P.S. - Hoje é Dia Mundial do Casamento.
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domingo, 8 de fevereiro de 2026
Foi comprar cigarros e não voltou
Era uma esposa exemplar, uma esposa à moda antiga. Em apenas duas palavras imediatamente seguidas de ponto de admiração: uma esposa! Ou em cinco palavras imediatamente seguidas de três pontos de admiração: uma mulher como deve ser!!! Todos os dias de manhã ela ia comprar tabaco para o marido. Um dia ela foi e não voltou.
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Nunca por amor
Já ia no oitavo matrimónio e garantia que nunca casara por amor. Por dinheiro então?, perguntavam-lhe. Que não. Por conveniência ou solidão? Também não. Explicava que casou sempre por... acaso.
P.S. - Hoje é Dia Mundial do Casamento.
Engana-me que eu (também) gosto
Ele dizia que ia ao café, mas a mulher sabia que era mentira. Há muito que o marido a enganava, e ela sabia. O café era apenas uma desculpa, um pretexto. Para o bagaço.
P.S. - Hoje é Dia Mundial do Casamento.
domingo, 28 de dezembro de 2025
Olha a triste viuvinha
Sem desculpa
Errar é próprio do homem. A mulher não tem desculpa!
O homem da casa falecia, por esta ou por aquela razão, às vezes inadvertidamente mas geralmente por razão de força maior, e a família tinha logo uma carga de trabalhos, um rol de importantes e inadiáveis decisões a tomar, a primeira das quais era pegar na roupa toda da recém-viúva e mandá-la para a tinturaria, que, se não me engano, ficava ali ao lado do Foto Victor e da entrada para o Senhor Fernando Enfermeiro, junto aos Correios, na hoje muito justamente chamada Rua Dr. António Marques Mendes. A roupa ia para tingir de preto, a roupa e a vida da jovem viúva dali para a frente. Viúva em flagrante delito. Fafe tomava conhecimento e não perdoava. Também sabia ser cruel. Ser-se viúva era uma sentença automaticamente transitada em julgado, um castigo, provavelmente divino, para todos os efeitos. Viúva sem apelo nem agravo. Com penitência mas sem perdão. Doravante, proibida a cor, proibida a alegria, proibido o riso, proibido o sorriso. Sair de casa, apenas para a missa, ida pela volta, nem mais um minuto, encostada às paredes e de olhos no chão e bico calado. Atenção ao comprimento da saia, ao cabelo! Xaile, era preciso muito xaile. E lenço preto escondendo a cabeça, a cara. Os holofotes apontavam para a porta, tomando conta de entradas e saídas, a horas ou fora delas, que nem as havia. A mulher ficava marcada, vigiada, não lhe viesse de repente a tentação, o desejo. Quer-se dizer, era viúva e já não mulher. E começava por ficar pelo menos quinze dias metida na cama, tapada até ao nariz, sem rádio, sem televisão que não tinha e com as luzes sempre apagadas, sozinha, sozinha, sozinha, compulsivamente afastada dos próprios filhos, crianças, alimentada a canjas e venenosas recomendações das putas das vizinhas, onzeneiras, agoirentas e mal-fodidas, para se ir habituando ao resto da vida, como se tivesse acabado de parir o próprio destino. E esta merda toda, ainda por cima, porque o marido lhe morreu.
P.S. - Versão revista e aumentada, publicada no meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia da Sagrada Família.
