A velha prostituta, muito limpa e organizada, consultou a agenda, meia dúzia de linhas encriptadas em gatafunhos analfabetos, e leu baixinho, como que soletrando, acariciando as impossíveis sílabas uma a uma: - O bombeiro às onze, o taxista ao meio-dia, o do talho às três da tarde e o senhorio às cinco. Desarriscou-os a todos, um atrás do outro, meticulosamente, com gosto, sorriu para o espelho do toucador, provocando-se, e resolveu tirar o dia. Guardou a agenda e pegou no telemóvel, vagarosamente, com requebros e biquinhos, imitando um gesto coquete que vira uma vez na televisão. Marcou encontro com a Amélia Calçuda. O espelho corou. E ela foi lavar-se.
P.S. - Publicado aqui originalmente no dia 2 de Junho de 2023. Hoje é Dia Internacional da Prostituta.
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segunda-feira, 2 de junho de 2025
domingo, 13 de abril de 2025
O testamento
O notário vacilou. Mas leu. O defunto deixava beijos e abraços. Distribuídos pelos inúmeros herdeiros em fracções de zero a 145, consoante o julgado merecimento de cada qual. Dinheiro não havia. Tinha ido todo em putas e vinho verde. Isto é, em beijos e abraços.
P.S. - Hoje é Dia Internacional do Beijo.
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sexta-feira, 28 de março de 2025
Faziam-se homens e pronto
No meu tempo era mais fácil fazer homens. Levavam-se os rapazes às putas, mandavam-se os rapazes para a tropa, e estava o assunto resolvido. Hoje em dia a coisa exige outros mimos, ciência, psicologia, às vezes até cirurgia...
P.S. - Hoje é Dia Nacional da Juventude.
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quarta-feira, 20 de março de 2024
sábado, 13 de janeiro de 2024
Má sorte ser-se puta
A notícia espalhou-se como fogo em mato seco: um automobilista acabara de atropelar mortalmente uma pega, toda esmigalhadinha. Assassino! Juntaram-se imediatamente o PAN, Os Verdes, a Quercus, a Zero, a Protectora dos Animais, a Greenpeace, dois dirigentes da Juve Leo, um dos Super Dragões, sete das inexistentes claques do Benfica, trinta e dois indignados das redes sociais, quatrocentos influencers, seis cães que tinham levado os donos a almoçar fora, vários elementos do movimento cívico e espontâneo SOS Grilo Careca de Asa Redonda e Perna Curta, que está muito bem organizado para estas emergências, chegaram os do Climáximo e sentaram-se. Rodearam o carro, arrancaram o automobilista cá para fora e encheram-no de carolos e caneladas, para ele aprender. Só não chegaram ao linchamento porque, regra geral, desconheciam a palavra, e os poucos que a conheciam de vista confundiam-na com lixamento e achavam que, para lixar o energúmeno, os carolos e as caneladas já estavam muito bem.
Apareceu enfim a GNR. A autoridade aproveitou para também molhar a sopa, quer-se dizer, o automobilista caiu sozinho sobre duas secretárias e esbarrou-se sem ninguém lhe tocar num armário ali no meio da via, e, posto isto, foi-lhe ordenado que se explicasse. O automobilista explicou-se. E convenceu. O PAN, Os Verdes, a Quercus, a Zero, a Protectora dos Animais, a Greenpeace, os dirigentes da Juve Leo e dos Super Dragões e das inexistentes claques do Benfica, os trinta e dois indignados das redes sociais, os quatrocentos influencers, os seis cães da vida airada, os espontâneos do SOS Grilo Careca de Asa Redonda e Perna Curta, os sentados do Climáximo e a própria GNR fartaram-se de pedir desculpas ao homem e até lhe deram os parabéns e os primeiros-socorros. Tudo não passara de um pequeno mal-entendido, lapsus linguae, erro de comunicação. Afinal o automobilista não tinha morto uma pega ou Pica pica melanotos, seria uma tragédia, tinha apenas atropelado mortalmente uma pega meretriz de beira de estrada, Femina sapiens solteira e mãe de três filhos, toda esmigalhadinha. É chato, mas são coisas que acontecem...
P.S. - O PAN, Partido pelos Animais e pela Natureza, foi inscrito no Tribunal Constitucional no dia 13 de Janeiro de 2011. Chama-se actualmente Pessoas - Animais - Natureza.
