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terça-feira, 13 de junho de 2023

Bicho bom é malcriado para todos

José Henrique, primeira figura que se preza, garante que sozinho lida melhor. Toiros, há-os "bons e os que não prestam". Mas raramente é surpreendido: "Conheço-os a todos e eles conhecem-me a mim. O toiro sabe por onde eu vou e eu sei por onde ele vai. Por isso posso muitas vezes pôr-lhe a mão em cima da testa", que é do que o povo gosta. A alguns animais foi ele quem os toureou na "primeira corda, na segunda e na terceira". E chega a lidá-los até cinco vezes.
Mas o que verdadeiramente dá gozo a José Henrique, capinha, é que os toiros lhe apareçam "bravos", que lhe saiam "o 309 ou o 314, o melhor, que é malcriado para todos". O que se compreende: afinal, já lá vai quase uma dúzia de anos e, não sossega o gabanço, nunca foi "pegado".

Passou um quarto de hora, e dois foguetes ordenam a recolha do primeiro da tarde. Por momentos a rua volta a encher-se de heróis refractários que, sumários minutos escorridos, ao aviso estrondoso de mais um foguete, outra vez voam supersónicos a esconderem-se no quentinho dos abrigos. Aí vem o segundo. E tudo se repetirá mais duas vezes, que a função completa é assim, quatro-toiros-quatro.

Tourada à corda, um espectáculo de reis. D. Carlos e D. Amélia estiveram uma vez na corrida de São João de Deus. Um espectáculo de rua e de mar, para onde se atiram toiro e homem, no Porto de Pipas, para o banho sacramental. E um espectáculo para todos na RTP Açores, que transmite em directo as principais corridas.
Ao vivo, é a delícia de uma multidão paciente, conhecedora, apaixonada. Devota. Na Terceira vai-se aos toiros praticamente desde que se nasce. Incontornável ponto de encontros, à sombra daquele desbragado sol selam-se amizades de vidas, e muito casamento é ali mesmo que se ajeita. Convívio, é isso. As corridas à corda são também por fora: muito convívio a fazer a festa da festa.
Com 70 anos bem medidos, João Gatim, pescador na reforma, vê toiros desde que se lembra de enxergar alguma coisa. "Nos toiros, por este nome, toda a gente sabe quem sou", faz questão de avisar. "Ando aqui porque gosto, e pronto, muito mais do que das corridas na Praça. E aí vou eu, com os meus amigos, já há muitos anos, por esses arraiais fora", diz-me, encolhendo os ombos.
Claro que, no seu tempo, Dom Gatim também deu o seu gostinho à sapatilha à frente dos toiros e trambolhou vira-cus que são o seu orgulho. Recorda: "Fui pegado três vezes - da primeira estive quinze dias de cama, mas das outras duas, é claro, já sabia mais e saí-me limpinho".
Mestre João Gatim contenta-se agora como espectador. Não um qualquer, atenção! Peregrina, batendo-as a todas. Mais sôfrego por corridas à corda que o Libaninho do Eça por missas, papa quantas pode. Por ano, vai aos toiros aí umas cem tardes. Santo consolo...

P.S. - Sétima e última parte de uma reportagem que escrevi originalmente para a Revista do Expresso de 6 de Julho de 1996. Situemo-nos, por isso, no tempo. Convocadora de multidões, curtidora de épicas bebedeiras e alcoviteira de muito casamento, a corrida à corda da Terceira era o "verdadeiro futebol" da ilha.

