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sexta-feira, 6 de março de 2026

Quem vê caras não vê orações

Branco mais branco
Deu o braço a torcer. E depois pô-lo a corar. Era uma pessoa muito limpa.

Um daqueles famosos restaurantes de peixe na brasa aqui ao lado, na Rua Heróis de França, Matosinhos à beira-mar, estais a ver, já vos chegou o cheiro? Ainda é cedo. Pouco passa das oito da manhã, uma velhinha varre cerimoniosamente a esplanada que por acaso é passeio ocupado com ordem municipal, os peões têm de andar pela estrada, toureando carros felizmente em sentido único. Asseada como se fosse domingo, como se fosse Natal, a velhinha, corpo franzino, cabelos brancos de neve, ajeitados à moda da televisão, da telenovela, uma carinha doce, redonda como um minúsculo sol resplandecendo bondade, olhos apontados ao chão, espertos, criteriosos, os olhos, a velhinha varre varre, vagarosa e competente. Varre varre vassourinha, se varreres bem dou-te um vintém, se varreres mal dou-te um real. Se os anjos varressem e fossem velhinhas, e competentes, eram ela certamente e varreriam assim mais ou menos. Lembro-me de velhinhas tais quais no meu tempo de criança, em Fafe, as saudades doem-me na zona do fígado, estou também a ficar velho. A rua naquele sítio àquela hora éramos a velhinha e eu. Eu, que venho de mercar sardinhas madrugadoras e vivas, eventualmente clandestinas, estremeço de comoção. Trauteio distraidamente a lengalenga mansa e antiga, brincada à rodinha no Santo Velho, de mãos estendidas, mãos dadas, meninas e meninos sem distinção, recordo-os a todos e a todas, componho-lhes as caras, dou-lhes os nomes, turva-se-me a vista de repente e, carago, são lágrimas...
Varre varre a velhinha doce e cerimoniosa, olhos espertos e belos. Olhos que não enganam. Bondosos. Cara de sol, de anjo. E, eu a passar-lhe pelas costas em pezinhos de lã, para não incomodar, para não estragar cena tão encantadora, diz a velhinha, completamente distraída de mim, como se fosse um mantra ou, vá lá, a recitação atabalhoada do terço, à tardinha, na nossa Igreja Matriz, antes da bênção do Santíssimo: - Filhos da puta! Era mas é fodê-los! Mandá-los a todos prò caralho! À puta que os pariu!...
É. Ninguém diga que está livre, amém!

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial da Oração.)

sexta-feira, 12 de setembro de 2025

Os nossos velhinhos, coitadinhos

Hoje é Dia Mundial da Terceira Idade, dia dos nossos velhinhos, coitadinhos. Levantar cedo, roupinha de domingo, pó de talco e perfume, chá e bolachas e ala para a camioneta, nem que não queiram. Lá vão os nossos velhinhos de cu tremido, cantando bonitas cantigas do Quim Barreiros ditadas ao microfone pela senhora doutora da junta, que até já foi ao Preço Certo. Missinha, santa missinha, um regalo, nem que não queiram, e Quinta da Malafaia para enfartar a mula, nem que não queiram, tantos velhinhos, tantos velhinhos, ó que extraordinário velhódromo, velhinhos de tantos lados, atordoados, perdidos, sem saberem de que terra são, tantos senhores presidentes de câmara, sorridentes e abraçadeiros, de mesa em mesa e o fotógrafo solícito e oficial sempre atrás, ai que dinheiro tão bem empregue pela autarquia local, vêm aí as eleições! Os velhinhos sobreviventes, nem que não queiram, regressam ao sol-pôr com o saco cheio. De volta à naftalina, à indiferença e ao esquecimento, até de hoje a um ano, se Deus quiser...

P.S. - Texto publicado no dia 28 de Outubro de 2023, a propósito do Dia Mundial da Terceira Idade. O Município de Fafe promove, entre os dias 23 de Setembro e 1 de Outubro, a sua Semana Sénior de 2025. A ida à Malafaia é no dia 1 de Outubro.

