quinta-feira, 10 de novembro de 2022

Operário di qualità, di qualità

Hoje é Dia Mundial da Qualidade, e eu acho justo. É preciso que se note que o meu primeiro emprego com descontos para a Caixa foi exactamente como "controlador de qualidade", que era o nome que deram ao meu trabalho de "fiel de armazém", que era o nome que não deram ao meu trabalho de faz-tudo, isto é, moço de recados, na Estamparia Marigam, em Fafe. Sei portanto do que falo e não sei se estão a ver que, sendo eu o operário que fui, estou plenamente capacitado para ser secretário-geral do PCP, tal e qual como o bom do Paulo Raimundo, que uma vez também foi operário. E no entanto desconheço a que qualidade de qualidade diz respeito o Dia Mundial da Qualidade. Isto é: estamos a falar de boa qualidade ou de má qualidade? De qualidade de vida ou de qualidade de morte? Afirmar-se apenas "da Qualidade" é muito pouco, é abstracto, é obscuro. Em última análise, até podemos estar a celebrar uma qualidade sem qualidade nenhuma. Pelo menos é o que eu acho.

P.S. - Hoje é Dia Mundial da Qualidade.

Augusto, o das botas amarelas

Depois de ter sido o primeiro imperador romano e de ter imperado forte e feio durante 41 anos, menos sete do que o fascismo português, e depois de ter morrido fez exactamente 2008 anos no passado dia 19 de Agosto, RIP, Augusto, que deu o nome ao mês e ficou também conhecido como Caio Otávio ou Caio Júlio César Otaviano, apareceu em Fafe de chuteiras amarelas ou vermelhas, consoante, fazendo-se passar por defesa direito. Estávamos às portas do 25 de Abril de 1974 e era ainda tempo de botas negras, botas e vidas. Menos o Augusto, que ia ao secador todos os dias e disfarçava muito mal como jogador de futebol.
Naquele tempo, realmente, passavam por Fafe com duvidosa assiduidade uns jogadores da bola que eram interessantes espécimes de colecção, aves raras dignas de estudo, e nem estou a falar dos menos apetrechados para a função, como o espanhol Ramón ou o velocipédico Quim Santos, por exemplo e sem desprimor, mas dos verdadeiros artistas, dos malandros, bons e assim assim, tipo Dário, Raimundo, Figueiredo, Neto ou Testas, para não ir mais longe, porque houve muitos mais - alguns deixaram saudades, outros deixaram calotes e não sei se filhos.
A augusta figura, que era da malandragem, coincidiu na AD Fafe com memoráveis jogadores como Neto e Testas, imaginem a tripla, Zé Maria, Costa, Leitão, Cláudio, Ismael, Martinho, Cândido, Manuel Duarte, Nino, Alfredo, Daniel Lopes ou Valença, recém-tornado do Ultramar. Futebolisticamente falando, só Augusto destoava, quer-se dizer.
No entanto, apesar daquele aspecto colorido e aprumadinho, Augusto, não sendo génio, era genioso. Uma vez, num "amigável" com o Vitória de Guimarães, pegou-se à pancada tenho na ideia que com o sardento Romeu, que também era de gancho e acabou por jogar mais tarde no Benfica, no Porto e no Sporting. O Augusto, não.
As chuteiras de Augusto estavam muito à frente do seu tempo, como hoje se sabe. E o cabelo de Augusto marcou uma época em Fafe. Na época seguinte, de facto, Augusto foi enganar para outro lado. Para Barcelos, no Gil Vicente, e depois disso a História perdeu-lhe o rasto.

A bombeiral da moda 6

Foto Tarrenego!