Apareceu enfim a GNR. A autoridade aproveitou para também molhar a sopa, quer-se dizer, o automobilista caiu sozinho sobre duas secretárias e esbarrou-se sem ninguém lhe tocar num armário ali no meio da via, e, posto isto, foi-lhe ordenado que se explicasse. O automobilista explicou-se. E convenceu. O PAN, Os Verdes, a Quercus, a Zero, a Protectora dos Animais, a Greenpeace, os dirigentes da Juve Leo e dos Super Dragões e das inexistentes claques do Benfica, os trinta e dois indignados das redes sociais, os quatrocentos influencers, os seis cães da vida airada, os espontâneos do SOS Grilo Careca de Asa Redonda e Perna Curta, os sentados do Climáximo e a própria GNR fartaram-se de pedir desculpas ao homem e até lhe deram os parabéns e os primeiros-socorros. Tudo não passara de um pequeno mal-entendido, lapsus linguae, erro de comunicação. Afinal o automobilista não tinha morto uma pega ou Pica pica melanotos, seria uma tragédia, tinha apenas atropelado mortalmente uma pega meretriz de beira de estrada, Femina sapiens solteira e mãe de três filhos, toda esmigalhadinha. É chato, mas são coisas que acontecem...
P.S. - O PAN, Partido pelos Animais e pela Natureza, foi inscrito no Tribunal Constitucional no dia 13 de Janeiro de 2011. Chama-se actualmente Pessoas - Animais - Natureza.
terça-feira, 26 de dezembro de 2023
Os bons hábitos ainda moram em Fafe
Sodoma e GomorraOs sodomitas, habitantes de Sodoma, ficaram com a pior parte da fama. Os gomorritas safaram-se, vá-se lá saber porquê, e nem sequer constam nos dicionários.
Apraz-me registar que, apesar da minha prolongada ausência, Fafe lá consegue aguentar-se, preservando pelo menos duas das suas mais icónicas e respeitáveis tradições: o jogo e a prostituição. Alegraram-me sobremaneira as notícias do final da passada semana. Notícias animadoras, e logo duas, a primeira dando conta de um apartamento que era usado em Fafe "para negócio de prostituição" e a segunda a propósito da detenção de catorze indivíduos num café "em Arões Santa Cristina por jogo ilegal". Detenção "em flagrante", no caso da batota, não sei em que circunstâncias no que diz respeito ao putedo, e eu gostaria muito de saber, porque, verdade seja dita, é sempre mais interessante de se ver. Por causa do corpo de delito.
Confesso. Eu já temia que, fruto de sucessivos banhos de cosmopolitismo e cultura de croquete, dados evidentemente nas minhas costas, Fafe se tivesse aos poucos deslavado e transformado numa dessas terras virtuosas e insossas, que nem fodem nem saem de cima, talvez até esquecendo e renegando as suas mais ancestrais e emblemáticas tradições, como por exemplo as corridas de jericos ou aquela tão bonita de afogar gatos no rio. Nos nossos rios e poças, que, não desfazendo, também são uma categoria. Mas não. Felizmente, não. Fafe mantém-se fiel ao seu passado glorioso, um farol civilizacional, uma metrópole de vanguarda moral, uma inapagável Las Vegas do vale do Ave com barragem e tudo, encravada entre a Póvoa de Lanhoso e Felgueiras, a zona de Basto, Vieira do Minho e Guimarães, consoante o lado por onde se lhe entre. E fiquei contente, claro que fiquei contente!
No caso da prostituição, o nosso apartamento, quero dizer, o de Fafe, funcionaria em estreita ligação com um outro apartamento localizado na Póvoa de Varzim, o que se compreende perfeitamente, uma vez que, como toda a gente sabe, e eu já expliquei, a Póvoa de Varzim é Fafe no Verão. Já a conexão a um terceiro apartamento, em Viana do Castelo, poderá de alguma forma estar relacionada com as excursões que o meu avô da Bomba organizava antigamente a Fátima e, lá está, ao Alto Minho, com pernoita obrigatória em Viana. Prometo averiguar.
Quanto ao jogo ilegal, é a cara chapada de Fafe. Do pilas do Serafim Lamelas às madrugadas no Club Fafense ou no Fernando da Sede, do bilhar aos flippers no Peludo, em Fafe jogava-se a tudo, apostava-se por tudo e por nada. E sempre a dinheiro. E por isso daqui envio a minha mais compungida solidariedade aos catorze maduros, catorze magníficos, fafenses à antiga, que foram apanhados em Arões com as calças na mão, por assim dizer.
