terça-feira, 27 de janeiro de 2026

E se fossem lamber sabão?

Foto Hernâni Von Doellinger
 
Ora bolhas
Mandaram-no lamber sabão e ele foi. Divertiu-se imenso a fazer bolhinhas.

A rede de carros eléctricos da STCP resume-se a duas linhas e chama-se, hoje em dia, Porto Tram City Tour, está-se logo a ver porquê: é produto para camones. A STCP é a Sociedade de Transportes Colectivos do Porto, E.I.M., S.A. Isso. A STCP informa que o PTCT "é um ex-líbris incontornável da cidade do Porto". Do Porto - como o célebre vinho. E decerto por isso é que o eléctrico da Linha 18, ou Linha da Restauração, exibe garbosamente as cores e os dizeres do irlandíssimo uísque Jameson.
Que fique registado - eu não tenho nada contra o uísque Jameson, antes pelo contrário. Aliás, se o uísque em geral não soubesse a sabão e se eu gostasse de uísque, era Jameson que beberia. E bebi durante algum tempo, por armanço puro e sem gelo.
Aqui há coisa de trinta anos estive lá, na Old Jameson Distillery, em Dublin, ou na The Jameson Experience Midleton, em Cork - isso é que já não sei precisar, porque os ares da Irlanda, pelo que percebi daquela vez, para além de fazerem muito mal ao fígado, também não são grande coisa para a memória. Mas quase que posso jurar que estive lá, e fiquei convencido. O Jameson foi o único uísque que alguma vez pedi pelo nome, mais que não fosse para ex-pli-car ao resto do balcão que eu... estive lá. Depois cheguei à idade de ganhar juízo, e ganhei. Aprendi o vinho, que já trazia apalavrado de Fafe.

Mas por falar em sabão. Havia o sabão azul, o sabão rosa e o sabão amarelo. O sabão azul era o sabão macaco, para lavar roupa de barba rija, o sabão rosa já naquele tempo era para peças mais delicadas e o sabão amarelo era para lavar as escadas e os soalhos, que, em muitas casas, depois eram encerados. O sabão amarelo era fundamental na preparação da Páscoa em Fafe. E havia também o sabão para lamber, que eu nunca soube de que cor era nem que sabor tinha, mas era o que a minha mãe me mandava fazer, - Vai lamber sabão! -, quando eu andava à roda dela a arengar conversa sem assunto.

Posto isto, permito-me continuar inclinado a afirmar, aguardando entretanto comprovação laboratorial, que é com sabão de lamber que se faz uísque. Anda portanto meio mundo a lamber sabão, e era também ao que deveriam dedicar-se as cabeças da STCP que têm a distinta lata de deixar colar publicidade a uísque num "ex-líbris incontornável da cidade do Porto". Do Porto - como o célebre vinho. Nem que fosse o Três Velhotes, que o meu avô da Bomba guardava ou escondia na mala de enxoval, no quarto, mesmo em frente à cama, aferrolhada a sete chaves e ali debaixo de olho, somando todos os anos mais duas ou três, dadas ou abafadas, nunca percebi a razão daquele desenfreado açambarque. E nunca molhei o bico.
Devia ser só o prazer de não dar. E deviam ser milhões de garrafas na mala quando o meu avô morreu. E o meu avô da Bomba deve ter morrido bastante satisfeito.

Eu sei. O vinhinho em questão, modesto mas honrado, chama-se apenas Velhotes, mas o povo, que percebe muito bem os desenhos, chama-lhe desde sempre Três Velhotes. Nunca percebi por que razão produtores e distribuidores não lhe mudam o nome, aproveitando a abébia da publicidade popular. Quanto a isso, porém, Cálem-te boca...

P.S. - Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Internacional do Vinho do Porto.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

O retrato de Salazar

De cavalo para burro
Passou de cavalo para burro e gostou. Porque a verdade é só uma: com os pés rentinhos ao chão, sentia-se muito mais confortável e seguro...

Tive o privilégio de conhecer a Senhora Dona Laura Summavielle mãe (1879-1971), uma mulher extraordinária que viveu uma vida muito à frente do seu tempo. Tal como eu a via do alto dos meus oito, nove anos, a matriarca da ínclita geração dos Summavielles era então uma velhinha toda guicha, franzina e pândega. No tempo da ditadura fascista, que a houve, a notável senhora tinha uma curiosa brincadeira que apelava à interacção de Fafe inteiro que lhe passasse por baixo da comprida sacada da casa da família, na Rua Monsenhor Vieira de Castro, mesmo em frente ao Cinema. Fosse quem fosse. Eu também não escapei à partida, mais do que uma vez, e com muito gosto. É uma das minhas melhores memórias da infância e de Fafe.
Comigo, era assim: mal me via aproximar, a marota da Senhora Dona Laura, de lá de cima, desafiante, dizia num falsete altivo porém educado:
- Ó menino, apanhe-me aí, por favor, esse retrato do Dr. António de Oliveira Salazar, que me caiu sem querer...
Havia realmente algo no chão. E eu lá apanhava. E era o quê? A fotografia mesmo do ditador? Não. Era uma carta de jogar, saída de uns baralhos que existiam naquela altura e que não sei se ainda sobrevivem, para além daquele que eu guardo com mil cuidados cá em casa. Exactamente: afinal, o retrato de Salazar era uma carta. Mas não cuideis que era uma carta qualquer, um duque, uma sena ou, mesmo, um valete, porque dama, naquele tempo, estaria, desde logo, fora de questão. Nem era o rei. Nem o ás. O retrato de Salazar era... o burro.


