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terça-feira, 3 de junho de 2025

A bisculeta, pelo menos em Fafe

A bisculeta é um utensílio doméstico com quatro rodas, no mínimo: a roda da frente, a roda de trás, a roda pedaleira e o pinhão. O Chico Americano, por exemplo, tinha uma bisculeta que estacionava à porta do Nacor às vezes em contramão mas sempre de vidros fechados por causa da chuva que também podia aparecer sobretudo no tempo dela. O tempo da chuva antigamente chamava-se Inverno, pelo menos em Fafe. A bisculeta do Chico era um aparelho de categoria, parece-me que até tinha mudanças e talvez farol. À bisculeta, vulgarmente conhecida como velocípede sem motor ou bicicleta, há também quem lhe chame automóvel derivado exactamente àquilo das quatro rodas. E é o que se me oferece dizer a este respeito.

P.S. - Publicado no meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial da Bicicleta, isto é, da Bisculeta.

segunda-feira, 21 de outubro de 2024

O Padre Clementino

O Padre Clementino morava no seminário. Não porque fosse prefeito ou professor ou tivesse outras responsabilidades administrativas ou religiosas, mas apenas porque naquele tempo ainda não havia lares para padres velhinhos e desconsertados. O Padre Clementino não era velhinho - avariara, ninguém o reclamou e ficou por ali. Mas era uma figuraça, património diocesano, um mito vivo. Baixote, redondo, anafado, bonacheirão, vermelhusco de cara e sorriso gaiato, batina coçada, sebenta, amiúde carregada de nódoas, isto é, o Padre Clementino tinha tudo para ser cónego, mas, que eu saiba, felizmente nunca lhe fizeram essa desfeita.
O Padre Clementino era muito cuidadoso com a fruta, sobretudo com as maçãs. Punha-as a madurar na beira da janela do quarto minúsculo que lhe fora distribuído e só as comia quando elas estivessem satisfatoriamente podres, cheias de bolor, para aproveitar a penicilina. Por estas e por outras, o Padre Clementino tinha uma saúde que até metia impressão.
Contava-se. Pela calada da noite ou durante o horário lectivo, o Padre Clementino andava de bicicleta pelas compridos e desérticos corredores do seminário. Apesar da ausência de tráfego, da via desafogada, apesar de ter os corredores só para ele, corredores largos, longas rectas sem sequer chicanas, a verdade é que às vezes o homem caía, sei lá se por falta de jeito ou apenas porque o raio da sotaina se lhe enrodilhava na corrente, não faço ideia. Caía e pronto. E pronto, não! Rectifico. Caía, levantava-se logo que conseguisse, não sei se estão a ver a tartaruga de pernas para o ar, verificava os estragos no material, que eram quase sempre nada, marcava o local do tombo com um grande sinal que ele já tinha preparado e que dizia "CURVA PERIGOSA!!!", nem mais nem menos, e saía dali novamente bicicletando. Com o Padre Clementino era mesmo assim, de categoria, tudo nos conformes. Fossem chamar tolo a outro...

(Publicado originalmente no meu blogue Tarrenego!, a propósito do Dia Nacional dos Bens Culturais da Igreja. E o Padre Clementino era. Por outro lado, hoje é Dia Internacional da Maçã.)

quarta-feira, 24 de julho de 2024

Volta a Portugal em bicicleta!

- Volta a Portugal! Volta a Portugal em bicicleta! - pediu-lhe insistentemente a mulher, num derradeiro telefonema de aflição. E ele voltou. Mas veio de carro.

sexta-feira, 19 de julho de 2024

Eu sarapinto, tu sarapintas, ele sarapinta

Ele era um extraordinário ciclista e não fazia caso à gramática. Dizia que gostava de correr "isolado, sozinho, sem mais ninguém", porque depois, na meta, "cada cal é cada cal e cada um sarapinta como pode". Não fazer caso da gramática fazia parte de ser ciclista antigamente. Ele venceu uma Volta a Portugal e era do meu FC Porto e das minhas memórias. Carlos Carvalho. Tive o privilégio de conhecê-lo pessoalmente anos mais tarde, eu moço, ele já reformado do pelotão mas não das bicicletas. E então o meu gigante das estradas era aquele homenzinho? Aquilo é que era o colosso de rodas? Era. E fiquei a admirá-lo ainda mais, como quem admira um fazedor de impossíveis.

