Saio da cama praticamente de madrugada, vou ao peixe para a minha sogra que se desfez dos dentes e esconjura a carne com sortilégios que ignoro, cozinho o peixinho como manda a lei, assim e assado, com mais isto e mais aquilo, vario receitas, invento pratos, precato-me do sal, suprimo a gordura, provo, reprovo, rectifico, aprovo, refino, ponho-lhe mesa lavada, ajeito travessa bonita, a minha sogra come, come, come para o guinness, faz barulhos estranhos mas não diz nada, porque ovelha que berra bocado que perde, sobremesa, café, termina, com licença, afinal fala, sai da mesa e volta para a televisão, benze-se a mil à hora, não sei como consegue, e ouço-a: Obrigado, Senhor, bzzz, bzzz, bzzz. Afino! Quer-se dizer: eu acho que também fiz qualquer coisinha...
P.S. - Hoje é Dia Internacional do Obrigado.
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quinta-feira, 11 de janeiro de 2024
Deus fica com tudo
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quarta-feira, 16 de agosto de 2023
As vages, aliás bages
Passou-se assim, ainda a respeito do comer e de certas e determinada pessoas. Empratei o jantar da minha sogra: uma posta de bacalhau cozido com três dedos de altura por um palmo de comprimento, um ovo aberto ao meio, cinco batatas médias partidas em quartos, um dilúvio de azeite e duas pingas de vinagre branco, como ela gosta. A minha mulher colocou-lhe à frente aquela reprodução dos Himalaias em tamanho natural, e a minha sogra, naquela altura ainda nos seus resplandecentes 88 anos, mas mal-humorada por princípio e por inegável prazer, como sempre, resmungou: - Hoje não há umas vagenzitas?...
Não havia. Era segunda-feira e à segunda-feira cá em casa é assim, bacalhau, batata e ovo, sem outros matadores, uma tradição que eu quero crer que trouxe de Fafe, da casa da minha mãe. A minha sogra limpou o prato em menos de cinco minutos, mas sob protesto, que fique registado.
Vagem, neste caso, é feijão-verde. Ou, melhor dito, vage. Ou, melhor dito ainda, bage. As bages, posso esclarecer, eram ao almoço de quarta-feira para uma pessoa, com pescada quase sempre fresca. E outra coisa: com bacalhau, a minha sogra bebia um fundinho de vinho. Diz que é dado: bacalhau, portanto vinho. Mas isso é lá uma tradição dela.
Não havia. Era segunda-feira e à segunda-feira cá em casa é assim, bacalhau, batata e ovo, sem outros matadores, uma tradição que eu quero crer que trouxe de Fafe, da casa da minha mãe. A minha sogra limpou o prato em menos de cinco minutos, mas sob protesto, que fique registado.
Vagem, neste caso, é feijão-verde. Ou, melhor dito, vage. Ou, melhor dito ainda, bage. As bages, posso esclarecer, eram ao almoço de quarta-feira para uma pessoa, com pescada quase sempre fresca. E outra coisa: com bacalhau, a minha sogra bebia um fundinho de vinho. Diz que é dado: bacalhau, portanto vinho. Mas isso é lá uma tradição dela.
domingo, 13 de agosto de 2023
Nem tanto ao mar nem tanto à terra
| Foto Hernâni Von Doellinger |
Pois bem. Creio que este também é o primeiro fim-de-semana, depois dos dois últimos fins-de semana, em que eu não escrevo sobre bacalhau. Isso, bacalhau. E não escrevo sobre bacalhau, embora ontem tenhamos ido comer mais uma vez o melhor bacalhau assado na brasa do mundo aí a um sítio, mas não escrevo sobre bacalhau, dizia eu, porque recebi certas e determinadas críticas alegando que estou sempre a falar de bacalhau e que tanto bacalhau até enjoa e que há mais vida para além do bacalhau e não sei que mais...
A crítica é livre e serve geralmente para limpar o cu, mas devo dizer que o meu sogro tinha uma máxima a respeito de bacalhau que talvez não seja de deitar fora. O meu sogro, que faria 93 anos na passada sexta-feira se não me tivesse morrido nos braços num fim de tarde do fim de Novembro de 2015, declarava, na sua infinita simplicidade: - Se me derem bacalhau todos os dias, para mim está muito bem e até agradeço.
E o meu sogro só sabia de meia dúzia das mil e uma maneiras de cozinhar bacalhau. Mas não era esquisito, estava servido. E ontem fez-nos falta à mesa.
Já a minha sogra, que vai a caminho dos 92 e continua sem razões de queixa do apetite, tem um visão mais ampla do universo, outra sabedoria. E defende que a vida é composta por três qualidades. Costuma filosofar, aliás, a esse propósito: - Nem sempre carne e nem sempre peixe. De vez em quando também é preciso comer um bocadinho de bacalhau.
Exactamente. Carne, peixe e bacalhau, as três espécies sobreviventes após a liquidação dos dinossauros. A minha sogra, que nunca na vida deixou o meu sogro ter razão, é que está certa. Este mundo não é só bacalhau. Ainda por cima ao preço a que ele está.
Seja como for, já disse, sobre bacalhau, hoje, da minha boca, nada!
sexta-feira, 28 de abril de 2023
A minha sogra, eu, o canídeo e a porca
Todos os santos dias, não sei se por promessa, há um canídeo que, com vossa licença, caga ao portão da minha sogra. Todos os santos dias. Fica ali aquele montinho de merda, com vossa licença, às vezes dois ou três montinhos de merda, com vossa licença, ou quatro ou cinco, passeio adiante e organizados em filinha pirilau, porque o referido canídeo deve ser animal para comer à tripa-forra e evacua, com vossa licença, como verdadeiro cagante andante.