(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial da Liberdade.)

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Uma excelente pessoa

Foto Facebook António José Seguro

Afinal confirma-se: António José Seguro, que parece uma excelente pessoa, é mesmo uma excelente pessoa. A prova dos noves foi-nos dada pelos cidadãos que o conhecem melhor, no dia-a-dia, fora da política, sem truques nem propaganda, os seus conterrâneos e vizinhos. Nas eleições de domingo, Seguro ganhou com quase 45 por cento nas Caldas da Rainha, onde vive, e venceu com mais de 70 por cento em Penamacor, concelho onde nasceu. Estão tiradas as dúvidas. António José Seguro é realmente uma excelente pessoa. Agora: eu tenho dois ou três amigos que também são excelentes pessoas, mas, sinceramente, não consigo vê-los como presidentes da República. Eu próprio sou uma excelente pessoa às vezes, não é para me gabar, e evidentemente não me sinto capaz de, só por isso, concorrer a Belém. Portanto, a questão que se coloca é esta: dignidade, decência, sensatez, serenidade, moderação, ponderação, tolerância, honestidade, honradez, carácter, humanismo, elevação, verdade, educação, gentileza, isto é, ser-se uma excelente pessoa, como António José Seguro comprovadamente é, será argumento suficiente para alguém ser escolhido para Presidente da República, o mais alto cargo da Nação? É. É. É. Já era há uma semana e é agora ainda mais. É suficiente, necessário e essencial, sobretudo quando a alternativa dá pelo nome de André Ventura.

(Do meu blogue Tarrenego!)

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Deus nos livre dos afrontamentos

Em sede de
Morreu o último ponto de ordem à mesa. De fome - é o que consta.

Um dominguinho como de costume e Deus manda. Missinha das onze, homiliazinha com palavrinhas a abater e um que outro puxãozinho de orelhas para temperar, uns acenozinhos ao rebanho, umas lambidelas recebidas na mão santa, a do cachucho, e depois... o almocinho. O almocinho de dominguinho: três pratos, tal qual a Santíssima Trindade e o outro assunto que não vem ao caso. Duas horas à mesa e sempre a dar-lhe, como se fosse castigo, penitência. "Ui! Comi que nem um abade" - desabafou, num arroto final. "Nada de modéstias, Vossa Excelência Reverendíssima Senhor Dom, afinal de contas sois Bispo, sois Bispo" - acudiu o solícito secretário, jovem presbítero, com as maiúsculas bajuladoras numa mão e o bicarbonato de sódio na outra.

Ou por outra. Aprendi aqui atrasado que o carbonato celebra os 44 anos de um casamento. Bodas de carbonato. Posso portanto admitir que o bicarbonato, que é carbonato duas vezes, assinala os 88 anos de um casamento. Bodas de bicarbonato. E em Fafe usava-se muito. O bicarbonato, quero dizer...

P.S. - Versão revista e aumentada, publicada no meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Internacional da Comida Picante.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Teatro-Cinema de Fafe, temporada 2026

A temporada de 2026 do Teatro-Cinema de Fafe foi apresentada este fim-de-semana, "com uma programação diversificada para todas as idades, ao longo do ano", refere o Município. A bilheteira será disponibilizada por trimestres, sendo a abertura de cada trimestre comunicada pelos canais oficiais. O programa completo e toda a informação estão disponíveis aqui.

domingo, 11 de janeiro de 2026

Muitíssimo obrigadíssimo

Hoje, 11 de Janeiro, queira-se ou não, é Dia Internacional do Obrigado. O Dia Internacional do Obrigado nasceu obviamente nas chamadas redes sociais. Amanhã, decreto eu, será Dia Internacional do Faz Favor de Desculpar.

P.S. - Hoje é Dia Internacional do Obrigado.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Teatro-Cinema de Fafe, 100 anos em livro


"Teatro Cinema de Fafe - 100 anos de Memórias, 100 anos de História", livro de Artur Ferreira Coimbra, é apresentado amanhã, sábado, dia 10 de Janeiro, pelas 16h30, no Salão Nobre do Teatro-Cinema de Fafe. Segue-se a apresentação da temporada 2026. Mais informação, aqui.

Teatro em família no Teatro-Cinema

O espectáculo "Pelo prazer de não estarmos sós" sobe ao palco do Teatro-Cinema de Fafe, no próximo dia 20 de Setembro, domingo, às...