Foi um rude golpe. Juntamente com os jogadores propriamente ditos, dos 27 aos 83 anos, a GNR deteve também duas mesas e dezanove cadeiras consideradas perigosas, para além de um baralho de cartas há muito procurado pelas autoridades. Um rombo no negócio, um tiro no porta-aviões. Mas todos juntos haveremos de reerguer-nos. Bem hajam!
terça-feira, 20 de junho de 2023
Os bons hábitos ainda moram em Fafe
Sodoma e Gomorra
Os sodomitas, habitantes de Sodoma, ficaram
com a pior parte da fama. Os gomorritas
safaram-se, vá-se lá saber porquê, e nem sequer
constam nos dicionários.
Apraz-me registar que, apesar da minha prolongada ausência, Fafe lá consegue aguentar-se, preservando pelo menos duas das suas mais icónicas e respeitáveis tradições: o jogo e a prostituição. Alegraram-me sobremaneira as notícias do final da passada semana. Notícias animadoras, e logo duas, a primeira dando conta de um apartamento que era usado em Fafe "para negócio de prostituição" e a segunda a propósito da detenção de catorze indivíduos num café "em Arões Santa Cristina por jogo ilegal". Detenção "em flagrante", no caso da batota, não sei em que circunstâncias no que diz respeito ao putedo, e eu gostaria muito de saber, porque, verdade seja dita, é sempre mais interessante de se ver. Por causa do corpo de delito.
Confesso. Eu já temia que, fruto de sucessivos banhos de cosmopolitismo e cultura de croquete, dados evidentemente nas minhas costas, Fafe se tivesse aos poucos deslavado e transformado numa dessas terras virtuosas e insossas, que nem fodem nem saem de cima, talvez até esquecendo e renegando as suas mais ancestrais e emblemáticas tradições, como por exemplo as corridas de jericos ou aquela tão bonita de afogar gatos no rio. Nos nossos rios e poças, que, não desfazendo, também são uma categoria. Mas não. Felizmente, não. Fafe mantém-se fiel ao seu passado glorioso, um farol civilizacional, uma metrópole de vanguarda moral, uma inapagável Las Vegas do vale do Ave com barragem e tudo, encravada entre a Póvoa de Lanhoso e Felgueiras, a zona de Basto, Vieira do Minho e Guimarães, consoante o lado por onde se lhe entre. E fiquei contente, claro que fiquei contente!
No caso da prostituição, o nosso apartamento, quero dizer, o de Fafe, funcionaria em estreita ligação com um outro apartamento localizado na Póvoa de Varzim, o que se compreende perfeitamente, uma vez que, como toda a gente sabe, e eu já expliquei, a Póvoa de Varzim é Fafe no Verão. Já a conexão a um terceiro apartamento, em Viana do Castelo, poderá de alguma forma estar relacionada com as excursões que o meu avô da Bomba organizava antigamente a Fátima e, lá está, ao Alto Minho, com pernoita obrigatória em Viana. Prometo averiguar.
Quanto ao jogo ilegal, é a cara chapada de Fafe. Do pilas do Serafim Lamelas às madrugadas no Club Fafense ou no Fernando da Sede, do bilhar aos flippers no Peludo, em Fafe jogava-se a tudo, apostava-se por tudo e por nada. E sempre a dinheiro. E por isso daqui envio a minha mais compungida solidariedade aos catorze maduros, catorze magníficos, fafenses à antiga, que foram apanhados em Arões com as calças na mão, por assim dizer.
Foi um rude golpe. Juntamente com os jogadores propriamente ditos, dos 27 aos 83 anos, a GNR deteve também duas mesas e dezanove cadeiras consideradas perigosas, para além de um baralho de cartas há muito procurado pelas autoridades. Um rombo no negócio, um tiro no porta-aviões. Mas todos juntos haveremos de reerguer-nos. Bem hajam!
domingo, 13 de novembro de 2022
No tempo dos Antigos
Os Antigos sabiam tudo. No tempo deles é que era. Havia respeito, havia educação, bondade, sabedoria, paz, saúde e sobretudo velhice. Os Antigos merecem a letra grande, Antigos, como se fossem uma civilização, porque deveras são.
Os Antigos sabiam de laranjas - de manhã ouro, à tarde prata e à noite mata. Sabiam do tempo - em Abril, águas mil. Sabiam de horas e alturas - deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer. Sabiam de curas e maleitas - o vinagre e o limão meio cirurgião são. Sabiam de tubérculos e famulagem - não comas caldo de nabos nem o dês aos teus criados. Sabiam de presigos e segurança pública - sardinha sem pão é comer de ladrão. Sabiam de magustos e viagras - a castanha excita o coito e alimenta muito. Sabiam de proporções - bom comer: três vezes beber. Sabiam de criação e divindades - ao menino e ao borracho põe Deus a mão por baixo. Sabiam de prestidigitação e utopias - mais vale um pássaro na mão do que dois a voar. Sabiam saltar a cerca - a galinha da vizinha é sempre melhor que a minha. E sabiam guardar um segredo - o corno é o último a saber.
