sábado, 14 de janeiro de 2023

Fazendo pela vida

O médico deu-lhe dois anos. Ele pediu seis. O médico contrapôs três e que não podia dar mais. Ele exigiu cinco senão nada feito. O médico disse quatro e não se fala mais nisso. Ele, negócio fechado.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

A culpa foi do mordomo

Vinham chegando aos poucos e discretos. August Dupin, Dick Tracy, Miss Marple, Clouseou, Maigret, Mike Hammer, Poirot, Sam Spade, Nero Wolfe, Philip Marlowe, Perry Mason, Ironside, Kojak, Columbo e Pepe Carvalho. Sherlock Holmes apareceu enfim, atrasadíssimo e ofegante e com um restinho de farinha amparo na ponta do nariz. Disse que a culpa foi do mordomo.

Agatha Christie, criadora de Hercule Poirot e de Miss Marple, morreu no dia 12 de Janeiro de 1976. Durante muitos anos eu confundi Agatha Christie com Miss Marple. Quero dizer, a cara de Agatha Christie era, para mim, a cara da veterana actriz inglesa Margaret Rutherford, e só já em adulto é que desfiz o equívoco, perante o verdadeiro retrato da famosa autora de romances policiais, porventura descoberto na badana de um livro. Mais curioso ainda é que, em Fafe, eu mantinha sob apertada vigilância meia dúzia de velhas senhoras que eram Miss Marple de certeza absoluta, por mais que tentassem disfarçar. Senhoras antigas, amiúde intrometidas, vestindo com quase cinquenta anos de atraso, senhoras assim como a minha Milinha Vaqueiro ou as manas Grilas em dias de maior asseio. Fafe era mesmo assim, havia de tudo. Fafe era o mundo inteiro, e essa foi a minha sorte.

terça-feira, 10 de janeiro de 2023

Um país sem tintins

Tintim faz hoje 94 anos. E bem fodido estaria se fosse português. Provavelmente com uma reforma de miséria e esmolada ao cêntimo, encaixotado num lar de idosos clandestino, proibido de ir estorvar para a hemodiálise ou de sequer bater à porta das urgências. Teria certamente fome e vergonha por ver o seu país entregue ao desgoverno de corruptos, trafulhas, videirinhos, carreiristas, amiguistas, enganadores e omissos. Choraria com o triste espectáculo dado pelos mal-amanhados títeres que fazem de conta que são oposição em Lisboa e nem sequer uma ideia conseguem parir. Pediria a morte medicamente assistida, se pudesse pagar, mas não pode. E Marcelo não deixa.
A sorte de Tintim é que ele é belga. Em Portugal não há tintins.

P.S. - No dia 10 de Janeiro de 1929, Tintim e o cão Milou, de Hergé, apareceram pela primeira vez num semanário católico de Bruxelas.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

Foguetes, foguetinhos e foguetões

Não sei se se lembram: Eurico da Fonseca (1921-2000) foi o principal especialista português em astronáutica. Praticamente autodidacta, nomeado investigador por decreto-lei e oficialmente equiparado a professor catedrático, colaborou com a NASA e conheceu os principais responsáveis pelo Programa Apollo. Notabilizou-se entre nós como divulgador de assuntos científicos. Na rádio, acompanhou em directo, na então Emissora Nacional, a chegada do homem à Lua, há cinquenta e três anos, e comentou os voos espaciais norte-americanos e soviéticos. Mas era na RTP que eu gostava de o ouver. Ouver, escrevi bem.
Pois foi com Eurico da Fonseca na televisão - na televisão evidentemente a preto e branco do café Peludo - que eu aprendi que, quando se fala de um lançador espacial, deve dizer-se foguete e não foguetão. Foguete. Tal como na meia de vidro com fio puxado. Foguete. Tal como no Santo António da minha rua em Fafe, com girândolas, diabos-encaixados, bombinhas, estalinhos e bichas-de-rabear, ou rabichas, como por lá se chamavam. Foguete. Eurico da Fonseca explicava, apenas insinuando, que foguetão é outra coisa: por exemplo coisa gasosa, eventualmente sonora e por norma fedorenta. Quer-se dizer: um peido, com vossa licença, e isso já seria matéria da alçada do nosso Moisés...

P.S. - Hoje é Dia do Astronauta.

Dário Guerreiro no Teatro-Cinema

Espectáculo de stand up , com Dário Guerreiro, no Teatro-Cinema de Fafe. Próximo dia 20 de Novembro, sexta-feira, pelas 21h30. Mais informaç...