terça-feira, 8 de novembro de 2022

Urbanismo e estupidez natural

Pegue-se num bom pedaço de terreno relvado, com árvores e com sombras, e arrase-se tudo. O terreno, a relva, as árvores e as sombras. Encha-se o espaço de alcatrão, cimento, placas de granito e mármore, pedregulhos aparelhados fazendo de conta de bancos e estacas de alumínio a imitarem árvores ou, quem sabe, a imitarem esculturas muito inteligentes, de preferência com esguichos mas sem água derivado à seca e à poupança. Isto é urbanismo! Pegue-se no jardim da cidade, arranquem-se as flores e os arbustos, envenene-se o verde, construam-se desertos em forma de praça e mandem-se as pessoas para casa. Isto é urbanismo! Pegue-se num monte, sítio de memórias, de brincadeiras da infância, santuário de locais secretos e míticos, reserva de saúde e natureza, e corte-se-lhe a crista, cape-se, desarborize-se, desfaune-se, terraplene-se, enxote-se a bicharada, cale-se o incómodo do chilreio dos pássaros, ergam-se casas de preferência em forma de caixote, altas, pegadas e muitas, e muros e portões e estradas e carros e escapes e buzinas e estampanços e atropelamentos e antenas parabólicas e fios e postes de alta ou remediada tensão. Isto é urbanismo! É. Hoje é Dia Mundial do Urbanismo e estamos todos de parabéns.

Antes que o mundo acabe

Foto Hernâni Von Doellinger
O mundo pode ser que acabe hoje, terça-feira, dia 8 de Novembro de 2022. Depois de 21 de Maio e 21 de Outubro de 2011, depois de 21 de Dezembro de 2012, depois de 7 de Outubro de 2015, depois de 20 de Setembro de 2017 e depois de 23 de Abril de 2018, só nos últimos tempos, o mundo pode tornar a acabar hoje, a partir das 8 horas, hora legal, altura em que entra em manobras o segundo eclipse total da Lua deste ano. Se não for logo às oito, pode ser o mais tardar até às 13h58, momento exacto agendado para o encerramento da sessão. O eclipse total da Lua será visível a partir da América do Norte, da América do Sul, da Ásia, da Austrália, do oceano Atlântico Norte e do oceano Pacífico. Se desta vez for mesmo, se o fim do mundo vier daqui a um bocado, eu só quero que ninguém se aleije. Mas não tenho ainda claro se o fim do mundo é o fim da América, porque, para os americanos, principais adivinhadores de fins do mundo, a América é o mundo e mais nada, ou se é geral e nos toca a todos, incluindo o principado de Sealand e essa pequena adjacência chamada China.

Antes que o mundo acabe, quero, porém, esclarecer o seguinte: bacalhau à espanhola não é caldeirada de bacalhau, tão-pouco ensopado de bacalhau. Bacalhau à espanhola é um prato que pede azeite e não água. É quase um guisado, de molho grosso e aveludado, e com o tempero apurado até aos limites legais de sal, pimenta, alho, louro e salsa. Por mim, também malagueta. Colorau, um nada só para dar cor. E, tomem nota, o pimento e o tomate são duas desnecessidades usadas apenas por quem pensa, mas não sabe, que só assim é que é "à espanhola". Erro crasso. O bacalhau à espanhola é à portuguesa!
O bacalhau até pode ser de quarto, daquele que, inteiro, não mede mais do que um palmo. E pode ser pouco. Não faz diferença nenhuma. O importante é o gosto que o bacalhau empresta, o equilíbrio do tempero geral, a consistência da molhanga. Quando eu era pequeno e os tempos eram de pobreza como os de agora, a minha mãe fazia um bacalhau à espanhola a que, honestamente, chamava batatas à espanhola. E vocês não fazem ideia do que perderam por nunca terem provado as batatas à espanhola da minha mãe...
E pronto, era isto. O mundo já pode acabar. Estou preparado, enfim de consciência tranquila. Andava com esta espinha atravessada na garganta, mas está o assunto resolvido. E agora, se me dão licença, vou à cozinha salgar uns ossinhos da suã para o jantar de amanhã.

segunda-feira, 7 de novembro de 2022

Porque é que eles chamam cumbre à nossa cimeira?

