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segunda-feira, 22 de maio de 2023

Dou abraços em segunda mão

Andei a remexer nas gavetas, faço isso uma vez por ano, sei eu lá porquê, e no meio da papelada sem sentido encontrei duas dúzias de abraços antigos mas ainda em razoável estado de conservação, dois deles desirmanados e pelo menos um que de certeza não é meu, achei-o talvez, mas já não lembro, pu-lo de lado e estou pronto a entregá-lo a quem provar pertencer-lhe.
Quanto aos outros, deixei-os estar, devem ser sobras da pandemia e não sei o que me parece deitá-los fora. Quem os quiser, que diga. Eu dou-os!

P.S. - Hoje é Dia do Abraço. Amanhã pode ser tarde.

Saudações inimigas?

Escrevi aí a uma ungida criatura e, no final, mandei-lhe um "grande abraço". A criatura despachou-me às três pancadas e, no final, mandou-me, para a troca, "saudações amigas". Saudações amigas? Mas, Senhor Bispo, o que raio são saudações amigas? Evidentemente serão o contrário de saudações inimigas, mas o que são saudações inimigas? Abraço, eu sei: o abraço é sólido, palpável, vê-se, sente-se, dá-se, recebe-se, aperta-nos, aproxima-nos, humaniza-nos, igualiza-nos. Agora, saudações amigas? Isso traz água no bico...

O abraçador de causas

Ele gostava de abraçar causas, mas era muito desajeitado. Foi acusado de assédio.

Era de abraços

Abraçou o desemprego com o mesmo entusiasmo com que abraçara a profissão. Era realmente uma pessoa muito abraçadeira...

O amplexo veio para trás

O meu amigo fazia anos e eu mandei-lhe uma SMS: "Parabéns. Abraço."
O meu amigo respondeu-me, também por SMS: "Devolvo o abraço. Obrigado."
E eu pensei: o meu abraço tinha defeito?...

quinta-feira, 13 de abril de 2023

Dava-te um beijo, mas não tenho...

Dizem-me que as palavras já não valem nada. Mentira. As palavras são cada vez mais poderosas, as palavras dominam as nossas vidas. As palavras até tomaram o lugar dos afectos, dos carinhos. Reparem. Antigamente davam-se beijos, davam-se abraços. Agora dizem-se beijos, dizem-se abraços. O gesto ancestral e puro foi substituído pela retórica etiquetada, o contacto físico acabou vergado ao esboço da intenção - à simulação. À dissimulação?
Dizemos "Beijinhos", dizemos "Abraço", dizemos olá de boca, e assim ficamos. Pelas palavras. Beijos e abraços são só vocábulos, paleio. Mantemos uma distância alegadamente higiénica entre nós, os alegados amigos uns dos outros. Dizemos. Enviamos. Remetemos. Aproveitamos a oportunidade para. Ao telefone, por escrito, ao vivo na pressa da rua, na patetice dos emojis. Dar a sério (à séria, se lido em Lisboa) é que não. Ninguém dá nada a ninguém - nem sequer beijos, nem sequer abraços. Fazemos votos de. "O que lhe estimo é um magnífico beijo", "Desejo-lhe um excelentíssimo abraço". E nisto estamos.
É. Olhem bem à volta: as palavras estão em alta, navegam de vento em popa. As palavras. O que verdadeiramente está em crise é a palavra, a palavra singular e definitiva, essa vaga memória de uma honra démodée que se arrasta pelas ruas da amargura - abandonada, pobre, cega e nua. Mas isto, claro, sou eu a dizer e são apenas... palavras, palavras, palavras.

Tolentino Mendonça em Fafe

O cardeal e poeta José Tolentino Mendonça é o convidado de Novembro da segundo edição das Conferências de Fafe, promovidas pelo Município. O...