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segunda-feira, 23 de junho de 2025
Olha a triste viuvinha
O homem da casa falecia, por esta ou por aquela razão, às vezes inadvertidamente mas geralmente por razão de força maior, e a família tinha logo uma carga de trabalhos, um rol de importantes e inadiáveis decisões a tomar, a primeira das quais era pegar na roupa toda da recém-viúva e mandá-la para a tinturaria, que, se não me engano, ficava ali ao lado do Foto Victor e da entrada para o Senhor Fernando Enfermeiro, junto aos Correios, na hoje muito justamente chamada Rua Dr. António Marques Mendes. A roupa ia para tingir de preto, a roupa e a vida da jovem viúva dali para a frente. Viúva em flagrante delito. Fafe tomava conhecimento e não perdoava. Também sabia ser cruel. Ser-se viúva era uma sentença automaticamente transitada em julgado, um castigo, provavelmente divino, para todos os efeitos. Viúva sem apelo nem agravo. Com penitência mas sem perdão. Doravante, proibida a cor, proibida a alegria, proibido o riso, proibido o sorriso. Sair de casa, apenas para a missa, ida pela volta, nem mais um minuto, encostada às paredes e de olhos no chão e bico calado. Atenção ao comprimento da saia, ao cabelo! Xaile, era preciso muito xaile. E lenço preto escondendo a cabeça, a cara. Os holofotes apontavam para a porta, tomando conta de entradas e saídas, a horas ou fora delas, que nem as havia. A mulher ficava marcada, vigiada, não lhe viesse de repente a tentação, o desejo. Quer-se dizer, era viúva e já não mulher. E começava por ficar pelo menos quinze dias metida na cama, tapada até ao nariz, sem rádio, sem televisão que não tinha e com as luzes sempre apagadas, sozinha, sozinha, sozinha, compulsivamente afastada dos próprios filhos, crianças, alimentada a canjas e venenosas recomendações das putas das vizinhas, onzeneiras, agoirentas e mal-fodidas, para se ir habituando ao resto da vida, como se tivesse acabado de parir o próprio destino. E esta merda toda, ainda por cima, porque o marido lhe morreu.
P.S. - Publicado no meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Internacional das Viúvas. Lamento informar.
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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025
Amor sem dia marcado
Casámo-nos no Dia dos Namorados. Faz hoje exactamente um número respeitável de anos. E é como de fosse ontem. Como se fosse amanhã. Naquele tempo nem se sabia que havia Dia dos Namorados e não fazia falta nenhuma: ainda não tinham sido inventadas as lojas de inutilidades nem as ementas de namorados em restaurantes fatelas e oportunistas. Havia o amor. E o amor não precisava de dias marcados no calendário. Namorava-se a cotio e pronto, e namorar era bom. Namorar é bom!
Mas o que eu quero dizer: o Dia dos Namorados é uma treta; o aniversário do nosso casamento, não.
P.S. - Hoje é Dia dos Namorados ou Dia de São Valentim. E Dia do Amor. E Dia Nacional do Doente Coronário.
Mas o que eu quero dizer: o Dia dos Namorados é uma treta; o aniversário do nosso casamento, não.
P.S. - Hoje é Dia dos Namorados ou Dia de São Valentim. E Dia do Amor. E Dia Nacional do Doente Coronário.
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domingo, 9 de fevereiro de 2025
Bodas de bicarbonato
Aprendi aqui atrasado, sem querer, que o carbonato celebra os 44 anos de um casamento. Bodas de carbonato. Posso portanto admitir que o bicarbonato, que é carbonato duas vezes, assinala os 88 anos de um casamento. Bodas de bicarbonato. E em Fafe usava-se muito...
Aquilo ali era a sério e já tem barbas. Agora, o que tem piada é que, não é para me gabar, conheço um casal que, nem de propósito, apresta-se a festejar as tais bodas de carbonato. E no Dia dos Namorados, ainda por cima.
P.S. - Hoje é Dia Mundial do Casamento.
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quinta-feira, 21 de novembro de 2024
O despertar do filósofo
- A vida é uma imensa linha recta cheia de curvas, e cada subida concomita-se numa irrefutável descida, vice-versando - disse o filósofo, ao pequeno-almoço.
- Chega-me o açúcar - disse a mulher do filósofo.
- Chega-me o açúcar - disse a mulher do filósofo.
P.S. - Hoje é Dia Mundial da Filosofia.
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sexta-feira, 20 de setembro de 2024
O lugar da mulher
Lá vão ligeiros, marido e mulher conversando pela rua, ele à frente e ela um passo atrás, coisa de antigos. Têm uma filha. Casou. Lá vai ela jovem e ligeira conversando pela rua com o marido a estrear, ela atrás, o homem um passo adiante, porque o respeito é muito bonito. Na minha rua, meus vizinhos, palavra de honra, em pleno século XXI.
quinta-feira, 25 de julho de 2024
O nosso homem no terreno
Quando ela falava do seu homem no terreno, havia logo quem imaginasse histórias de espiões, acção, aventura e romance. Mas não. Ela falava do marido e da hortazita que o desgraçado fabricava nas traseiras da casa em horário pós-laboral.
