domingo, 20 de novembro de 2022

Velocidade furiosa, em Arões vamos supor

Há um novo perigo nas estradas portuguesas, e não falo de trotinetas. Há uma novo perigo nas estradas e são as cadeiras de rodas. Cadeiras de rodas eléctricas. As cadeiras. As cadeiras é que são eléctricas, as rodas não, são rodas normais, mas parece-me mal dizer cadeiras eléctricas de rodas, que é o que elas são realmente. Então, elas andam aí, são cada vez mais e cada vez mais metediças. Ainda no outro dia me apareceu uma disparada a atravessar, vamos um supor, a EN 206, em Arões, após a saída de Paçô Vieira, e só não acabou em desastre porque um de nós travou a tempo e não foi o condutor da cadeira. Cujo, aliás, agradeceu a sorte com um enorme sorriso (vá lá!) e não tinha capacete nem piscas.
As novas máquinas do asfalto alcançam a furiosa velocidade de 12 km/hora, o que não é brincadeira nenhuma para atravessar uma estrada nacional, fora de passadeira e saídas do nada. Ainda por cima está na moda o tuning, que transforma algumas delas em verdadeiras bombas, como a daquele brasileiro que uma vez foi apanhado pela polícia a mais de 60km/hora, depois de ter artilhado a sua cadeira de rodas com um motor de motorizada.
Creio que se impõe uma análise série e aprofundada ao fenómeno, em sede de. Sim, em sede de. Convoquem-se então os rapazes e eles que ajeitem uma comissão governamental e multidisciplinar com amplos poderes para remodelar o Código da Estrada, alterando, nomeadamente, a legislação referente às escolas de condução e introduzindo a especialidade de cadeiras de rodas. A sinalética de trânsito vigente terá de ser também revista e actualizada, não sendo de desprezar a possibilidade de implementar corredores específicos para cadeiras de rodas na rede de auto-estradas nacional. Com isenção de pagamento de portagens, evidentemente.

P.S. - Hoje é Dia Mundial em Memória das Vítimas da Estrada.

Pica, 6 - Fareja, 0

Fafe tem nomes que são um mimo, uma primeirinha. Uma terra que tem um lugar chamado Pica e uma freguesia chamada Fareja só pode ser uma grande terra. E Fafe é realmente. Gosto de contar esta minúscula história: em pleno Verão de 2014, por acaso em dia de apuramento para a Liga dos Campeões, Pica e Fareja, equipas de futebol, fizeram um jogo-treino, e o resultado, sendo contundente, não significa nada por aí além, a não ser que dá para rir: Pica, 6 - Fareja, 0.
E era isto. Mas é preciso que se note: para quem é de Fafe, como eu sou, Fareja e Pica são nomes absolutamente normais, corriqueiros, que só fazem confusão ao jornalista ou ex-jornalista Nuno Azinheira, que chamou Fajães a Fareja, e a uns caralhos de fora que não conseguem passar pela tabuleta da Pica sem lhe meter a cedilha...

E assim fica aqui solenemente assinalado o dia do princípio da toléria. Começa hoje, se não me engano, o Mundial do Catar, isto é, o Mundial da vergonha, de todas as vergonhas e mais duas ou três, a não ser que Portugal venha de lá campeão.

