quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

De que riem os portugueses?

O humorista brasileiro Juca Chaves costumava contar mais ou menos assim, pondo as palavras iniciais na boca do guia do jardim zoológico: "E aqui temos a hiena. A hiena, que é um animal que ri muito. Alimenta-se das fezes dos outros animais e tem relações sexuais com a sua fêmea apenas uma vez por ano". "Mas, se come merda e só fode uma vez por ano, ri de quê?", pergunta o visitante.

P.S. - Hoje é Dia Internacional do Riso.

Quem ri por cima ri melhor

Foto Hernâni Von Doellinger

sábado, 13 de janeiro de 2024

Má sorte ser-se puta

A notícia espalhou-se como fogo em mato seco: um automobilista acabara de atropelar mortalmente uma pega, toda esmigalhadinha. Assassino! Juntaram-se imediatamente o PAN, Os Verdes, a Quercus, a Zero, a Protectora dos Animais, a Greenpeace, dois dirigentes da Juve Leo, um dos Super Dragões, sete das inexistentes claques do Benfica, trinta e dois indignados das redes sociais, quatrocentos influencers, seis cães que tinham levado os donos a almoçar fora, vários elementos do movimento cívico e espontâneo SOS Grilo Careca de Asa Redonda e Perna Curta, que está muito bem organizado para estas emergências, chegaram os do Climáximo e sentaram-se. Rodearam o carro, arrancaram o automobilista cá para fora e encheram-no de carolos e caneladas, para ele aprender. Só não chegaram ao linchamento porque, regra geral, desconheciam a palavra, e os poucos que a conheciam de vista confundiam-na com lixamento e achavam que, para lixar o energúmeno, os carolos e as caneladas já estavam muito bem.
Apareceu enfim a GNR. A autoridade aproveitou para também molhar a sopa, quer-se dizer, o automobilista caiu sozinho sobre duas secretárias e esbarrou-se sem ninguém lhe tocar num armário ali no meio da via, e, posto isto, foi-lhe ordenado que se explicasse. O automobilista explicou-se. E convenceu. O PAN, Os Verdes, a Quercus, a Zero, a Protectora dos Animais, a Greenpeace, os dirigentes da Juve Leo e dos Super Dragões e das inexistentes claques do Benfica, os trinta e dois indignados das redes sociais, os quatrocentos influencers, os seis cães da vida airada, os espontâneos do SOS Grilo Careca de Asa Redonda e Perna Curta, os sentados do Climáximo e a própria GNR fartaram-se de pedir desculpas ao homem e até lhe deram os parabéns e os primeiros-socorros. Tudo não passara de um pequeno mal-entendido, lapsus linguae, erro de comunicação. Afinal o automobilista não tinha morto uma pega ou Pica pica melanotos, seria uma tragédia, tinha apenas atropelado mortalmente uma pega meretriz de beira de estrada, Femina sapiens solteira e mãe de três filhos, toda esmigalhadinha. É chato, mas são coisas que acontecem...

P.S. - O PAN, Partido pelos Animais e pela Natureza, foi inscrito no Tribunal Constitucional no dia 13 de Janeiro de 2011. Chama-se actualmente Pessoas - Animais - Natureza.

Os passarinhos, tão engraçados

Foto Hernâni Von Doellinger

quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

Deus fica com tudo

Saio da cama praticamente de madrugada, vou ao peixe para a minha sogra que se desfez dos dentes e esconjura a carne com sortilégios que ignoro, cozinho o peixinho como manda a lei, assim e assado, com mais isto e mais aquilo, vario receitas, invento pratos, precato-me do sal, suprimo a gordura, provo, reprovo, rectifico, aprovo, refino, ponho-lhe mesa lavada, ajeito travessa bonita, a minha sogra come, come, come para o guinness, faz barulhos estranhos mas não diz nada, porque ovelha que berra bocado que perde, sobremesa, café, termina, com licença, afinal fala, sai da mesa e volta para a televisão, benze-se a mil à hora, não sei como consegue, e ouço-a: Obrigado, Senhor, bzzz, bzzz, bzzz. Afino! Quer-se dizer: eu acho que também fiz qualquer coisinha...

P.S. - Hoje é Dia Internacional do Obrigado.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