P.S. - Hoje é Dia Internacional da Agricultura Familiar.
sexta-feira, 8 de março de 2024
A mulher, o bronco e as piriscas
| Foto Hernâni Von Doellinger |
Era assim. Mas há uns meses que o vejo solitário pelas esquinas, desamparado, perdido, praguejante. A franzina senhora desapareceu de cena. De tão sumária e submissa que me parecia, temo, sinceramente temo, que lhe tenha acontecido o pior: que tenha resolvido morrer devagarinho, sozinha e longe, só para não incomodar. O bronco continua por aí, agora desaparelhado e sempre bandalho, sem escrava nem saco de pancada pelo braço, enfim obrigado a vergar a mola se quer matar o vício. O Governo criminalizou as piriscas, a ciência inventou os cigarros electrónicos e a pandemia desbastou cafés, tascos e restaurantes, no chão da porta dos quais ele costumava abastecer-se e rir-se das imbecilidades do Governo e da ciência. Risinhos à parte, que o gajo é tolo, a vida corre-lhe de mal a pior. E é o que eu lhe estimo.
O filhodaputa continua, portanto, às piriscas, no outro dia sem mais nem menos malcriou com a minha mulher, que não lhe liga mas tem medo dele, mais cedo ou mais tarde vou ter de lhe foder o focinho, ao porco, quero dizer, e já não tenho idade para isso. O indivíduo continua às piriscas, que fuma acto contínuo, mas, actualizado com os tempos do apocalipse, às vezes anda de máscara. A máscara padece de evidentes sinais de que foi sacada ao lixo. Mas de máscara, o burgesso. É outra limpeza, outra segurança. E podia ser em Fafe.
quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024
Contra fatos
Eu tenho um fato. Um. Comprei-o pronto a vestir em 1987, se não me engano, para um casamento, isso é certo. O casamento para o qual eu comprei o meu fato já teve pelo menos dois divórcios, só do lado do noivo. O meu fato, não. Mantém-se fiel. Eu tenho um fato que é um facto à moda antiga. E nem sei se ainda me serve, sequer se estará em condições de ser vestido. Mas é o meu fato. E contra fatos...
Sou esbraguilhado por opção. Ao longo de quase quarenta anos, usei o meu fato mais quatro ou cinco vezes nos casamentos de mais quatro ou cinco amigos, sobrinhos e primos, num par de ocasiões solenes em Fafe, para agradar à minha mãe, numa excursão copofónica a Lisboa para acompanhar a entrega do Prémio Gazeta ao nosso Agostinho Santos e numa ida à televisão por dever de ofício. É, portanto, um fato praticamente novo, mas ando preocupado: quando eu morrer, o casaco de trespasse estará outra vez na moda?...
P.S. - Para quem se interesse por estatísticas: também tenho um par de sapatos. Um. E quatro bonés.
P.S. - Para quem se interesse por estatísticas: também tenho um par de sapatos. Um. E quatro bonés.
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quarta-feira, 27 de dezembro de 2023
Catolicamente casados
Vai haver amanhã uma festa muito bonita no Cinema. O "Natal em Família", promovido pelo Arciprestado de Fafe com a colaboração do Município de Fafe, chamemos-lhe um evento lúdico-religioso que "que este ano conta com a participação de 36 casais" e, "pela primeira vez", com a presença de D. José Cordeiro, arcebispo de Braga.
Leio no Expresso de Fafe que "o momento é de homenagem aos casais que celebraram ao longo de 2023 especiais bodas matrimoniais (25, 50, 60 ou mais anos) e também àqueles que casaram catolicamente ao longo deste ano."
Faz-me espécie, isso de o sucesso do casamento ser medido em quantidade e não em qualidade, em felicidade. Isso de o casamento só contar da porta para fora, isso de o casamento ser bom desde que dure muitos anos - ainda que seja uma merda, violento, encornado, infeliz, um inferno, como se Deus nos quisesse assim desgraçados, e não quer. Isso do incenso pacóvio aos que "casaram catolicamente", mas que raio de expressão, e parece que são melhores do que os outros casais, e não são.
E sobretudo faz-me espécie isso de o convidado especial da quermesse ser o Sr. José Cordeiro, que tem 56 anos e é solteiro. Em princípio. Catolicamente solteiro. O que sabe ele de casamento?