Uma boa trancada

No monte de São Jorge havia o Pionono, assim com maiúscula, é justo que se diga. Já aqui contei. Pionono era nome próprio, sítio, geografia. "Vou ao Pionono". Ia-se ao Pionono. E o Pionono era naquele tempo muito mais do que um acomodado cabeço, crescia sem fim à vista, misterioso, palpitante, labiríntico, agigantava-se floresta, cenário de filme, de livrinho de aventuras, de fantasia e crime. Ao Pionono ia-se aos pinheiros pelo Natal, ia-se esgaçar umas pernadas de carvalho para o trono da cascata do Santo António, ia-se aos fentos ou ao mato para o eido ou às giestas secas para espertar a lareira do chão da cozinha, ia-se brincar aos cobóis, ia-se cagar ao monte e ia-se dar umas trancadas, e o que eu gostava da palavra trancadas, mesmo sem conseguir então alcançar, coitadinho, o que ela quereria dizer.
O Pionono hoje é casas e está bem. Uma rua a descer mas pouco para quem vem e, a mesma, a subir mas pouco para quem vai. À merda. Monte é que... viste-lo?
E faz falta. Os montes fazem muita falta. Principalmente derivado às coisas boas da vida. Quer-se dizer. Adaptando livremente a caricatura de António Lobo Antunes, o meu particular e indesmentível Nobel, nem é homem nem é nada quem nunca deu uma boa trancada no monte. E eu já.

Conta a lenda que 14

Foto Hernâni Von Doellinger

sábado, 19 de novembro de 2022

A deslocalização do homem-estátua

Porto, meados do mês de Novembro de 2022. Ao fim de 35 anos de inabalável serviço na ex-libríssima Praça da Liberdade, o homem-estátua chamou o fiscal da Câmara num pst! muito bem disfarçado. "Ó colega, isto aqui já não dá nada. Até o cavalo de D. Pedro IV leva mais do que eu ao fim do dia. Vou-me embora, se calhar para Fafe, fazer de pedregulho no Largo. Ou então dou o salto para o Brasil, há agora aquela vaga do Cristo Redentor, que fugiu por causa do Lula, e levo um guarda-sol e uma grade de cerveja. Lembras-te do Miguel Relvas? Sabias que sempre que os portugueses emigram têm uma visão universalista que lhes traz sucesso?", disse o homem-estátua ao fiscal camarário, por entre dentes e sem perder a pose. Era efectivamente um homem-estátua muito profissional e filósofo amiúde. "Além disso, estou farto de que me caguem em cima", acrescentou, descendo finalmente do banco de cozinha e arrumando os tarecos e o reumatismo em dois sacos plásticos do Pingo Doce do tempo em que os sacos plásticos eram de borla. "As pombas?", perguntou o fiscal da Câmara, que era um bocadinho lerdo, porém presto para as multas. "O quê?", perguntou o homem-estátua, que já nem se lembrava do que tinha acabado de dizer. "Cagam-lhe em cima, as pombas?", perguntou o fiscal da Câmara. "Os pombos. O Sócrates, o Cavaco, o Oliveira e Costa, o Salgado, o Rendeiro, o Dias Loureiro, o Duarte Lima, o Vara, o Durão Barroso, o Horta e Costa, o Carlos Costa, o António Costa, o Constâncio, o Centeno, o Cabrita, o Medina, o Vieira, o Berardo, o Miguel Alves, e estes são apenas os que eu distingo pela anilha e pelo cu, que de fronha são todos muito parecidos...", respondeu o homem-estátua, escarafunchando os bolsos à procura dos apontamentos e do manguito do Bordalo. Tinham sido realmente muitos anos de gesto suspenso e bico calado.

P.S. - Hoje é Dia Internacional do Homem.

Adeste infideles

Sabem: quando se acorda com aquela canção, aquela música na cabeça que nos embala o dia inteiro? Isso. Acordei com Adeste fideles na cabeça. Acordei e olhei para o rádio-relógio-despertador da mesinha-de-cabeceira - quatro da manhã. O habitualmente circunspecto rádio-relógio-despertador riu-se de mim, que eu bem vi. Fui à cozinha beber um copo de água e conferir o calendário - 19 de Novembro de 2022. O calendário riu-se de mim, tenho provas. Foda-se! Já nem o Natal é quando um homem quiser...

Dário Guerreiro no Teatro-Cinema

Espectáculo de stand up , com Dário Guerreiro, no Teatro-Cinema de Fafe. Próximo dia 20 de Novembro, sexta-feira, pelas 21h30. Mais informaç...