Foto Hernâni Von Doellinger
Em 1986, a Pousada de Santa Marinha, na Costa, em Guimarães, recebeu a terceira edição de uma coisa chamada Cimeira Luso-Espanhola. Aníbal Cavaco Silva era o primeiro-ministro de Portugal, Felipe González era o presidente do Governo espanhol e eu era jornalista de O Primeiro de Janeiro. Estivemos lá os três, evidentemente.
Tarde e a más horas, o meu jornal lembrou-se de me mandar para o local do crime. Tarde e a más horas, quero dizer, no caso em apreço, já depois de a coisa ter começado. E eu fui todo contente, de braço de fora na Catrel com letras, pendurado no Adélio Santos, que era o homem do volante, das fotografias e de outras habilidades e excessos. Eu tinha muita vaidade na minha profissão.
Com alguns empenhos e uma sorte do caraças, conseguir credenciar-me numa esquina do Toural, que, tenho ideia, era posto de turismo mas tratava do assunto. Cheguei lá acima engatilhadíssimo para colocar umas certas e determinadas questões tanto ao Silva como ao González, que os havia de foder, porém mandaram-me para uma sacristia que era a "sala de imprensa" ibérica. Ficámos lá todos de quarentena a contar anedotas uns aos outros, anedotas de espanhóis e portugueses, "Vale, vale...", diziam eles, "Já me tinhas dito...", dizíamos nós. Os jornalistas somos uns gajos com piada. Somos piadéticos sem fronteiras.
A cimeira eram dois dias. Escrevi um primeiro texto, de lançamento da coisa, na véspera da coisa, ainda na redacção, e assinei, com grande lata e imensa ignorância, "Hernâni Von Doellinger - enviado-especial a Guimarães". Creio que na altura era "enviado-especial" que se usava, com hífen, o que dada uma maior cagança à função. Não fui corrigido por quem devia ter tarimba e mais juízo do que eu - portanto estava certo. É preciso que se note: estava a começar e era a minha primeira saída para o "estrangeiro". Para além disso, como decerto estão recordados, eu tinha muita vaidade na profissão. Vai daí, fiz as malas e parti da portuense Rua de Santa Catarina rumo ao fim do mundo, onde cheguei passado um bocado.
Naqueles bons velhos tempos, os jornais pagavam extramente as pernoitas aos seus jornalistas e eu fui dormir a Fafe. Dormi em casa da minha mãe e jantei no Académico. O Pimenta foi buscar-me e levar-me a Guimarães. O importante era que eu estava para fora, eu era enviado-especial, estão a perceber? O Adélio infelizmente não concordava comigo, e veio dormir a casa, ao Porto, que lhe dava muito mais jeito.
Da cimeira, enquanto lá estive, só soube os recados que os chegamissos do Cavaco nos traziam de vez em quando, que a coisa estava atrasada e que "Eles" estavam a discutir isto e aquilo, tudo a correr muito bem para o nosso lado, Portugal 5-Espanha 3. Não me custa admitir que os llegamessos do González contavam aos jornalistas espanhóis o mesmo resultado mas ao contrário, e acho justo. A "Eles" só os vi na conferência de imprensa final. E na verdade nem os vi, estava muita gente à minha frente, mesmo sendo "Eles" maiúsculos. E também não os ouvi, mas isso a camaradagem resolveu, dando-me as notas detalhadas do que fora dito. E eu voltei a assinar, com grande gabarito e por mais três ou quatro vezes, "Hernâni Von Doellinger - enviado-especial a Guimarães". E voltou a sair assim no jornal.
Resumindo e concluindo: como combinado, a Cimeira Luso-Espanhola de Guimarães de 1986 foi um sucesso e a cobertura do enviado-especial de O Primeiro de Janeiro também. O Adélio Santos morreu já há dez anos, parece impossível, e, caro amigo, realmente já se comia qualquer coisinha...

Entretanto. A 33.ª cimeira ibérica foi há dois dias em Viana do Castelo. As cimeiras ibéricas são uma espécie de romaria a que só comparecem os membros da comissão de festas. E os jornalistas. E os membros da comissão de festas só comparecem para comer e para beber. E os jornalistas também, por maioria de razão. António Costa e Pedro Sánchez e respectivos chegamissos e llegamessos, assim respectivamente chamados consoante o respectivo lado do rio, almoçaram e jantaram, fizeram talvez também umas merendinhas, dormiram uma soneca ou a siesta, e no fim eles e os jornalistas contaram-nos as novidades. Isto é, nada. Ainda não foi desta que portugueses e espanhóis chegaram a acordo sobre o essencial: nós continuamos a chamar-lhe cimeira, como deve ser, e eles insistem em chamar-lhe cumbre, sabe-se lá porquê. Mas foi um sucesso. Nas cimeiras luso-espanholas nunca se passa nada, mas são sempre um sucesso. E era a continha, se faz favor...

Dário Guerreiro no Teatro-Cinema

Espectáculo de stand up , com Dário Guerreiro, no Teatro-Cinema de Fafe. Próximo dia 20 de Novembro, sexta-feira, pelas 21h30. Mais informaç...