A minha sogra, que me dirige uma certa osga, pensava que era eu, para lhe fazer desfeita não sei de quê. E não foi fácil convencê-la de que, com vossa licença, aqueles saralhotos eram evidentemente, com vossa licença, saralhotos de canídeo. E eu sou balança.
Uma vez quase apanhei o infractor com as calças na mão: a merda, com vossa licença, ainda a fumegar, mas o canídeo já a descer o fim da rua com a dona pela trela, e dissesse eu o que dissesse estaria a falar para a central. Calei-me, portanto.
Portanto, calei-me, mas pus-me à tabela, agarrei-me ao Excel, recolhi e cruzei informações, fiz um horário e aqui atrasado apanhei-os em flagrante. À horinha, nem mais cedo nem mais tarde, abri de rompante o portão e lá estava a acontecer à minha frente: merda ao vivo, como eu previa e com vossa licença.
Fiz a cara de nojo que trazia ensaiada há mais de um ano, e disse:
- Então és tu, minha porca?!...
- Não é uma cadela, é um cão... - empertigou-se-me a dona, histericamente professoral.
- Mas eu não estava a falar para o canídeo, minha senhora...
A minha sogra, que me dirige uma certa osga, pensava que era eu, para lhe fazer desfeita não sei de quê. E não foi fácil convencê-la de que, com vossa licença, aqueles saralhotos eram evidentemente, com vossa licença, saralhotos de canídeo. E eu sou balança.
Uma vez quase apanhei o infractor com as calças na mão: a merda, com vossa licença, ainda a fumegar, mas o canídeo já a descer o fim da rua com a dona pela trela, e dissesse eu o que dissesse estaria a falar para a central. Calei-me, portanto.
Portanto, calei-me, mas pus-me à tabela, agarrei-me ao Excel, recolhi e cruzei informações, fiz um horário e aqui atrasado apanhei-os em flagrante. À horinha, nem mais cedo nem mais tarde, abri de rompante o portão e lá estava a acontecer à minha frente: merda ao vivo, como eu previa e com vossa licença.
Fiz a cara de nojo que trazia ensaiada há mais de um ano, e disse:
- Então és tu, minha porca?!...
- Não é uma cadela, é um cão... - empertigou-se-me a dona, histericamente professoral.
- Mas eu não estava a falar para o canídeo, minha senhora...
P.S. - Hoje é Dia da Sogra. No Brasil.
quinta-feira, 26 de janeiro de 2023
Ambos os dois
A minha sogra fez ontem 91 anos e padece de um apetite voraz. Prato, sopa e sobremesa em quantidades que eu aqui não digo para evitar a abertura de um conflito diplomático com a Somália. Digamos apenas que a minha sogra é uma multidão a comer. Aqui atrasado perguntei-lhe, após o presigo:
- E agora, quer fruta ou bolo?
- Pode ser - respondeu-me a minha sogra.
- Pode ser o quê? - insisti, até porque a minha sogra é um bocadinho surda quando quer.
- Fruta e bolo - esclareceu a minha sogra, sem sequer olhar para mim. - E café...
- E agora, quer fruta ou bolo?
- Pode ser - respondeu-me a minha sogra.
- Pode ser o quê? - insisti, até porque a minha sogra é um bocadinho surda quando quer.
- Fruta e bolo - esclareceu a minha sogra, sem sequer olhar para mim. - E café...
sábado, 21 de janeiro de 2023
A sagrada comunhão
Era uma vez. A minha sogra estava a ver na televisão a missa do 13 de Outubro no Santuário de Fátima. A santinha, isto é, a minha sogra, que graças a Deus não padece de fastio, antes pelo contrário, costuma almoçar cerca das 11h30, nunca mais tarde, mas a missinha tomara realmente conta dela, ensimesmada numa tremenda devoção, sem sequer deitar os olhos ao aparelho. Resolvi ainda assim espreitar à porta da sala e perguntar-lhe a medo, num sussurro, se quereria comer à horinha ou se esperávamos pelo fim das cerimónias. - No fim da santa missa!, respondeu-me com rispidez, como sempre e como se por um segundo eu lhe tivesse interrompido o Céu. Pronto: a mesa podia esperar.
Os ponteiros do relógio andaram um quarto de hora, mas a televisão não: a missa continuava no mesmo sítio. Era a comunhão e a fila de comungantes não havia maneira de chegar ao fim. A minha sogra agitava-se, os impasses incomodam-na sobremaneira, especialmente se lhe atrasarem o tacho. Levantou-se então do trono, com aqueles ruídos que fazem parte, e ordenou a todos os seus súbditos, que sou apenas eu, miseravelmente eu: - Vamos mas é comer, que isto é povo sem jeito para a sagrada comunhão!...
Os ponteiros do relógio andaram um quarto de hora, mas a televisão não: a missa continuava no mesmo sítio. Era a comunhão e a fila de comungantes não havia maneira de chegar ao fim. A minha sogra agitava-se, os impasses incomodam-na sobremaneira, especialmente se lhe atrasarem o tacho. Levantou-se então do trono, com aqueles ruídos que fazem parte, e ordenou a todos os seus súbditos, que sou apenas eu, miseravelmente eu: - Vamos mas é comer, que isto é povo sem jeito para a sagrada comunhão!...
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