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domingo, 22 de dezembro de 2024

À espanhola, mas sem castanholas

Antes que o mundo acabe, faço questão de esclarecer o seguinte: bacalhau à espanhola não é caldeirada de bacalhau, tampouco ensopado de bacalhau. Bacalhau à espanhola é um prato que pede azeite e não água. É quase um guisado, de molho grosso e aveludado, e com o tempero apurado até aos limites legais de sal, pimenta, alho, louro e salsa. Por mim, também malagueta. Colorau, um nada só para dar cor, mais dourada do que vermelha. E, tomem nota, o pimento e o tomate são duas desnecessidades usadas apenas por quem pensa, mas não sabe, que só assim é que é "à espanhola". Erro crasso. O bacalhau à espanhola é à portuguesa! É à moda de Fafe, como era feito em todos os lares, ricos, pobres ou entremeados, pensões, tascos e saudosas casas de pasto da minha terra. Depois chegaram os restaurantes. E os snack-bars. E as tascas. E escangalharam tudo...

(Falo em fim do mundo e falo a sério, porque isto aqui não está para brincadeiras, um destes dias acordamos e está tudo morto, peço desculpa por ser tão cru. Entre solstícios e eclipses, meteoros, asteróides, cometas e sextas-feiras 13, terramotos e terroristas, Elon Musk, Donald Trump e Vladimir Putin, claques de futebol, Montenegro e rusgas policiais, basta uma corrente de ar, coisinha de nada, um arzinho que lhe deu, e a casa vem abaixo, quer-se dizer, já não há mais bacalhau para ninguém. O que é pena, porque, sejamos honestos e reconhecidos, o bacalhau é o melhor amigo do homem, só lhe falta ladrar, e, se tivéssemos mais um bocadinho de tempo, de mundo, vamos dizer assim, se calhar o bacalhau... au... au ainda lá ia.)

De volta ao tacho, ao nosso bacalhau à espanhola. O bacalhau até pode ser de quarto, daquele que, inteiro, não mede mais do que um palmo. E pode ser pouco. Não faz diferença nenhuma. O importante é o gosto que o bacalhau empresta, o equilíbrio do tempero geral, a consistência da molhanga. Quando eu era pequeno e os tempos eram de pobreza como os de agora, a minha mãe fazia um bacalhau à espanhola a que, honestamente, chamava batatas à espanhola. E vocês não fazem ideia do que perderam por nunca terem provado as batatas à espanhola da minha mãe...
E pronto, era isto. O mundo já pode acabar. Estou preparado, enfim de consciência tranquila. Andava com esta espinha atravessada na garganta, mas está o assunto resolvido. E agora, se me dão licença, vou à cozinha salgar uns ossinhos da suã para o jantar de amanhã.

P.S. - Viva o bacalhau! Viva o Natal!

terça-feira, 8 de novembro de 2022

Antes que o mundo acabe

Foto Hernâni Von Doellinger
O mundo pode ser que acabe hoje, terça-feira, dia 8 de Novembro de 2022. Depois de 21 de Maio e 21 de Outubro de 2011, depois de 21 de Dezembro de 2012, depois de 7 de Outubro de 2015, depois de 20 de Setembro de 2017 e depois de 23 de Abril de 2018, só nos últimos tempos, o mundo pode tornar a acabar hoje, a partir das 8 horas, hora legal, altura em que entra em manobras o segundo eclipse total da Lua deste ano. Se não for logo às oito, pode ser o mais tardar até às 13h58, momento exacto agendado para o encerramento da sessão. O eclipse total da Lua será visível a partir da América do Norte, da América do Sul, da Ásia, da Austrália, do oceano Atlântico Norte e do oceano Pacífico. Se desta vez for mesmo, se o fim do mundo vier daqui a um bocado, eu só quero que ninguém se aleije. Mas não tenho ainda claro se o fim do mundo é o fim da América, porque, para os americanos, principais adivinhadores de fins do mundo, a América é o mundo e mais nada, ou se é geral e nos toca a todos, incluindo o principado de Sealand e essa pequena adjacência chamada China.

Antes que o mundo acabe, quero, porém, esclarecer o seguinte: bacalhau à espanhola não é caldeirada de bacalhau, tão-pouco ensopado de bacalhau. Bacalhau à espanhola é um prato que pede azeite e não água. É quase um guisado, de molho grosso e aveludado, e com o tempero apurado até aos limites legais de sal, pimenta, alho, louro e salsa. Por mim, também malagueta. Colorau, um nada só para dar cor. E, tomem nota, o pimento e o tomate são duas desnecessidades usadas apenas por quem pensa, mas não sabe, que só assim é que é "à espanhola". Erro crasso. O bacalhau à espanhola é à portuguesa!
O bacalhau até pode ser de quarto, daquele que, inteiro, não mede mais do que um palmo. E pode ser pouco. Não faz diferença nenhuma. O importante é o gosto que o bacalhau empresta, o equilíbrio do tempero geral, a consistência da molhanga. Quando eu era pequeno e os tempos eram de pobreza como os de agora, a minha mãe fazia um bacalhau à espanhola a que, honestamente, chamava batatas à espanhola. E vocês não fazem ideia do que perderam por nunca terem provado as batatas à espanhola da minha mãe...
E pronto, era isto. O mundo já pode acabar. Estou preparado, enfim de consciência tranquila. Andava com esta espinha atravessada na garganta, mas está o assunto resolvido. E agora, se me dão licença, vou à cozinha salgar uns ossinhos da suã para o jantar de amanhã.

Toy no Sol da Chafarica

O Sol da Chafarica está de volta à Praia Fluvial de Agrela e Serafão, Fafe, com Toy e Mastiksoul em destaque. No próximo sábado, dia 8 de Ag...