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domingo, 24 de maio de 2026

A fauna do Jardim do Calvário


A Câmara de Fafe chama a atenção para "as espécies arbóreas e arbustivas do Jardim do Calvário". E faz muito bem. A autarquia informa que colocou etiquetas "às espécies mais emblemáticas", placas informativas "que permitem realizar um percurso interpretativo da flora existente" naquele histórico e às vezes aprazível parque de lazer. As árvores e os arbustos do Jardim do Calvário são, desta maneira, elas próprias e eles próprios, diz o Município, "uma exposição de carácter permanente". A entrada, desta vez, é livre - acho eu.
Isto no que respeita à flora. Lamentavelmente, a louvável iniciativa, creio que se trata de uma iniciativa, apresenta-se mais uma vez manca, quero dizer, omissa em relação à fauna do Jardim do Calvário, que, admito, poderá não ser propriamente um serengueti, mas também não é nada de deitar fora, tinha até crocodilos, não sei se ainda tem, crocodilos aliás noctívagos e bastante barulhentos, já escrevi aqui, aduzindo provas irrefutáveis, e se não acreditam em mim, perguntassem ao Mecas ou a quem lhe foi das relações, gente assim mais de fiar do que eu...

P.S. - Texto publicado no dia 23 de Setembro de 2024. Hoje é Dia Europeu dos Parques Naturais.

domingo, 12 de maio de 2024

Crocodilos no Jardim do Calvário

Foto Hernâni Von Doellinger

O Jardim do Calvário, em Fafe, recebe a partir de amanhã um exposição de dinossauros. E isso é porreiro. Quinze dinossauros, concretamente, e em tamanho natural, certamente uma considerável despesa em penso até ao próximo dia 16 de Outubro. E é, de alguma maneira, um regresso às origens. Porque aquele bucólico espaço, cujo lago de bolso, para além de cisnes ou pelo menos patos, já teve barcos ou pelo menos barco, houve uma altura, e não vai assim há tanto tempo, em que tinha também crocodilos. E deviam ser uns crocodilos enormes.
Os crocodilos faziam um barulho medonho à noite e não deixavam descansar o Mecas, que morava ali ao lado, em casa do padrinho, se bem me lembro. O Mecas ia depois para a fábrica (a Fábrica do Ferro, é claro) e, embora fosse por natureza um trabalhador exemplar, passava o dia inteiro a dormir lá em cima dos fardos de algodão exactamente por causa dos estupores dos crocodilos - conforme ele próprio explicava aos chefes, mestres, encarregados, afinadores e até patrões quando o apanhavam na sorna, que era todos os dias.
Sei quase tudo o que verdadeiramente interessa saber sobre o Jardim do Calvário, porque eu e o Jardim somos uma história muito antiga. Foi ali que eu me iniciei no mundo do espectáculo, evidentemente como espectador, com lugar cativo no serão das inesquecíveis Festas da Vila. Ano após ano, antes da marcha e do fogo, passaram-me pelas mãos a Senhora Dona Amália, a Hermínia Silva - que, para além do indispensável Pacheco, trazia atrás o filho, o tenor Mário Silva -, o Rodrigo, a Tonicha, o José Cid, o Paco Bandeira, a Dina, os putos do Mini Pop que tinham ido ao Festival da Canção e depois viriam a ser os Jafumega, o Hugo Maia de Loureiro que era cinturão negro e campeão de judo e ofereceu no focinho aos assobios de uns tantos por causa de um playback mal explicado, o Nicolau Breyner e o Herman José que andavam a passear pelo País a rábula do "Senhor Contente, Senhor Feliz", eventualmente a Lenita Gentil, a Florência, o Armando Gama e o Marco Paulo, e o mais certo é ter levado também com o Nelo Silva e com os Broa de Mel, com o Manuel Morais e com o "Cantinflas Português" que era uma coisa que só vista...
Estão a ver, portanto, o meu currículo. O nosso currículo. Eu e o Jardim do Calvário. Eu entrava à sorrelfa, todos os anos variando de expediente, porque os espectáculos eram a pagar, tinham plateia para a burguesia local, comerciantes e pequenos industriais, respectivas matronas e extremosa prole, que se acadeiravam no espaço de cimento aparentemente afectado por um cataclismo de filme e pomposamento chamado de "rinque de patinagem", os mais ricos dos mais ricos nas filas da frente, e à volta da vedação, de pé, apertadinhos e aos apalpões, era a geral, éramos nós, pessoal do rés-do-chão mas os que batíamos mais palmas quando tínhamos as mãos de vago.
Se não estou em erro, terá sido ali mesmo que começou essa tradição tão festiva e tão fafense do "cuelho", também chamado de empernanço ou, cientificamente falando, "estou a ver passar os ciclistas"...

