes são, aqui, fictícios. O Dr. Afonso de Albuquerque faleceu no dia 5 de Abril de 2022. Segundo dados que considero credíveis, 40 militares fafenses morreram na Guerra do Ultramar.

quinta-feira, 18 de abril de 2024

Feridas de guerra 2

Foto Tarrenego!
Afonso de Albuquerque. Do trabalho do psiquiatra Afonso de Albuquerque, posto em estudo preliminar, ressalta que, no contexto português, para além das crises agudas no teatro de operações, os sintomas do stress de guerra aparecem quase sempre após o fim das comissões (cerca de 80 por cento dos casos), e numa percentagem elevada a doença só é notada mais de cinco anos depois dos últimos combates, com o ex-combatente a recorrer ao médico especialista, em geral, ao fim de treze anos.
Por ordem, cefaleias, abuso de álcool e drogas, pânico e fobias são as principais consequências do DPTS, e a morte de um camarada, o combate, ferimentos, sede e fome, assassínio, tortura e violação, morte de uma mulher ou de uma criança e bombardeamentos são os principais factores de stress. A especificidade da guerra de guerrilha, em que são pouco frequentes os combates cara a cara, explicará certamente a baixa percentagem atribuída nesta escala à morte do inimigo.
Hoje em dia, Afonso de Albuquerque continua o seu trabalho no Hospital Júlio de Matos, em Lisboa, mas na ADFA ficou uma sua ex-assistente, a psicóloga clínica Paula Frazão. Nestes dois pólos - da capital para todo o País - é posta à prova a técnica terapêutica, baseada essencialmente na verbalização em grupo das experiências traumáticas.
Os objectivos do tratamento são a redução dos sintomas - porque não existe cura total -, a prevenção de incapacidades crónicas e a reabilitação social e ocupacional dos ex-combatentes atingidos pela doença. Os resultados têm sido avaliados como satisfatórios, sendo que o programa, paradoxalmente, não terá atingido senão pouco mais de meia centena de indivíduos.
E se são dados adquiridos a ignorância dos prováveis atingidos perante o que realmente lhes está a acontecer e a vergonha da assunção da maioria (mesmo os pouco que admitiram o seu "problema" e o relacionaram com o tempo de guerra, e procuraram a ajuda de especialistas, fizeram-no "obrigados" por familiares e amigos), a verdade é que são os médicos, como classe, o principal obstáculo ao tratamento da doença.

(Continua)

P.S. - Escrevi em 1992 este exclusivo para a revista Grande Reportagem, então dirigida por Miguel Sousa Tavares. Foi, se não me engano, o primeiro trabalho jornalístico publicado em Portugal sobre o nosso stress de guerra. Os nomes dos ex-combatentes são, aqui, fictícios. O Dr. Afonso de Albuquerque faleceu no dia 5 de Abril de 2022. Segundo dados que considero credíveis, 40 militares fafenses morreram na Guerra do Ultramar.

quarta-feira, 17 de abril de 2024

Feridas de guerra

Foto Tarrenego!
Manuel Teixeira, 42 anos, suicidou-se. João Silva, 41 anos, aguarda julgamento por homicídio. José Rodrigues, 45 anos, faz terapia de grupo. António Pereira, 51 anos, vive obcecado pelas "injustiças" e já pensou matar ou matar-se - convive desde 1963 com psiquiatras e tranquilizantes. Manuel, João, José e António têm em comum a Guerra Colonial e o medo dos seus medos. São casos à mostra dos cerca de 140 mil ex-combatentes portugueses atingidos pelo stress de guerra, essa doença camuflada numa espécie de clandestinidade.

São homens marcados. Hipersensíveis, desconfiados, revivem em permanente alarme os pesadelos do teatro de guerra. Deprimidos, ansiosos, agressivos, perderam a vontade de viver e do afecto, desfizeram amizades e família, saltam de emprego em emprego, isolam-se, porque "não os compreendem, não passaram pelo que eles passaram", e frequentemente entregam-se ao álcool e à droga. Em casos extremos, fogem pela porta do suicídio ou desabafam na violência do homicídio.
São cerca de 140 mil portugueses, atingidos por uma perturbação psicológica crónica com o nome clínico de distúrbio pós-traumático de stress (DPTS) ganho nos matos de Angola, Guiné ou Moçambique, e que, mal entendida pela generalidade da classe médica e ignorada pela instituição militar, existe quase na clandestinidade e sem direito aos "privilégios" da incapacidade de papel passado. Dezoito anos após o seu fim, e trinta e um depois do seu começo, a Guerra Colonial continua a contabilizar vítimas.
A questão só há três anos começou a ser estudada entre nós. O número avançado, 140 mil - extrapolado dos números indicados pelos americanos em relação aos seus ex-combatentes no Vietname -, corresponde à metade aritmética dos 280 mil soldados portugueses que enfrentaram situações de combate em África, no meio do milhão que passou pelos treze anos de guerra.
Afonso de Albuquerque, psiquiatra de Lisboa, foi quem teve a coragem de ir à gaveta da História arejar este dossiê incómodo e convenientemente arrumado. Fê-lo servindo-se do natural campo de ensaio que é, para o caso, a Associação de Deficientes das Forças Armadas (ADFA), com os seus cerca de 14 mil sócios.
Na sede da ADFA, na capital, Afonso de Albuquerque realizou os seus primeiros estudos e orientou pioneiras sessões de terapia de grupo, sete anos depois de o manual estatístico de doenças mentais da Associação Americana de Psiquiatria (DSM III) ter pela primeira vez catalogado e elaborado os critérios de diagnóstico da doença - sim, é uma doença! -, baseado ainda na experiência da Guerra do Vietname e como conclusão do seguimento de casos de "estado de choque" pendentes da II Guerra Mundial.

(Continua)

P.S. - Escrevi em 1992 este exclusivo para a revista Grande Reportagem, então dirigida por Miguel Sousa Tavares. Foi, se não me engano, o primeiro trabalho jornalístico publicado em Portugal sobre o nosso stress de guerra. Os nomes dos ex-combatentes são, aqui, fictícios. O Dr. Afonso de Albuquerque faleceu no dia 5 de Abril de 2022. Segundo dados que considero credíveis, 40 militares fafenses morreram na Guerra do Ultramar.

quarta-feira, 3 de maio de 2023

quarta-feira, 26 de abril de 2023

domingo, 23 de abril de 2023

sábado, 22 de abril de 2023

quinta-feira, 20 de abril de 2023

Candidaturas ao Prémio A. Lopes de Oliveira

Decorre o período para concurso ao Prémio Literário A. Lopes de Oliveira / Câmara Municipal de Fafe, destinado a distinguir estudos históric...