O passeio do idoso

O autocarro de aluguer levava à frente, à mão direita do motorista, uma tabuleta que dizia "Passeio do Idoso". Convenhamos: a tabuleta é necessária, porque uma câmara municipal ou uma junta de freguesia não se podem dar ao luxo de organizar um "Passeio do Idoso" e o mundo ficar sem saber que a câmara municipal ou a junta de freguesia organizaram um "Passeio do Idoso". Portanto, a tabuleta anunciava "Passeio do Idoso". Olhei com atenção para o interior do autocarro de 56 lugares, e lá no meio ia realmente um velhinho, só um, o resto eram bancos vazios. A tabuleta estava certa - era, com efeito, o passeio do idoso.

segunda-feira, 24 de março de 2025

Flores ao solheiro

Um restinho de sol e lá se sentavam elas comparando doenças e façanhas de netos havidos ou inventados. Rosa, Violeta, Hortênsia, Margarida, Dália, Açucena - evidentemente no jardim imaginário, ao entardecer da vida. É. Estamos na Primavera e nem damos por isso...

segunda-feira, 28 de outubro de 2024

Festa da terceira idade

Hoje é Dia Mundial da Terceira Idade. Vamos fazer uma festa de arrebenta cá em casa, eu e a mulher. E à noute, antes de deitar, uma canjinha.

P.S. - Hoje é Dia Mundial da Terceira Idade.

domingo, 15 de setembro de 2024

O dia em que envelheci

Sei muito bem o dia em que envelheci. Foi de repente. Sei o ano, sei o mês, sei o dia e até sei a hora, mas tanta exactidão não vem aqui ao caso. Sei o local e sei as circunstâncias. Foi de manhã. Foi no Hospital de Gaia, numa consulta de medicina do sono, creio que a coisa se chamava ou chama assim. A dado passo da bateria de exames e do minucioso inquérito, a médica perguntou-me, surpreendentemente: - Quando era novo, o Sr. Américo já sentia este cansaço?...
Eu ia caindo de cu. Primeiro. Esta mania de me tratarem pelo meu primeiro nome, Américo, nas consultas e, em geral, em todos os serviços públicos ou privados que exigem a competente apresentação de credenciais. Não sei, chamam-me Américo e eu, que estou tão habituado a chamar-me Hernâni, procuro sempre outro indivíduo ao meu lado, no meu próprio lugar. Sinto-me outra pessoa, um estranho de mim mesmo. Tratar-me por Américo é um privilégio que está reservado ao meus companheiros da escola primária, em Fafe, e mesmo com esses poucos que ainda se lembram de mim nunca sei se é comigo que estão a falar quando falam comigo. O Bergiguinha chama-me Américo com todo o direito, mas diz que chama Américo a todos os homens da minha família. Segundo. "Quando era novo", disse ela. Quando era novo?! Porra, eu ainda sou novo, tentei corrigir gentilmente a senhora doutora, atirando ao ar duas ou três larachas e apanhando-as, a todas, sem deixar cair, disparando-me da marquesa, acto contínuo, num acrobático salto encarpado, com duas piruetas à retaguarda.
Mas não adiantou. Pelo contrário. A doutora insistia, parecia-me agora que com algum prazer, com uma certa maldade, "quando era novo" para aqui, "quando era novo" para ali, "quando era novo" acima, "quando era novo" abaixo, e quem sou eu para contrariar o veredicto da medicina, a sábia decisão da ciência?
E foi assim. Nesse dia, naquele preciso momento, fiquei velho para toda a vida, por indicação médica e sem remédio. Eu acabara de fazer 41 anos.

P.S. - Hoje é Dia do Serviço Nacional de Saúde.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

Saiu-me a reforma

Saiu-me a reforma, ontem. Isso. Às quintas-feiras anda a roda. Eu meti os papéis, aqui atrasado, no prazo certo, logo no primeiro dia possível, e ontem saiu-me a reforma, soube hoje. Eu preferia que me tivesse saído o euromilhões, a sorte grande, mas saiu-me a reforma, melhor que nada, e é com ela que tenho de contentar-me e governar-me daqui para a frente. Agora, com maioria de razão e papel passado, estou enfim capacitado para dizer mal de tudo e de todos e "é por isso que este país não vai para a frente" e "no meu tempo é que era" e "esta gente não quer trabalhar" e "era fodê-los" e assim sucessivamente. Portanto, estou pronto. No ponto. Que é que eu quero mais? Estou reformado. Vou tirar o passe de terceira idade, aprender a jogar à sueca, inventar netos, comprar um capacete, um par de botas de biqueira de aço e um colete reflector, ponho as mãos atrás das costas e vou para o pé das obras mandar palpites.

sábado, 28 de outubro de 2023

Trunfo é paus

Quatro tigres-de-bengala. Jogam sueca e contam antigamentes, na fresquinha do jardim que nunca lhes puseram.