Em 1976 a AD Fafe resolveu de repente montar de raiz uma equipa de ciclismo e apresentar-se à Volta a Portugal. Não terá sido bem a AD Fafe, mas algumas pessoas ligadas à AD Fafe e amantes das bicicletas, e tudo foi feito em cima do joelho, como convém às grandes empreitadas. Foi-se ao refugo do pelotão nacional e arranjaram-se dois ciclistas e mais dois ou três acompanhantes e desistentes garantidos. Os ciclistas eram o jovem António Alves, que posteriormente brilharia ao serviço do FC Porto, do Coimbrões de mestre Emídio Pinto, se não me engano, e do Boavista, entre outros clubes, e Manuel Martins, fafense de Golães e irmão mais novo do campeão José Martins. Dos outros, infelizmente, não reza a história. Foi-se praticamente à sucata e arranjou-se um velho Mercedes que seria, por assim dizer, recuperado e "preparado" para carro de apoio na garagem do Zé Bastos, ao lado dos antigos Bombeiros. O veículo, que avariava muito bem e parou vezes sem conta nas voltas da Volta, sobretudo quando fazia mais falta aos corredores, era o único acrescento logístico da equipa e seria guiado pelo Fredinho Bastos, condutor experimentadíssimo em corridas mas de automóveis. E foi-se a Pousada de Saramagos, Famalicão, tentar contratar um "treinador".
Uma embaixada fafense deslocou-se à loja-oficina de Carlos Carvalho, que ficava ali à face da estrada nacional, quem depois vira para o campo de futebol do Riopele de má memória pelo menos para nós. Iam talvez o grande Chico Marinho, de quem um dia falarei à parte, o despachado Machadinho, que também já era cobrador da AD Fafe, desse tenho a certeza, não sei se o Fredinho, o David Alves e o seu irmão Gabriel, eventualmente, e por certo alguém da direcção. Posso garantir é que eu fazia parte dessa delegação de alto nível, como modesto observador e porque, tratando-se de Fafe, naquele tempo da minha juventude eu ia com toda a gente para todo o lado. Em Fafe, não sei porquê, estive no meio de tudo ou tudo passou por mim. Fui portanto um espectador privilegiado da história da nossa terra naqueles anos imediatamente antes e após o 25 de Abril de 1974. Ou então, também admito estoutro ponto de vista, fui apenas um considerável emplastro, mas quase sempre a convite, é preciso que se note.

P.S. - Publicado originalmente no dia 17 de Setembro de 2022. O dia 19 de Julho de 1903 marca o início da primeira Volta à França. No dia 19 de Julho de 2013, o nosso Rui Costa, que então corria pela Movistar, conquistou a sua segunda vitória em etapas na 100.ª edição do Tour, em plenos Alpes, igualando feito de Joaquim Agostinho.

quarta-feira, 9 de agosto de 2023

Eu sarapinto, tu sarapintas, ele sarapinta

Ele era um extraordinário ciclista e não fazia caso à gramática. Dizia que gostava de correr "isolado, sozinho, sem mais ninguém", porque depois, na meta, "cada cal é cada cal e cada um sarapinta como pode". Não fazer caso da gramática fazia parte de ser ciclista antigamente. Ele venceu uma Volta a Portugal e era do meu FC Porto e das minhas memórias. Carlos Carvalho. Tive o privilégio de conhecê-lo pessoalmente anos mais tarde, eu moço, ele já reformado do pelotão mas não das bicicletas. E então o meu gigante das estradas era aquele homenzinho? Aquilo é que era o colosso de rodas? Era. E fiquei a admirá-lo ainda mais, como quem admira um fazedor de impossíveis.