No Jardim do Calvário iniciei-me também nos concursos do vestido de chita e, confesso, nos fumos. Pelos nove-dez anos, ia fumar para as escadas do inamovível portão das traseiras, o sítio de Fafe onde se faziam as coisas feias. O Bílio - sim, esse Bilinho, meu querido companheiro de infância - aparecia com meio maço de Definitivos, que ali queimávamos num instante, antes que alguém nos visse e fosse contar à minha mãe. Depois eu ia-me confessar. Porque Deus vê tudo e fumar era um pecado muito grande, um dos maiores logo a seguir à masturbação. Não fiquei com o vício. Do cigarro, quero dizer.
Pelos dezoito-dezanove, já nas escadas da frente, lá no alto, fui apresentado à liamba, que tinha vindo de Angola com uma mão à frente e outra atrás e era muito fixe. Nunca percebi a moca dos outros, sempre pensei que estavam apenas a armar-se, porque a mim a coisa não fazia absolutamente nada, tirando os engasgos. E também não fiquei freguês.
Ao longo dos últimos anos, sempre que pude e posso, voltei e volto ao Jardim, para mostrar aos amigos, para ouvir os concertos da Banda de Revelhe (era o sítio certo, valha-me Deus!), ou apenas, e dizer aqui apenas é uma rematada tolice, para, sozinho, envergonhadamente comovido, apaziguar as saudades.

Mas aos dinossauros é que eu não vou. Acho muito bem que os dinossauros estejam em Fafe, já disse, e estimo-lhes os maiores sucessos. Porém é no Jardim e a pagar, e eu não dou para esse peditório. Por uma questão de princípio. Não sei como é que as coisas vão ser organizadas, se os fafenses poderão desfrutar do seu Jardim do Calvário durante o tempo da exposição, se poderão levar os seus filhos aos baloiços, se poderão passear livremente com a família por aqueles caminhinhos de brincar, se poderão ocupar um banco sem serem presos. Isto é: será obrigatório comprar bilhete para simplesmente entrar no Jardim?
O próprio Município cataloga o Calvário como o "mais importante jardim público da cidade". Público. E no entanto o Jardim do Calvário parece às vezes privatizado por pessoas que pensam que o jardim é só delas, e não é, o jardim é de todos, e eu não percebo nada disto. Sempre me incomodou a visão merceeira do serviço público mas pouco, a ausência de bom senso, o quero, posso e mando de quem não respeita o povo nem cuida dos mais pobres. Sempre me fez espécie a esperteza saloia de convidarmos visitas para nossa casa e cobrarmos bilhete à entrada da sala de estar.
Pagar para entrar no Jardim do Calvário, jardim público? Nunca! Quando eu era pequeno e me diziam que estávamos no fascismo, eu suspeitava que fascismo era exactamente aquilo: pagar para entrar no Jardim do Calvário ou para ir ao escorrega. Portanto não vou aos dinossauros. Por uma questão de princípio, repito. E também já não tenho idade para saltar muros...

P.S. - Publicado aqui originalmente no dia 9 de Setembro de 2022, e daí a história dos dinossauros, que é dessa altura e convém contextualizar. Como combinado, estamos a recordar alguns dos meus apontamentos alusivos ou de certa forma ligados aos nossos 16 de Maio, isto é, às Feiras Francas de Fafe, à nossa ruralidade antiga e irrevogável.

Teatro em família no Teatro-Cinema

O espectáculo "Pelo prazer de não estarmos sós" sobe ao palco do Teatro-Cinema de Fafe, no próximo dia 20 de Setembro, domingo, às...