Já que a mim, em Fafe, ninguém me chama, eu que conto com uma experiência de mais de quarenta anos ao serviço do casamento, isto é, a casar desde 1981, e sempre com a mesma mulher, realmente uma extravagância na minha profissão, já que o Arciprestado e respectivo Município desconsideram o saber feito deste humilde fafense amiúde católico e quiçá esdrúxulo mas ainda assim tão à mão e em conta - bastava mandarem-me o dinheiro para o bilhete da camioneta, ida e volta -, ao menos então, se o assunto é matrimónio, que convidassem o Sr. Pinto da Costa ou alguém de traquejo e gabarito similares, como, por exemplo, o Sr. José Cid ou o Sr. Pedro Santana Lopes, ou, isso meu Deus é que seria de arromba, a Sra. D. Luciana Abreu.
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quinta-feira, 30 de novembro de 2023
Papando uns e outros
Chegava a época de Natal, por exemplo assim como agora, e ele, entre bombons e bumbuns, levava tudo a eito e sem destrinça. Padecia de uma espécie muito avançada de paronímia, segundo atestado médico, e a mulher desculpava-o, que remédio...
domingo, 1 de outubro de 2023
segunda-feira, 4 de setembro de 2023
É só saúde!
"Sexualmente falando, és imprestável", disse ela. "Tá bem", disse ele, e foi organizar-se com a vizinha. Ele percebera "emprestável". São coisas que acontecem...
P.S. - Hoje é Dia Mundial da Saúde Sexual.
terça-feira, 15 de agosto de 2023
Cavalheiro de posição
- É muito complicado para uma pessoa da minha posição...
- E qual é exactamente a posição de vosselência?...
- Defesa central. Mas também faço o lado direito...
Contextualizemos. Hoje é Dia dos Solteiros. No Brasil. E Dia do Fotógrafo. E da Informática. E da Gestante. E de Nossa Senhora Achiropita, da Abadia, da Ajuda, da Assunção, da Boa Morte, da Boa Viagem, da Candelária, da Ponte, da Saúde, da Vitória, de Begoña e Desatadora dos Nós. Sobretudo de Nossa Senhora Desatadora de Nós, amém!
- E qual é exactamente a posição de vosselência?...
- Defesa central. Mas também faço o lado direito...
Contextualizemos. Hoje é Dia dos Solteiros. No Brasil. E Dia do Fotógrafo. E da Informática. E da Gestante. E de Nossa Senhora Achiropita, da Abadia, da Ajuda, da Assunção, da Boa Morte, da Boa Viagem, da Candelária, da Ponte, da Saúde, da Vitória, de Begoña e Desatadora dos Nós. Sobretudo de Nossa Senhora Desatadora de Nós, amém!
quinta-feira, 20 de julho de 2023
O melhor amigo
Os Sousas do sexto-direito têm um cão. O cão é o melhor amigo do homem, quero dizer, do Sousa. O melhor amigo da mulher, quero dizer, da mulher do Sousa, é o Gustavo da Tabacaria.
segunda-feira, 12 de junho de 2023
O segredo dos casamentos de Santo António
Estou à vontade para falar sobre este delicado assunto, porque andei anos a fazer-lhe cascata sem saber que ele era casado. E um santinho de braço dado com a noiva, lá em cima do trono como nos bolos de casamento, por debaixo do arco armado com pernadas de carvalho escorchadas de fugida no monte de São Jorge ou nas bouças da Pegadinha, e com altifalantes e tudo, teria sempre outro sainete, e portanto sinto-me deveras enganado. Sim, os casamentos de Santo António, esse ancestral, nunca desmentido e bem aferrolhado segredo das catacumbas vaticanas. Quantos foram afinal? Quão popular afinal ele era? Quantas vezes se casou o raio do santo? Duas, como a Luciana Abreu? Três, como o Pedro Santana Lopes? Quatro, como o José Cid e o Nicolas Cage? Não se sabe quantas, como o Pinto da Costa? Oito, como a Elizabeth Taylor? Vinte e três, como Linda Wolfe? Vinte e oito, como Glynn Wolfe? E os divórcios do fradinho - amigáveis ou litigiosos? Poligamia eventualmente? E filhos, houve-os? E os noivos de Santo António, serão apenas um boato? Má-língua? Descarada homofobia? O silêncio da Igreja Católica sobre este escândalo é ensurdecedor. A ignorância da revista Lux sobre este ensurdecedor é um escândalo.
quarta-feira, 29 de março de 2023
Ora meta-me o cu pelo nariz acima!