O meu cinema paraíso

Foto Hernâni Von Doellinger
Eu era miúdo. Éramos todos miúdos, como nos convinha. E íamos em bando até à porta da Dona Laura Summavielle, filha, que morava à beira da Igreja Nova. Os Summavielles (Sumaviéisss, se lido e dito à nossa moda) eram os donos do Teatro-Cinema de Fafe, do Cinema, assim explicado sem outros salamaleques. E nós íamos pedir à Dona Laura, que devia ser o melhor coração da família e para mim era o melhor coração do mundo, que nos levasse a ver o filme. De graça. E a boa senhora levava.
A coisa tinha o seu ritual. Esperar à porta do cinema não valia, tínhamos de ir mesmo a casa da Dona Laura, que também não era longe. Éramos para aí uns seis ou sete, às vezes menos, consoante o lado para que tinham acordado os pais de cada qual, e devíamos lá chegar pelo menos com uma boa meia hora de avanço em relação à hora de saída prevista da senhora. Chegávamos e esperávamos. Não se batia à porta, não se tocava na campainha, esperávamos apenas, calados como ratos, porque o mais pequeno ruído podia deitar tudo a perder.
A senhora saía, encarava-nos sempre com um grande sorriso e nós continuávamos sem dizer nada, nem era preciso. Púnhamo-nos atrás dela, em fila, como pintainhos seguindo a mãe galinha, e, agora que penso nisto, acho que devia ter sido uma coisa bonita de se ver, aquele extravagante grupo a atravessar o Largo da Igreja e a descer até ao Cinema, na máxima compostura e no mais religioso silêncio.
A Dona Laura entrava e nós ficávamos cá fora, bem guardados pelo Senhor Leitão porteiro, que era mau como as cobras e vestia um capote castanho, com botões dourados e gola vermelha, que até parecia um general soviético, embora na bilheteira é que estivesse o Senhor Castro, comunista, alfaiate e bom amigo. Também por lá passou o estimado Sérgio Lopes.
Perdíamos os desenhos animados, perdíamos os "documentários", mas na horinha do arranque do filme a sério vinha a ordem da Dona Laura e imediatamente desatávamos a correr Cinema acima, dois andares a bater chancas em chão de soalho com escarradores, numa trovoada que quase deitava a casa abaixo, até chegarmos ao nosso sítio. Só ali voltávamos a portar-nos bem, sempre perante o olhar bondoso e compreensivo da nossa benfeitora, que, do seu camarote ao lado da cabina de projecção do Senhor Reinaldo Pires, nos lançava mais um sorriso, com o dedo de chiu sobre os lábios finos.
O nosso sítio era uma frisa e cheirava a veludo velho e tabaco. Quase que pertencíamos ao filme! O som dos altifalantes entrava-nos pelo corpo dentro, estremecia-nos, eu era do tamanho dum buraco do nariz do Maciste e tinha de me afastar para não desaparecer na caverna. Foi ali que eu conheci pessoalmente o Ursus, o Spartacus, o Ben-Hur e o Hércules e podem crer que aqueles cenários de papelão só pareciam de papelão, de resto eram mesmo a sério, e eu acreditava que era por causa do papelão que os filmes eram peplum. Eu sei, porque estive nos filmes. Fui eu que ajudei o Sansão a dizer "morra Sansão e todos os que aqui estão", para eu e ele nos vingarmos da traidora da Dalila e acabarmos com o filme logo ali, porque aquilo não se faz, e não me venham dizer que ele não disse nada disto. Dissemos!
Perguntassem ao "Sandim". Ele é que ia à estação de comboios "buscar os artistas", num carrinho com rodas de madeira. Mas não trazia os beijos todos. Não cabiam nas bobinas, decerto. As cópias dos filmes eram velhas, cheias de cortes, no melhor e mais quentinho passavam sempre à frente. Como o Jornal da Igreja Nova trazia uma sinopse das películas do fim-de-semana, nós achávamos que o Senhor Arcipreste fazia um visionamento prévio e culpávamo-lo por aquele imperdoável acto de censura. Mal eu sabia que ainda havia de ser feito um filme sobre esta minha história, mas em italiano.
No meu Cinema moravam cobóis. No tempo em que o que eu queria era crescer para ver filmes "para maiores de 17", havia também umas senhoras da Rua de Baixo e de Santo Ovídio que faziam de arrumadoras e tomavam conta do buffet, onde serviam gasosas, laranjadas, café de cafeteira e rebuçados mulatos. Ao intervalo, enquanto o ardina entrava plateia dentro com a edição do Norte Desportivo de domingo à noite, já com os resultados e relatos dos jogos todos, os espectadores recebiam umas senhas para irem lá fora tomar café em condições.
No meu Cinema liam-se as legendas em voz alta para os analfabetos que não eram poucos. O meu Cinema parecia uma ópera. Chegada a época, jogava-se ao Carnaval e constava que havia baile no salão nobre. O respeito e a, como hoje se diria, segurança eram zelados pelo Senhor Barroco, pelos Senhor José e Senhor António do Santo e pelo Senhor António Quim, que eu sempre confundi com o outro, o de "Zorba, o Grego". Foi na companhia desta gente que eu cresci. Mal comecei a ganhar, passei a ter bilhete reservado para todas as sessões e, depois do 25 de Abril, até vi o "Último Tango em Paris". Duas vezes. Seguidas, olha o espanto!

Sou do cinema desde pequenino. Sou do cinema por causa do meu Cinema. Deixei Fafe no início da década de 1980 e o meu Cinema entrou em ruína. Pensei que outros tivessem ficado a tomar conta, mas enganei-me. Depois de 25 anos de inactividade, muita politiquice e um impressionante trabalho de recuperação, o Teatro-Cinema de Fafe reabriu portas em 2009, sem Maciste, sem Sansão nem Dalila, sem o Senhor José do Santo e sem a Dona Laura Summavielle. Já lá não estão, já cá não estão. Os cobóis também foram despejados. O novo Teatro-Cinema de Fafe, que só conheço por fora, funciona agora como entreposto cultural camarário. O que é certamente aplaudível e tem muito mais cagança - mas não é a mesma coisa.

P.S. - O Teatro-Cinema de Fafe foi inaugurado no dia 10 de Janeiro de 1924. Isto é, o meu cinema paraíso faz hoje cem anos. E, como acho que também faço parte, apeteceu-me estar de parabéns!...

Teatro em família no Teatro-Cinema

O espectáculo "Pelo prazer de não estarmos sós" sobe ao palco do Teatro-Cinema de Fafe, no próximo dia 20 de Setembro, domingo, às...