Os Antigos morriam muito, mas morriam muito velhinhos, isto é, por volta dos cinquenta, sessenta anos.
Os Antigos não andavam por aí aos tiros. Andavam às pauladas, às facadas, às sacholadas - e aos tiros.
Os Antigos não matavam por dá cá aquele palha. Matavam por causa da água - e geralmente por causa do vinho. E às vezes por dá cá aquela palha, só para não darem parte de fraco.
Os Antigos não emprenhavam raparigas solteiras a torto e a direito. Os filhos de pai incógnito eram realmente mais que as mães, mas eram milagres, isso está provado.
Os Antigos não toleravam e até perseguiam os maricas, isto é, os paneleiros, porém consideravam razoável que o senhor padre fosse ao pito às moças da paróquia e brincasse com as pilinhas dos meninos da catequese.
Os Antigos sabiam muito de política e achavam que melhor que um Salazar só dois Salazares. Melhor ainda, um Salazar em cada esquina e o país de bico calado. Entre Salazar e Fátima, era a única dúvida que tinham os Antigos, e por isso resolveram apegar-se aos dois.
Os Antigos sabiam como fazer homens. Pegavam nos rapazes e mandavam-nos para a tropa, se possível para a guerra. Bater nos filhos fazia parte, e nas mulheres também.
Os Antigos sabiam o lugar da mulher. Em casa. Na cozinha. A fazer croché. E se saíam à rua, era marido à frente e mulher um passo atrás, como Deus ensinou e está na Bíblia. Ser marido era um posto.
Os Antigos respeitavam muito as esposas. Por isso iam às putas.
Os Antigos andam por aí. E estamos no tempo deles.
Os Antigos sabiam de laranjas - de manhã ouro, à tarde prata e à noite mata. Sabiam do tempo - em Abril, águas mil. Sabiam de horas e alturas - deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer. Sabiam de curas e maleitas - o vinagre e o limão meio cirurgião são. Sabiam de tubérculos e famulagem - não comas caldo de nabos nem o dês aos teus criados. Sabiam de presigos e segurança pública - sardinha sem pão é comer de ladrão. Sabiam de magustos e viagras - a castanha excita o coito e alimenta muito. Sabiam de proporções - bom comer: três vezes beber. Sabiam de criação e divindades - ao menino e ao borracho põe Deus a mão por baixo. Sabiam de prestidigitação e utopias - mais vale um pássaro na mão do que dois a voar. Sabiam saltar a cerca - a galinha da vizinha é sempre melhor que a minha. E sabiam guardar um segredo - o corno é o último a saber.
Os Antigos morriam muito, mas morriam muito velhinhos, isto é, por volta dos cinquenta, sessenta anos.
Os Antigos não andavam por aí aos tiros. Andavam às pauladas, às facadas, às sacholadas - e aos tiros.
Os Antigos não matavam por dá cá aquele palha. Matavam por causa da água - e geralmente por causa do vinho. E às vezes por dá cá aquela palha, só para não darem parte de fraco.
Os Antigos não emprenhavam raparigas solteiras a torto e a direito. Os filhos de pai incógnito eram realmente mais que as mães, mas eram milagres, isso está provado.
Os Antigos não toleravam e até perseguiam os maricas, isto é, os paneleiros, porém consideravam razoável que o senhor padre fosse ao pito às moças da paróquia e brincasse com as pilinhas dos meninos da catequese.
Os Antigos sabiam muito de política e achavam que melhor que um Salazar só dois Salazares. Melhor ainda, um Salazar em cada esquina e o país de bico calado. Entre Salazar e Fátima, era a única dúvida que tinham os Antigos, e por isso resolveram apegar-se aos dois.
Os Antigos sabiam como fazer homens. Pegavam nos rapazes e mandavam-nos para a tropa, se possível para a guerra. Bater nos filhos fazia parte, e nas mulheres também.
Os Antigos sabiam o lugar da mulher. Em casa. Na cozinha. A fazer croché. E se saíam à rua, era marido à frente e mulher um passo atrás, como Deus ensinou e está na Bíblia. Ser marido era um posto.
Os Antigos respeitavam muito as esposas. Por isso iam às putas.
Os Antigos andam por aí. E estamos no tempo deles.
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