Isto das idades realmente

O quarentão é a média de todos nós. O cinquentão começa a desconfiar da vida. O sexagenário passa a constar das notícias. O septuagenário anda em contramão na auto-estrada. O octogenário é porque se safou no acidente. O nonagenário quer que os quarentões, os cinquentões os sexagenários, os septuagenários e os octogenários se fodam e refodam. O centenário só se realiza de cem em cem anos, e está certo.

domingo, 1 de outubro de 2023

O idoso

Chegou aos 66 anos e quatro meses... e reformou-se. Tirou o passe de terceira idade, comprou um capacete, um par de botas de biqueira de aço e um colete reflector, pôs as mãos atrás das costas e foi para o pé das obras mandar palpites.

P.S. - Hoje é Dia Internacional do Idoso.

domingo, 27 de novembro de 2022

O ano da morte do Menino Jesus

O Menino Jesus morreu. Tinha 84 anos e era Maio de 2012. O corpo foi encontrado por acaso, rodeado de solidão e lixo, na casa onde resolvera fechar-se ninguém soube dizer-me há quanto tempo. As autoridades sanitárias, que não têm culpa do nome que lhes puseram nem da gramática que lhes deram, suspeitam que o óbito terá ocorrido pelo menos cinco dias antes da macabra descoberta. Azar do caraças: dois dias a mais. Ao terceiro safou-se o Outro.
Estão a ver? Estão a ver aquele senhor esquisito e careca que vestia sempre um casaco de cabedal preto quase até aos pés, tipo Gestapo, Deus lhe perdoe, pasta na mão e calças zangadas com os sapatos como agora se usam, mas eram à boca-de-sino? O senhor que apanhava o autocarro que vai do Castelo do Queijo até à Baixa do Porto? Estão a ver? Exactamente: era esse o Menino Jesus, que também ninguém sabe dizer-me porque se chamava assim, só se fosse por ser um bocado extraordinário como o Outro.
O Menino Jesus foi engenheiro e solteiro. Viveu sempre com a mãe, mas a mãe morreu antes dele e isso fez-lhe diferença. São tragédias a que raramente ligamos, porque, adultos como somos, achamos que as mães só fazem falta às criancinhas criancinhas, erro crasso. Quando passou a viver sozinho, durante mais de vinte anos, o Menino Jesus preferiu desviver até ao fim. Ali mesmo, em Nevogilde, num dos largos mais ruralmente nobres da cidade do Porto, zona de ricos.
Sou pobre, mas passava lá quase todos os dias. Vi uma vez uma equipa da polícia a bater-lhe à porta. A PSP e a GNR andam a fazer um trabalho inestimável de identificação e encaminhamento dos idosos que moram sós e em risco. Acredito que têm salvo muitas vidas e só peço que se lembrem de mim se chegar a minha vez. Mas sei que a porta do Menino Jesus nunca se abriu.
O Menino Jesus morreu no ano de 2012 e continua a morrer por aí. O Menino Jesus morreu sozinho. E não devia. Não por ser Menino Jesus e "rico", mas porque ninguém deve morrer sozinho. Já basta o que basta, morrer já deve ser fodido que chegue. E tenho de confessar que não sei se o Menino Jesus tinha exactamente 84 anos. Os jornais do dia seguinte decerto deram a idade certa do homem, porque às vezes falam verdade nas notícias pequenas. Ou então morreu apenas mais um octogenário.

sexta-feira, 28 de outubro de 2022

O velho tinha razão

- Estou um velho - disse o velho.
- Não está nada - disse a visita.
- Um caco - disse o velho.
- Como novo - disse a visita.
- Já não duro muito - disse o velho.
- Inda vou primeiro - disse a visita.
- Dói-me tudo - disse o velho.
- É da idade - disse a visita.
- Ai que eu morro - disse o velho.
- Morre nada - disse a visita.
- Morro, morro - disse o velho.
- Não, não morre - disse a visita.
- Morro - disse o velho. 
E morreu. Até porque já estava a ficar chateado.

P.S. - Hoje é Dia Mundial da Terceira Idade.

Candidaturas ao Prémio A. Lopes de Oliveira

Decorre o período para concurso ao Prémio Literário A. Lopes de Oliveira / Câmara Municipal de Fafe, destinado a distinguir estudos históric...