Em 1976 a AD Fafe resolveu de repente montar de raiz uma equipa de ciclismo e apresentar-se à Volta a Portugal. Não terá sido bem a AD Fafe, mas algumas pessoas ligadas à AD Fafe e amantes das bicicletas, e tudo foi feito em cima do joelho, como convém às grandes empreitadas. Foi-se ao refugo do pelotão nacional e arranjaram-se dois ciclistas e mais dois ou três acompanhantes e desistentes garantidos. Os ciclistas eram o jovem António Alves, que posteriormente brilharia ao serviço do FC Porto, do Coimbrões de mestre Emídio Pinto, se não me engano, e do Boavista, entre outros clubes, e Manuel Martins, fafense de Golães e irmão mais novo do campeão José Martins. Dos outros, infelizmente, não reza a história. Foi-se praticamente à sucata e arranjou-se um velho Mercedes que seria, por assim dizer, recuperado e "preparado" para carro de apoio na garagem do Zé Bastos, ao lado dos antigos Bombeiros. O veículo, que avariava muito bem e parou vezes sem conta nas voltas da Volta, sobretudo quando fazia mais falta aos corredores, era o único acrescento logístico da equipa e seria guiado pelo Fredinho Bastos, condutor experimentadíssimo em corridas mas de automóveis. E foi-se a Pousada de Saramagos, Famalicão, tentar contratar um "treinador".
Uma embaixada fafense deslocou-se à loja-oficina de Carlos Carvalho, que ficava ali à face da estrada nacional, quem depois vira para o campo de futebol do Riopele de má memória pelo menos para nós. Iam talvez o grande Chico Marinho, de quem um dia falarei à parte, o despachado Machadinho, que também já era cobrador da AD Fafe, desse tenho a certeza, não sei se o Fredinho, o David Alves e o seu irmão Gabriel, eventualmente, e por certo alguém da direcção. Posso garantir é que eu fazia parte dessa delegação de alto nível, como modesto observador e porque, tratando-se de Fafe, naquele tempo da minha juventude eu ia com toda a gente para todo o lado. Fui portanto um espectador privilegiado da história da nossa terra naqueles anos imediatamente antes e após o 25 de Abril de 1974. Ou então, também admito estoutro ponto de vista, fui apenas um considerável emplastro, mas sempre a convite, é preciso que se note.

P.S. - A Volta a Portugal começa hoje em Viseu. E chega a Fafe no próximo dia 18 de Agosto, de sexta-feira a oito dias, com passagem pela nossa famosa e espectacular terra batida. Acho que estou desculpado pela repetição.

sábado, 3 de junho de 2023

O passeio do jovem ciclista em cuecas

Foto Hernâni Von Doellinger
Palavra de honra, em cuecas. Os famosos slipes ou trusses. Em cuecas, portanto. O jovem ciclista atravessou com a maior das descontracções a praça principal da vila de Caminha, perante o espanto e a reprovação compungida da distintíssima esplanada do Café Central que rebentava pelas costuras de senhorecas e senhorecos, sobretudo portuenses da Foz chique em gozo de segunda casa. Ou terceira. Ou. Primeiro para cima, depois para baixo, pedalando em preparos tão resumidos, o ciclista em cima da bicicleta, parece impossível num centro histórico! A indignação foi praticamente geral, até as arcas dos gelados coraram. E perceba-se o escândalo: era domingo e hora da missa para os indígenas, valha-me Deus...

sábado, 20 de agosto de 2022

A bisculeta

Foto Hernâni Von Doellinger
A bisculeta é um utensílio doméstico com quatro rodas, no mínimo: a roda da frente, a roda de trás, a roda pedaleira e o pinhão. O Chico Americano, por exemplo, tinha uma bisculeta que estacionava à porta do Nacor às vezes em contramão mas sempre de vidros fechados por causa da chuva que também podia aparecer sobretudo no tempo dela. O tempo da chuva antigamente chamava-se Inverno, pelo menos em Fafe. O aparelho que aparece ali representado na fotografia com um homem em cima não é a bisculeta do Chico. A bisculeta do Chico era mesmo uma bisculeta. Vulgarmente conhecida como velocípede sem motor ou bicicleta, há também quem lhe chame automóvel derivado exactamente àquilo das quatro rodas.

Candidaturas ao Prémio A. Lopes de Oliveira

Decorre o período para concurso ao Prémio Literário A. Lopes de Oliveira / Câmara Municipal de Fafe, destinado a distinguir estudos históric...