A Bó de Basto contava. Já não lembro se era história verdadeira derivada a alguém da família antiga ou apenas diz-que-diz-que a respeito de vizinhos lá da aldeia, liornas às tantas. Sei é que era um casal e que o casal se tratava por você - forma de tratamento muito mais rústica e ancestral do que cuidam as tias e os tios do então-vá e as sobrinhas do então-venha.
Como já aqui expliquei, naquele tempo e pelas nossas bandas, beber vinho era, à falta de outros horizontes, um honrado modo de vida. E, quanto ao casal da nossa história, marido e mulher também bebiam a sua pinguinha, que era uma forma modesta de dizer que passavam todo o santo dia com a malga de americano caseiro enfiada nos queixos. Que se segue: de vez em quando, à noite, o caldo entornava-se. Fosse pelo vinho, fosse pela falta de petróleo na candeia, que se chamava "luz", fosse pelo empurrão traiçoeiro do lume da lareira, o casal desavinha-se. Nada de grave ou físico, apenas desconversa. Ralhava um, ralhava o outro, cada qual ameaçava que: "Caralho que!...", mas nada. Até que uma maré, ele - só podia ter sido ele -, sacramentalmente dono da última palavra e mortinho por ir para a cama, arrumou a questã da melhor maneira que soube e pôde, que foi, virando-se para ela: "Ora meta-me o cu pelo nariz acima". Para logo remendar, coçando as partes com um entusiasmo que só visto: "Ora vá bardamerda, que até me enganei". E depois foram fazer meninos um com o outro, que naquela terra era assim e muito.
Em Basto, no Inverno, no tempo em que havia estações do ano, era noite logo às cinco da tarde ou antes, mas ninguém se queixava e nasciam muitas crianças. Em Portugal era noite há mais de quarenta anos, e outros portugueses noutros sítios estariam ainda em pior situação, suspeitava-se de bico calado lá naquele fim do mundo alumiado a "pitroil", e nunca percebi como é que aquele povo todo não morreu vítima de uma epidemia de incêndios vínicos e domésticos. Já agora: se a "luz" fosse a pilhas, uma novidade que chegou a Passos com o atraso considerado pelas autoridades como o mais conveniente, então chamava-se "foxe", devendo dizer-se "focse". E, sim, escrevi mesmo questã, não lhe falta o ó final...
Como já aqui expliquei, naquele tempo e pelas nossas bandas, beber vinho era, à falta de outros horizontes, um honrado modo de vida. E, quanto ao casal da nossa história, marido e mulher também bebiam a sua pinguinha, que era uma forma modesta de dizer que passavam todo o santo dia com a malga de americano caseiro enfiada nos queixos. Que se segue: de vez em quando, à noite, o caldo entornava-se. Fosse pelo vinho, fosse pela falta de petróleo na candeia, que se chamava "luz", fosse pelo empurrão traiçoeiro do lume da lareira, o casal desavinha-se. Nada de grave ou físico, apenas desconversa. Ralhava um, ralhava o outro, cada qual ameaçava que: "Caralho que!...", mas nada. Até que uma maré, ele - só podia ter sido ele -, sacramentalmente dono da última palavra e mortinho por ir para a cama, arrumou a questã da melhor maneira que soube e pôde, que foi, virando-se para ela: "Ora meta-me o cu pelo nariz acima". Para logo remendar, coçando as partes com um entusiasmo que só visto: "Ora vá bardamerda, que até me enganei". E depois foram fazer meninos um com o outro, que naquela terra era assim e muito.
Em Basto, no Inverno, no tempo em que havia estações do ano, era noite logo às cinco da tarde ou antes, mas ninguém se queixava e nasciam muitas crianças. Em Portugal era noite há mais de quarenta anos, e outros portugueses noutros sítios estariam ainda em pior situação, suspeitava-se de bico calado lá naquele fim do mundo alumiado a "pitroil", e nunca percebi como é que aquele povo todo não morreu vítima de uma epidemia de incêndios vínicos e domésticos. Já agora: se a "luz" fosse a pilhas, uma novidade que chegou a Passos com o atraso considerado pelas autoridades como o mais conveniente, então chamava-se "foxe", devendo dizer-se "focse". E, sim, escrevi mesmo questã, não lhe falta o ó final...
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