segunda-feira, 12 de junho de 2023

A arte dos capinhas e o passe de guarda-sol

Os capinhas, em pose inicial algo parecida com a do forcado da cara nas corridas à portuguesa, enfrentam o toiro, citam, provocam, correm-lhe ao encontro, ensaiam o "temple", "aguentam" ou, momento supremo, "adornam-se", tocando-lhe entre hastes. E raspam-se a mil à hora. E reincidem. Sempre pela frente. "Passar por detrás do rabo de um toiro é desconsideração, é uma falta de respeito ao animal", elucida-me um purista, velho aficionado. Compete aos capinhas "levantar" o toiro, fazê-lo dar o máximo ao espectáculo.
E aqui é que bate o ponto. Algumas más-línguas desconversam que estes espontâneos em full-time recebem dinheiro dos ganadeiros para fazerem brilhar especialmente os seus toiros ou, coisa medonha, são pagos por criadores terceiros para reduzirem ao fiasco a exibição dos animais da concorrência...
Maldades ditas do piorio. A pés ambos, José Henrique e Noé - dois dos quatro ou cinco capinhas sobreviventes em toda a ilha ("Há por aí uns rapazes a aprender") - juram que não, e que não, e que não: "Não há negócio nenhum, nem com os ganadeiros nem com as comissões de festas". Pois...
"É só por gosto, a gente gosta. Tourear toiros é bonito. Isto para mim é como o futebol, o meu verdadeiro futebol", explica-me José Henrique, na arte há onze anos e em vésperas de pendurar as sapatilhas.
José Henrique considera-se "um toureiro toureiro realizado", faz questão de frisar apontando para os meus apontamentos. Toureiro toureiro, assim mesmo, não foi engano. "Já toureei na América, toda a gente que vem aos toiros me conhece", acrescenta, com orgulho internacional. Passou pela escola de toureio da Praça de Angra do Heroísmo, mas "não tinha gosto nem vagar". Ainda assim não resiste a dar lá uns saltos, à Monumental, para expor a sua valentia, desafiando toiros "sem muleta, sem capa, de peito aberto".
Conta-me: "Uma vez, eu, o Ananias, o Dimas, o Magalhães e o Rosas lá estivemos. Eram toiros bem bravos, o 163 e o 164. Toureiros do Continente e de São Miguel nem lhes conseguiam chegar, e a gente ali, a ajudarmo-nos uns aos outros, a escorregarmos quando calhava, mas a fazermos ver àquele povo. É bonito é ir ao meio da praça e chamar o toiro com o guarda-sol"...
Note-se que raros capinhas se aventuram hoje em dia ao famigerado passe de guarda-sol, executado em duo: um, empunhando o guarda-sol propriamente dito, e o acólito ao lado, com a samarra nas mãos; um a servir de engodo ao toiro e o outro a rematar o número em beleza; ou vice-versa. São raros. E por via disso é que os mais antigos recordam com saudade e emoção as grandes tardes do Prosa, exímio executante daquela arte.

P.S. - Sexto fascículo de uma reportagem que escrevi originalmente para a Revista do Expresso de 6 de Julho de 1996. Situemo-nos, por isso, no tempo. Convocadora de multidões, curtidora de épicas bebedeiras e alcoviteira de muito casamento, a corrida à corda da Terceira era o "verdadeiro futebol" da ilha. E amanhã há mais.

domingo, 11 de junho de 2023

Há que tê-los, como os toiros...

A entrada em cena da fera espanta a preguiçosa turbamulta, que corre agora a esconder-se por trás dos taipais e a empoleirar-se nas cristas dos muros. No entanto, quer parecer de repente que há ali valentes - muitos, alguns, cada vez menos -, que, desajeitados, de largo, arremedam manobras patuscas a que o bicho faz o favor de não deitar sentido. Mas não. Era afinal a armar à precária coragem de encomenda. Logo que se encurtam as distâncias, ala que se faz tarde, os heróis de pacotilha enxotam-se rua fora em carreiras destrambelhadas. É. Para enfrentar o toiro, há que tê-los. Mas não estão à venda...
Em menos de um susto, o terreno fica limpo, entregue aos que verdadeiramente lhe têm direito: o toiro mais os pastores e os capinhas - um, dois ou, no máximo, três. Capinhas? Vá-se lá saber o porquê do nome. Estes jovens não vestem "trajes de luzes", não usam capote nem manejam a espada. Sem farpela especial, precisam, isso sim, de umas boas sapatilhas. E ali estão! Agora é que é, assunto para esclarecer entre verdadeiros artistas, os capinhas e o toiro. E então se enovela uma dança-luta de prender atenções e cortar respirações, arca por arca, mano a mano, sem truques.
Nada na mão, nada na manga. Ordena o Regulamento das Touradas à Corda da Região Autónoma dos Açores que "todos os participantes na lide ou corrida não podem utilizar instrumentos susceptíveis de provocar ferimentos no toiro, como "aguilhões", podendo, todavia, fazer uso dos instrumentos consagrados como tradicionais, nomeadamente o bordão, blusa ou pano, a varinha e o guarda-sol."

P.S. - Quinto episódio de uma reportagem que escrevi originalmente para a Revista do Expresso de 6 de Julho de 1996. Situemo-nos, por isso, no tempo. Convocadora de multidões, curtidora de épicas bebedeiras e alcoviteira de muito casamento, a corrida à corda da Terceira era o "verdadeiro futebol" da ilha. E amanhã há mais.

Teatro em família no Teatro-Cinema

O espectáculo "Pelo prazer de não estarmos sós" sobe ao palco do Teatro-Cinema de Fafe, no próximo dia 20 de Setembro, domingo, às...